Um fim de semana de cinema (e cigarros)

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

No final de semana passado resolvi não ler, deixar completamente de lado a preparação das aulas de Contabilidade Pública, a disciplina isolada de Mestrado, tudo o mais e assistir a uns bons filmes com a minha esposa. Escolhi quatro, sem obedecer a nenhum critério especial que não fosse a vontade de vê-los: Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder, Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, O Garoto, de Charles Chaplin e Ilha do Medo, de Martin Scorcese. Gostei – e muito, por sinal – de apenas três deles.

 Se meu apartamento falasse

 

Seguirei a ordem em que vi os filmes. Sabia que precisaria “conquistar” a minha esposa para que ela assistisse a Bastardos Inglórios e a Ilha do Medo, por isso comecei com Billy Wilder e seu brilhante Se meu apartamento falasse. Deu certo. Ela ficou impressionada (eu também) com o filme, especialmente com Jack Lemmon e Shirley MacLaine e suas personagens mágicas. Os dois são apaixonantes, e a relação deles é merecedora de toda sorte de bons adjetivos, pela belíssima e cuidadosa construção.

Os outros aspectos do filme, ressalto, não são menores, merecendo destaque ainda o roteiro, absolutamente perfeito, repleto de tiradas e situações clássicas sem nunca adquirirem feições de clichês. E as expressões, o figurino e, em especial, o modo de pensar da época, efetivamente “datam” o filme, apenas para mostrar que isso não significa necessariamente um problema.

Sobre o “modo de pensar”, faço uma observação sobre algo que li no site Cine Repórter. Segundo o editor do site, Billy Wilder concebeu a ideia para o filme em 1946, treze anos antes da sua efetiva realização. Por saber que o roteiro, que tratava de um apartamento destinado a encontros sexuais entre adúlteros, era muito ousado para a época, para dizer o mínimo, ele esperou até o momento em que os americanos mudassem seu jeito de pensar em relação ao sexo fora do casamento e a censura no cinema fosse mais branda – e, claro, quando realizou o filme ele já era um dos mais respeitados diretores do mundo, de modo que tinha cacife para bancar um projeto desses.

Finalizo essas breves considerações dizendo que não vale a pena ficar citando as inúmeras partes isoladas do filme que compõem cenas memoráveis (como o preparo de macarrão com uma raquete de tênis, apenas para ceder à tentação). O filme é mais saboroso como um prato completo, não devendo ser petiscado.

Apesar disso, não resisto mais uma vez e, apenas para demonstrar o excelente nível do roteiro, repito aqui a fala mais inspirada do filme, na minha opinião:

Fran Kubelik está conversando com seu amante, e percebe (finalmente!) que ele não vai deixar a esposa, estava apenas enrolando-a todo o tempo. Em prantos, e com a maquiagem toda borrada, ela diz:

– Como eu pude ser tão estúpida? Eu já deveria ter aprendido a esta altura… Quando você está apaixonada por um homem casado, você nunca deveria usar rímel.

 Bastardos inglórios

  

 

Ainda no sábado, aproveitando a euforia da minha esposa com o primeiro filme, assistimos a Bastardos inglórios, que eu não havia visto no cinema. O argumento principal que utilizei para a minha esposa enfrentar o sono foi: é um filme de Tarantino. É praticamente um Kill Bill na guerra.

Eu estava certo. E o motivo principal de eu não ter gostado de Bastardos inglórios foi justamente a diferença entre ele e Kill Bill. Ambos são filmes que mesclam violência e humor, como Tarantino tão bem sabe fazer. Só que, enquanto Beatrix Kiddo e sua vingança são absolutamente fictícios, Bastardos inglórios faz choça – e traz toneladas mais de violência – com um episódio mais do que visto, revisto, estudado e remoído, que é a 2ª Guerra Mundial. Isso me incomoda profundamente, porque é como se aos judeus fosse dado o direito de se vingar eternamente dos alemães, que jamais podem se negar a repetir o papel de nazistas no cinema. O efeito que um filme como esse causa em um jovem alemão e em um jovem judeu eu só imagino. Mas o que vem à minha mente não é nada de bom de nenhum dos dois lados.

