Luz em Agosto – Relido – William Faulkner

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

A sete palmos ela estacionou. Com uma sondagem rápida pude perceber que as suas vestimentas, seu corpo e cheiro, estavam incomodando os passageiros. “Mais um texto?”, pensei. Por um instante me ative aos detalhes: idade irreconhecível; mulata, altura mediana (para uma mulher sergipana); sandálias de couro gastas; entre o esmalte e as unhas, muita sujeira; pernas cabeludas e oxigenadas, arroxeadas e acinzentadas; short curtíssimo de cor preta; pêlos que pareciam ter origem do púbis (também oxigenados) saíam de seu short em direção ao umbigo; barriga flácida, seios caídos, murchos e gastos, que pareciam prontos para despencar com uma fruta podre (por algum motivo estranho ela me fez lembrar, de uma forma diferente, claro, as loiras do Pânico na TV. Ah, sim. Não posso me esquecer das três tatuagens no formato de corações no tornozelo esquerdo); quanto aos braços, tragicamente em harmonia com as pernas; e, por fim, seu rosto, símbolo de vários pecados que continuarão sendo cometidos e que teimarão por ser justificados pela suposta negligência de uns, ou de Um (coincidência ou não, estava relendo, em pé, encostado em uma das barras de ferro e já com dor de cabeça, Luz em Agosto, de William Faulkner – e é a partir daqui que meu parágrafo inicial começa a ganhar sentido).

Acredito que nesse ponto do texto cabe a citação de um trecho que eu já havia lido e “visto”, no livro supracitado, e no belo, A Fita branca, de Michael Haneke:

“Não tem nada de errado com você além de estar velha. Você simplesmente envelheceu e isso te aconteceu e agora você está não presta mais. É isso que está errado com você (…) Você está simplesmente gasta”. (FAULKNER, pág. 243)

Não contente com a coincidência livresca e fílmica, a “moça do ônibus” ainda me fez lembrar de um “amigo” e de como uma dessas moças prestou serviços a ele. Por onde começar? Acredito que pela ideia que o levou àquele lugar. Para esse meu “amigo” todo homem precisa, em um determinado momento, colocar para fora, de alguma maneira, os “óleos” e vontades sexuais. Como ele não era casado, e estava precisando expelir esses “líquidos”, resolveu procurar alguém para ajudá-lo nessa empreitada. Pegou um ônibus; foi em direção a um famigerado “clube” aracajuano, e lá escolheu uma “dama” para saciar a sua vontade. “Qual das garotas você quer?”, perguntou a mais velha do grupo. Ele sondou o ambiente e o grupo das adoráveis jovens. “Quanto é o programa?, perguntou enquanto colocava a mão no bolso. “Cinquenta Reais. Mas por você eu faço quarenta”. Ele tira algumas notas amassadas do bolso e começa a contá-las. “Trinta e oito reais, e não passa disso”. As mulheres entreolham-se desconfiadas da miserabilidade do cliente que teimava em não querer “arrumar” dois reais, mas terminam por aceitar a oferta. “Qual você quer?”. Meu amigo novamente sonda algumas, e aponta para a “melhorzinha”, como se estivesse a escolher a carne menos estragada de um açougue barato. Ambos seguem em direção a um dos pequenos quartos: aproximadamente 3m por 1,70cm; a cama feita com tijolos mais um colchão surrado, velho e sujo, disfarçado com um lençol barato (eufemismos em sequência?). Finalmente começam a troca dos “fluidos” (e não, eu não vou detalhar – não hoje – os detalhes dessa relação sexual). Após vinte minutos de sexo ininterruptos (será mesmo?) a moça pede “Licença. Preciso mijar”. Ele sai de cima dela; e ela, na maior tranqüilidade e naturalidade, começa a urinar, ali mesmo, no chão. “Pronto. Terminei. Podemos continuar”, disse ela após sanar a sua necessidade fisiológica mais do que natural e normal e de direito.

Por que será que pensei isso tudo em tão pouco tempo? Por que aquela moça “gasta” me chamou tanta atenção? Ela era realmente uma prostituta? Estou simplesmente julgando a partir das aparências? Por que a fala de Christmas, personagem Faulkniano, remeteu-me a essa cena “grotesca” protagonizada pelo meu “amigo”? E por que pensar no diálogo que virá nos próximos parágrafos entre os personagens de A Fita Branca se esse teve outro sentido e propósito? (teve, porque agora me aproprio dele descaradamente)

“Por que todo esse esforço? Não me olhe espantada. Não lhe falta talento. Só não consigo fazer isso com você. Para falar a verdade, você me enoja. Não pode acabar seu serviço? Não quero passar a noite toda aqui.

“O que eu fiz a você?”.

