O DIABO NÃO DESCANSA AOS DOMINGOS – V

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Que fonte admirável de imbecilidade! – admirava-se em pensamento Pe. Luis, enquanto tomava ares altivos diante do jovem e de sua sincera deprecação. Luis, apesar da jovialidade explícita, e de, às vezes, cair no pecado da vaidade intelectual, implicitamente resguardava um homem maduro dotado daquela dignidade ministerial, que escolhia, em várias situações, refrear a língua e não dizer o que verdadeiramente lhe vinha à cabeça.

“Ingênua visão religiosa lhe permite ter?”. É assim que me interpretas jovem Matias? Minha vida é contemplativa, concordo, mas ainda não sou nenhum anacoreta grego. Aconselho a tomares mais cuidado com algumas afirmações, principalmente quando o assunto é a tal da redenção – Luis tinha uma consciência permanente de sua própria importância; no entanto sua segurança intelectual confundia-se, em muitos casos, à inexperiência e total inexistência de discernimento, deixando-o prepotente e arrogante.

Mas…

Calma. Agora é a minha vez de tomar a palavra. Ah, sim. Não te preocupes quanto à minha indiferença pirrônica até esse momento; estava apenas matutando quanto à nossa futura conversa, de como eu deveria me portar e o que falar para ti. Soube que estudaste na Capital e és muito inteligente; logo, ou melhor, acredito, posso me sentir no direito de falar formalmente contigo, pode ser? – nessa tentativa de ser um homem de igreja jovial que faz brincadeiras a fim de mostrar que, não obstante o redingote preto e do colarinho virado, os padres são “humanos” e “bons camaradas”, Luis acabava fazendo humor onde o humor não era admitido.

Matias Santa Rosa riu, e pensou se aquele linguajar rebuscado não era indicativo da falta de seriedade do reverendo para com ele.

Sem problemas, padre. Mas por favor, não me interprete de forma errônea: menos algaravia e mais informação – intimou Matias.

Gostei de ti. A imagem de pelintra já passou, restando-me apenas distinguir-te entre detetive ou repórter.

Detetive, por favor.

Certo, detetive. Por onde começar… Hum… já sei. Há um ano e alguns meses, Matias Santa Rosa, os personagens da minha estória resolveram, depois de fatídicas brigas e incontáveis discussões com a família, casar-se e vir morar aqui em Terra Vermelha. Como é do conhecimento da maioria dos vermelhienses, os primeiros meses desse relacionamento conjugal foram muito abençoados e em paz. A bela moça gostava de contar vantagens por ter casado com um poeta e filho de fazendeiro, que sabia agradá-la com belas palavras e, não fosse isso suficiente para causar a cobiça de muitos, ele ainda era profundo conhecedor da Bíblia – conhecimento obtido durante os dois anos que passou na capital estudando no seminário. “Um homem de igreja”, como ela gosta de dizer. Passados alguns meses de união, chegou aos ouvidos da jovem que seu marido estava cometendo adultério. Segundo a própria esposa, ele havia trocado o “confessionário pelo bordel”. E se os problemas com a família somados às fofocas da vizinhança não eram suficientes, ela descobriu que estava aguardando um filho. Esta notícia foi bem recebida pelo marido, permitindo que a paz reinasse durante alguns meses em sua casa. Mas não demorou muito para que a historieta chegasse às raias do absurdo, quando ela resolveu abandonar as graças de Deus e os conselhos maternos, pelas “fortes orações” de Marinho de Filomena, filho do falecido Tomás, o contador de histórias, na esperança de que trouxessem o seu marido de volta aos seus braços. E é aqui onde entram os teus versos. Certa vez tive contato com um dos livros do falecido Tomás – livro este enterrado com o dono faz vinte anos -, e nessa ocasião tive a oportunidade única de lê-lo; e se não me falha a memória, uma dessas orações segue a mesma lógica dos versos que você me mostrou. “Orações” tantas vezes repetidas pela esposa e marido durante as “sessões” com o macumbeiro. Você pode estar se perguntando quem é e onde estão os dois personagens da minha história. A minha pobre prima, Juliana, após tantas “sessões” com Marinho, foi acometida de fortes convulsões e seguidos desmaios, deixando sua mente cada vez mais fraca, impossibilitando-a de discernir o real do imaginário. Seu marido, Petrúcio, está preso na delegacia, acusado do assassinato da filha do Coronel Otávio. Em um dos seus escusos encontros, ela o intimou a confessar ao pai que estavam tendo um “caso” e que deveriam casar-se para honrar o seu nome. Não concordando com a atitude da garota, e acometido de uma fúria inexplicável, avançou sobre a ela desferindo um único golpe mortal. Por algum motivo desconhecido, procurou-me para confessar o crime. Deixei-o dormir na igreja, mas no outro dia, a pedido meu, a polícia já estava a sua espera para prendê-lo. O meu conselho, detetive, é que procures conversar com ele enquanto ainda está vivo sobre esses “versos/orações”, pois algo me diz que o Coronel não deixará que o assassinato da sua filha passe incólume. Procures também Dona Filomena, e descubra se ela ainda possui restos do antigo livro da “capa preta”. E quanto a Juliana, hoje aos cuidados da mãe, tu dificilmente conseguirás algo, já que ela… Como posso dizer?… Enlouqueceu. Para se ter uma idéia, a pobre não sabe, ou não “acredita”, que Petrúcio esteja preso. “Ele vai voltar arrependido para os meus abraços e os do nosso bebê”, é o que ela costuma falar toda vez que vem se confessar. É uma pena… Moça muito bonita.

Espero ter sido útil, Matias Santa Rosa. Desculpe se não posso oferecer mais do que essas informações.

Parece que terei de me fiar às suas palavras, Padre.

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