Santuário – William Faulkner

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Pelo que pesquisei, Santuário foi o único sucesso comercial de Faulkner, e ele escreveu exatamente com esse propósito. Estou na página 97 (é um romance curto, de 277 páginas) e me fascina o modo como Faulkner escreve. Mais do que o que ele diz, é o que ele NÃO diz. Essa é uma habilidade que pretendo desenvolver, imitando esses grandes gênios.

O livro começa com mais um personagem enigmático de Faulkner: Popeye, um sujeito de passado obscuro e aparentemente perigoso. Li outras duas obras do escritor americano: Luz em Agosto e Enquanto Agonizo, em os personagens são todos “incompletos”. Na verdade esse não é o termo adequado, porque entra em cena o jogo que Faulkner faz com o leitor, ao equilibrar o que é dito com o que não é dito.

Prestando atenção à forma como o livro é escrito, lembrei de ter lido em algum lugar que ao escrever, devemos dar ações aos nossos personagens, e Faulkner faz isso, certamente. Há verbos, muitos verbos. Os personagens não param:

“Continuou, lentamente. Depois, parou. No quadrado de luz emoldurado pela porta, via-se a sombra da cabeça de um homem. Ela deu um salto, pronta para correr. Mas a sombra não tinha chapéu, de modo que ela se virou e, na ponta dos pés, foi espiar à porta. Viu um homem sentado numa cadeira, ao sol. A nuca estava voltada para ela. Cabeça calva, com uma franja de cabelos brancos. Mãos cruzadas no castão de grosseira bengala. Temple entrou no alpendre dos fundos.”

A história envolve traficantes de bebidas – gângsteres – um homem que quer se separar da mulher porque odeia camarão, uma estudante cabeça-de-vento, uma prostituta, estupro, assassinato. Ainda há muito por vir.

O ambiente, com o qual estou me habituando – Faulkner escreve no condado de Yoknapatawapha, situado no sul dos Estados Unidos, início do século XX – é interessantíssimo. Uma passagem que ilustra bem o pensamento da época:

“- Foi a razão de ter abandonado Belle? – perguntou Miss Jenny. Olhou para ele e continuou: – Você levou muito tempo para perceber que, se uma mulher não dá boa esposa para um homem, não é provável que dê para outro; não levou mesmo?

– Mas sair de casa, assim, como um negro! – comentou Narcisa. – E misturar-se com contrabandistas e prostitutas…”

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4 Respostas para “Santuário – William Faulkner

  1. Ações definem!
    Eis algo que aprendi muito lendo o clássico do Art Spiegelman passado por teu irmão.
    Creio que, quando eu tiver coragem e me pôr diante de Faulkner, terei que faezr o mesmo comentário de agradecimento direcionado a ti…

    WPC>

  2. Aonde achar Santuário??
    procuro nos sebos, lojas, mercado livre e nada! é uma pena que muitos títulos do Faulkner sequer foram reimpressos no Brasil.
    Desça Moises, Mosquitos, Paga de Soldado e Requiem para uma freira, praticamente impossivel achar. Talvez vou partir para as livrarias de Portugal (onde dão mais valor as obras do Nobel de literatura de 1949)

    Obs: sou fã do cara…

    • Se eu não estiver enganado, comprei Santuário no Sebinho, em Brasília. Eu não encontrei em nenhum outro lugar depois disso, é realmente um livro difícil de encontrar. Tem uma leva mais nova de livros de Faulkner reeditados, mas nenhum desses que você falou eu encontrei em português.

      Veja na Estante Virtual. Não sei quanto aos outros, mas Santuário, tenho certeza de que você encontra.

      Obrigado pela visita, Cris, e volte sempre ao blog!

  3. Pingback: Resenha – O Som e a Fúria – William Faulkner | Catálise Crítica

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