“Meu Deus, você não me fez nada! Você é feia, suja, flácida e tem mau hálito. Isso basta? O lençol tem que ser esterilizado. Não fique sentada aí olhando como a morte à espreita. O mundo não vai acabar. Nem para você, nem para mim. Não posso continuar, é só isso. Eu realmente tentei… pensar em uma outra mulher enquanto fazia sexo com você. Uma que cheirasse bem, que fosse jovem, menos decrépita que você, mas minha imaginação não conseguiu essa fantasia. No fim, é você de novo e então, sinto como se fosse vomitar, e tenho vergonha de mim mesmo. E de que adianta isso?”

“Terminou?”.

“Sim, sinto isso a vida toda”.

“Você deve ser muito infeliz sendo tão mesquinho”.

“Por favor, lenga-lenga não!”

“Sei que não sou muito atraente. Meu mau hálito vem da minha úlcera, você sabe disso. Isso não lhe incomodava antes. Eu já o tinha quando a sua mulher era viva”.

“Poupe-me desses detalhes sórdidos. Deixe eu lhe dizer de novo: isso sempre me enojou. Depois da morte de Julie, eu quis acalmar a minha dor com alguém. Teria trepado até com uma vaca!. As prostitutas ficam muito longe daqui, e uma vez a cada 2 meses não me basta, embora já esteja me acostumando. Agora para de bancar a mártir e saia daqui”.

“Por que só está percebendo isso agora?”.

“Quando eu deveria ter percebido?. No hospital, esqueci como você era enervante. Alguns se tornam sentimentais na dor. Saia daqui! Você não tem nenhum orgulho?”.

“Não há lugar com você para ninguém”.

“É verdade”.

“E se eu fizer alguma coisa estúpida?”.

“Pode fazer. Ficaria surpreso. Mas tenha cuidado: pode ser doloroso”.

“Eu sei, sou ridícula. Você não se importaria mesmo”.

“Bem…”

“Por que me despreza? Por ajudá-lo a criar o garoto? Por vê-lo tocar sua filha e não dizer nada? Posso ajudá-lo a desprezar a si próprio? Por ouvi-lo alegar o quanto amou Julie, quando todos sabiam que a maltratava tanto quanto a mim? Por amá-lo quando eu sabia que não suporta ser amado?”

“Chega. Agora saia. Tenho trabalho a fazer”.

“Você não tem condições de se livrar de mim. Quem fará o trabalho sujo para você, quem irá ajudá-lo com as crianças e suas práticas? Você não sabe o que está dizendo. Quer ver até onde eu posso chegar. “Ela vai agüentar? Posso humilhá-la mais ainda?”. Estou muito cansada também. Tive duas crianças retardadas: Karli e você. Você é o mais difícil dos dois”.

 

“Meu Deus, por que você não morre?”

Enquanto aguardo respostas, contento-me com opiniões.

7 Respostas para “Luz em Agosto – Relido – William Faulkner

  1. Pôxa, a mulher fedia?
    Enquanto eu olhava para ela e prestava atenção nos mesmos detalhes que tu mencionavas, não era bem no cheiro dela que eu pensava, mas na agonia com que ela explicava para alguém do outro lado da linha celular aonde estava… Por isso, tive que perguntar a ti, em dado momento, se tu estavas a olhar as placas municipais: depois que ela desceu, não tive mais como saber se estávamos perto de Capela, Muribeca, Japaratuba ou sabe-se lá o quê. Ou seja, Reinaldo, segui um caminho inverso de interpretação sexual: tive certeza de que, em algum lugar, alguém a amava. E, como a silhueta (aí sim, gasta) da vagina dela estava diante de meus olhos, tive certeza de que isto não era um problema… E passei a imaginar o que ela estava a desdenhar quando roçava involuntariamente em teu corpo coberto de amarelo no desconforto daquele ônibus barulhento…

    Sabes bem que não li este livro ainda, mas tendo a me identificar com as vítimas deste desprezo. No caso de A FITA BRANCA, faria igual à paspalha que se submete àquela sub-prostituição com o médico despótico. Já o fiz algumas vezes, aliás. Lamentei meu próprio passado diante da cena, mas, à medida que fui “sobrevivendo” ao filme, senti orgulho. ORGULHO, Reinaldo, com as letras maiúsculas que depois eu veria em LUZ DE INVERNO, representado na mulher obcecada/apaixonada que sente prazer até mesmo em contaminar-se com a gripe do ser amado – e que a rejeita.

    Glupt!

    Identificações invertidas e perigosas, sempre elas…

    E como me enche de satisfação entender aqui o porquê de tantas aspas em teu texto… E como elas ficaram belas e preciosas e sagazes e críticas e passionais e autorais e magnânimas e sublimes e divinas e reinaldísticas! É como se um arcabouço pessoal (no sentido mais íntimo do termo) me obrigasse a entender por dentro o que te incomodava a parir estas linhas… Esta resenha ‘por dentro’ , do jeito que tu bem sabes que eu valorizo – não pro ser ti, mas por ser um tipo de apropriação literária/artística que me encanta pela comunhão com a vida “real” (?) que nos circunvizinha a cada dia…

    Emocionaste-me agora, como não raro tu consegues fazer… Ou talvez tenha sido o William Faulkner… ou talvez o Michael Haneke… Ou talvez a “mulher gasta” fã do Justin Beber… ou tudo ao mesmo tempo!

