A poeira na estrada – Parte V

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O silêncio do padre o incomodava. Lia aquelas linhas como um esfomeado diante do último prato de sopa. Era a sua paixão pela poesia que se manifestava? Improvável. Mesmo não sendo conhecedor da literatura, Matias Santa Rosa cria que aqueles versos não eram de algum autor famoso, mas do assassino. E se era de um assassino de Terra Vermelha, não poderia ter qualidade artística notável.

Os olhos do padre no papel. Estava lendo, percebia-se. Lendo e relendo. Seus olhos corriam cada linha, chegavam ao fim da página, recomeçavam. Detinham-se por alguns segundos em algum ponto, para em seguida continuarem sua busca por algo que Matias Santa Rosa não sabia se estava lá.

Depois da leitura, o silêncio. O olhar perscrutador do homem de Deus como que já condenando ou absolvendo por antecipação. E quem ele condenava? A mim? Ora, eu detenho essa prerrogativa. Eu sou o investigador. Eu estou perseguindo um culpado. Mas o olhar. Matias Santa Rosa sentia-se nu, recém saído do Éden, o próprio Adão apanhado no erro. Endireitou-se na cadeira, instintivamente cobrindo com a mão direita a sua genitália.

Ora essa! Vim na posição de autoridade, como inquisidor e agora sou reduzido a um garotinho travesso e caipira, que treme diante de uma batina, como se merecedor da danação eterna por ter faltado à aula de catecismo.

Esse silêncio. Melhor seria ter recebido nome de assassino. Ou de mau poeta. Melhor ser enxotado da igreja, como pecador público que não sou. Nada é tão cruel quanto essa espera.

É você quem tem que falar, não eu. Seus lábios precisam tremer ante a expectativa das palavras que se revelarão, não os meus. É sua garganta que tem que secar, é seu o desconforto na cadeira.

Derrotado, me rendo. Há um assassino, e precisa ser preso. Este jogo não pode se prolongar, pelo bem da justiça.

Assim, sentindo-se o protomártir de Terra Vermelha, sendo seu sangue a sua vontade, e seu algoz o silêncio devastador do padre, desatou a falar. Disse mais do que gostaria de ter dito, mas enchia-se de esperança, à medida que confidenciava suas suspeitas, de ser correspondido pelo terrível homem de Deus.

O que vou lhe contar, padre, não tem precedentes aqui em Terra Vermelha. Conto-lhe como se estivesse me confessando para obrigá-lo ao silêncio. Este mesmo silêncio que você agora me devota, e com o qual me aflige, exijo doravante acerca de tudo que estas paredes ouvirem.

Há eventos ocorrendo nesta terra que ultrapassam toda noção de maldade que a sua ingênua visão religiosa lhe permite ter. Somos maus, os homens, padre. Maus. E para alguns de nós não há redenção possível. É um desses que não se redimirão que procuro. Alguém que assumiu o papel de juiz, júri, e executor de outras pessoas que trazem máculas em seu comportamento. E isso não posso suportar, padre. Sou uma pessoa em formação que nunca alcançará a plenitude. E nem quero isso. Convivo bem com os meus defeitos. Mas acredito no sagrado. Que não é só Deus. Acredito que há valores, princípios que não podemos violar e que devemos defender, como causa na qual vale investir uma vida. Não estou em Terra Vermelha para ser mais um, assim como você não está. Seu papel na condução das almas assemelha-se ao meu, que só agora, conversando com você, compreendo bem. Devo conduzir os homens à justiça desta terra.