    Glupt!

    EMOÇÃO!

    WPC>

    • PS: e talvez nem seja este o lugar mais apropriado para lançar a questão, mas… Como lançaste o exemplo da pessoa aspeada que precisava de alguém para despejar “líquidos”, o que dizer em meu caso, que já gastei dinheiro para lamber um pé sujo, que já retroalimentei este sistema nocivo de vendabilidade humana em prol de perversões que as pessoas em questão fariam com prazer contra quem sentem desprezo?! O que dizer… ? Prostituição – e as indefinições sobre “necessidades”, instintivas ou não, aí encaixadas, é algo que sempre me punge violentamente.

      I need this?
      We need this?
      Oh, God, all we need is love!
      (piada interna anglofílica – risos)

      WPC>

      • PS do PS: e “morrer” talvez nem seja a “solução” para o “problema” (risos tristes porém presunçosos e altruístas, ao mesmo tempo, se é que é possível). Vejas NEKROMANTIK e depois confirme (risos)

        E, mais uma vez, obrigado por ter transformar a vida…
        Obrigado pro ter me deixado suficientes chaves hermenêuticas para a compreensão sub-reptícia desta obra-prima que ainda não li, mas que tenho certeza plena que é digna do apanágio adjetivo.

        Fica bem, Reinaldo!

        WPC>

  2. Reinaldo cada vez mais visceral. O que Faulkner faz a uma pessoa…
    Concordo que são duas cenas marcantes de Luz em Agosto e de A Fita Branca, dois alvos de minha predileção. A referência ao Pânico na TV é meio hipócrita, não (piada interna, pra variar…)?
    Uma das situações que consegue me despertar uma revolta quase que incontrolável é a humilhação alheia. Estava ainda outro dia refletindo sobre isso. Só de imaginar uma cena em que alguém seja humilhado por ser negro, pobre, não ter estudado, não ser filho de fulano ou irmão de cicrano, já fico interiormente transtornado (claro, o tipo de transtorno que sinto ao assistir a um bom filme, não algo real).
    Esse tipo de humilhação de cunho afetivo, com conotação inevitavelmente sexual envolve aspectos psicológicos sobre os quais não me arrisco a opinar. Mas há exemplos na vida real de pessoas que se submetem com tal afinco à humilhação – como a mulher de A Fita Branca – que parecem dela obter um prazer vital.
    Esse “pitoresco” episódio – para manter em voga as aspas – sobre seu “amigo” (olha as aspas de novo!), ao mesmo tempo que dialoga com a figura do ônibus – mais por associação de imagens, já que tudo que obtiveste dela foi baseado na mera observação ou na sua loquaz imaginação – distancia-se deveras dos exemplos literário e cinematográfico. Não houve humilhação, mas um contrato, um acordo entre as partes, aparentemente cumprido, a despeito de a “prestadora de serviços” (sei, terrível, mas inevitável) não ter sido fiel quanto à execução ininterrupta do objeto do contrato.
    O que me chama a atenção em toda essa história é a riqueza de uma obra como Luz em Agosto, livro que me impressionou profundamente. É possível refletir sobre a humilhação, o preconceito, a morte, a ganância, o orgulho, a infância sofrida, o abandono, a solidão… Ou você simplesmente pode ler e se maravilhar diante de tanto talento.

  3. Nesse sentido, Leonardo, rendo-me plenamente à sua genialidade observacional acerca do componente contratual que, de fato, se estabelece sobre algumas ditas “humilhações”… Creio que meus exemplos pessoais e minha identificação inevitável com a personagem/situação de A FITA BRANCA em destaque explicite bem isso: “fí-lo porque quí-lo”, como perturbam as pessoas por aí…

    Definitivamente, EU DEVO LER ESTE LIVRO! Assim que eu for devidamente apresentado aos dois livros do Cormac McCarthy que me emprestaste, eu caio no faulknerismo… No aguardo subjetivo, desde já!

    Quanto ao “Pânico na TV”, houve uma drástica mudança de tom no conteúdo cínico do programa… As “vítimas” mudaram, “para que tudo continuasse exatamente como está”, para citar um aforismo célebre do Giuseppe Tomaso di Lampedusa, levado ao cinema pelo genial Luchino Visconti…

    E eu fico cá com meu nó “contratual” na garganta.
    Belo texto.
    Belo comentário adicional.
    Imagino eu o que este livro me causará…
    Oh!

    WPC>

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