Houve dois assassinatos, padre. Dois homens questionáveis se considerarmos seu agir perante a sociedade. Párias à sua própria maneira, cônscios da sua transgressão, felizes no seu inferno. A forma como morreram, a violência de que foram vítimas, a poeira, o sangue, a estrada, o burburinho cruel das primeiras testemunhas, o desprezo, tudo isso me chamou a atenção. Tenho pensado dias e dias sobre isso até me doer a cabeça. Não durmo, não me alimento direito, nem respiro sem que acredite que isso vai me auxiliar na resolução deste mistério. Estes versos são chave fundamental, padre, e estavam nos corpos das vítimas. Fiz-me criminoso para salvar os criminosos, convertidos em vítima. E os poemas me revelaram bastante. Até chegar aqui havia muitas dúvidas. A sua presença, a forma como você contemplou, este ambiente, não sei, mas algo nesta igreja me fez compreender. Haverá outra vítima. Estas poesias não falam de seus portadores, mas da vítima seguinte. E digo isso sem qualquer dúvida. Fiz algo terrível para ter essa certeza. Encontrei primeiro o bilhete no corpo de Marinho, tendo imediatamente deduzido que deveria haver outro no corpo de Olavinho. Pensei em vir aqui primeiro e, dependendo do que obtivesse, ir atrás do outro poema. Mas a minha convicção foi suficiente. Comecei a investigar. Descobri que Olavinho fora enterrado pelo coveiro como um cachorro sem que sequer o tivessem lavado de todo aquele sangue e toda aquela poeira. Essa barbaridade me convinha perfeitamente. Fui até o cemitério ontem à noite. Dez dias. O corpo já estaria cheirando muito mal, e eu sabia disso. Mas a minha pista estaria lá. No canto do cemitério, longe dos outros corpos, como se nem na morte fosse digno da companhia dos cidadãos, fora enterrado aquele que parecia portar toda a lascívia desta puritana terra. Dois galhos de jaboticaba cortados grosseiramente, amarrados de forma perpendicular com uma tira de couro, representavam o signo cristão, como se a qualidade da vida que o defunto havia levado estivesse diretamente relacionada à feitura da cruz que selava a sua cova.

A terra pouco batida e a ausência de flores, aliadas ao isolamento e à horrível cruz permitiam concluir que o morto havia sido o maior pecador da nossa terra.

Cavando com uma pá improvisada – um pedaço de enxada velha, sem cabo, que preferi utilizar para poder disfarçá-la, caso fosse visto – logo comecei a sentir o cheiro da corrupção do corpo. A cada nova estocada, à medida que ia adentrando aquele inferno, foi-me permitido experimentar o cheiro da corrupção do espírito, mais forte que qualquer carne podre, mais contaminador que qualquer doença. Por pouco não saí correndo aos gritos. A loucura ficou parada à porta da minha mente, não tendo entrado e dela se apossado não sei por que razão. Aprendi mais sobre redenção e misericórdia enquanto tirava aquela terra do que durante todas as aulas de catecismo às quais forçadamente compareci.

O cheiro podre do corpo de Olavinho tornou-se doce e agradável ao ser confrontado com a fétida fragrância do espírito corrompido do assassino, que se impregnara indelevelmente à vítima. Não conseguia ver um morto pecador, mas um injustiçado. As lágrimas jorraram quando o metal feriu a carne. Com cuidado, usei as minhas próprias mãos para tirar a terra, os vermes. Venci uma grande batalha interna, mas cometi o último ato de violência contra aquele homem. Rasgando-lhe as roupas, consegui identificar o papel, bastante dobrado, semioculto nas suas partes íntimas, uma forma nada sutil de o assassino indicar o motivo da condenação.

Após um longo e meticuloso trabalho para retirar os sinais da minha atividade, fui até a Lagoa de Seu Paulo. Precisava sentir o frio da água limpando a minha angústia. Por uma hora tremi, submerso, enquanto minha mente trabalhava. Nem havia desdobrado o papel, mas sabia o que era, sabia que confirmava a minha teoria.

Cheguei à minha casa quase ao raiar do dia. Em silêncio, entrei no quarto, acendi o candeeiro, e pus-me a estudar o primeiro poema, comparando-o ao segundo, tentando encontrar as ligações, imaginando que alguém que se dava ao trabalho de deixar um recado numa pessoa que havia assassinado era autoconfiante o bastante para escrever algo pessoal. Não consegui. Não conheço bem as pessoas desta terra. Sei que o segundo poema fala da terceira vítima, mas ainda não sei de quem se trata. Um homem entregue aos desejos carnais, que botou chifres, segundo conta, em metade dos homens da cidade, e desonrou a outra metade, deflorando moças. Um macumbeiro boca suja que fazia trabalhos que iam desde encontrar objetos perdidos até recuperar o amor de uma mulher. O que eles têm em comum? Eu sei que está aí. Sei que há uma linha. Mas não encontro.

O que me diz, padre? Falei e falei. Sua vez agora. Não me desaponte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s