Cada passo de Kiddo em busca da vingança – o confronto com os 88 loucos, o olho de Elle Driver, culminando com A técnica dos cinco pontos que explodem o coração – é pura diversão. Já o taco de beisebol, a “tatuagem” na testa feita por Brad Pitt (enervante),o estrangulamento da atriz alemã, a morte de Hitler (!), nada disso foi diversão para mim.

A minha sincera impressão: Tarantino, de tão ensoberbado pela certeza de seu brilhantismo, filmou como um gênio adolescente e errou a mão. Até mesmo os personagens são muito fracos. Aquele que aparentemente ele compôs com mais esmero, o Coronel Hans Landa, soou tão sem graça, tão feito para impressionar com suas risadas histéricas, sua ironia, sua fala mansa, seu raciocínio incomparável, seu arroubo de fúria que – surpresa – não me impressionou.

Ah! A minha esposa também não gostou do filme. 

O Garoto
  

 

Esse eu fui ver com bastante expectativa: seria o meu primeiro filme de Chaplin e, de quebra, meu primeiro filme mudo. Além disso, uma comédia com toques dramáticos e com uma criança – um prato cheio para mim.

O filme encanta e deixa uma marca indelével – para usar esta fortíssima expressão – em quem o vê.

Como tudo é simples e incrivelmente engraçado! Os “banhos” que o vagabundo e o garoto tomam, as refeições, a briga entre o garoto e o garoto valentão, o chamego com a mulher do policial, a noite no abrigo… São tantas cenas memoráveis que este filme – curto, com 50 minutos – merece ser visto duas vezes em sequência.

“O garoto” me apresentou Chaplin. Lembrei de um episódio ocorrido há uns onze anos. Eu estava na casa de um colega de faculdade. Ele e seus dois irmãos eram fãs de quadrinhos e ficção científica, dentre outras coisas. Em determinado momento, começaram a falar sobre Guerra nas Estrelas. Eu disse: – Nunca vi.

Naturalmente, todos pararam e ficaram me observando como a um extraterrestre.

– Como você viveu até hoje?

Vendo O garoto, perguntei-me: 

– Como pude dizer que gostava de cinema se, até hoje, não tinha visto Chaplin?

Ilha do Medo

 

 

Eu havia decidido deixar a Ilha do Medo para encerrar o meu fim de semana cinematográfico (é, atualmente, quatro filmes são suficientes para que um final de semana receba essa qualificação). As críticas que havia visto eram ótimas (apesar de eu não ter lido nenhuma, tendo considerado tão somente a pontuação atribuída). A principal referência, contudo, era a empolgação com que Reinaldo me recomendou o filme. Tudo bem que há máculas severas na carreira cinematográfica dele – ir ao cinema para ver Os Mercenários ou Fúria de Titãs parece-me imperdoável. Mas segui o palpite do moço. Não me arrependi.

Gosto de Leonardo DiCaprio fazendo gente angustiada (vide A Origem, badaladíssimo e inferior a este, Os Infiltrados, Foi Apenas um Sonho, Rede de Mentiras); gosto do tema loucura/perturbação psicológica: já rendeu muitos filmes de que gosto bastante (Um estranho no ninho, Garota interrompida, Clube da luta, Bicho de sete cabeças, Shine, Um plano simples, Bird etc.); cansei um pouco de filmes com finais surpreendentes, porque normalmente ou alguém lhe conta a surpresa antes mesmo de você ver o filme (lembro-me de O sexto sentido) ou você mesmo acaba deduzindo ao longo da projeção.

No caso de Ilha do Medo, apesar das referências (notas dos críticos e empolgação de Reinaldo) nada sabia sobre a história, e assisti ao filme da melhor forma possível: às cegas. Ótimo! Do cenário ao roteiro, das reflexões envolvendo a 2ª guerra (estas sérias) à música (sensacional), do clima do filme, repleto de dúvidas, ao final, que deixa você com vontade de ver tudo de novo, Ilha do Medo é um filme especial. Perfeito para encerrar um final de semana que, em termos de cinema, acabou 75%.

 

E os cigarros? É o elemento comum entre os quatro filmes. Como aquele pessoal fumava. Os quatro filmes são ambientados em décadas distintas: O garoto, na década de vinte, Bastardos inglórios, quarenta, Ilha do Medo, cinquenta, e Se meu apartamento falasse, sessenta. Viajando de uma década para outra, das ruas para a ilha, da ilha para a França, da França para um apartamento de solteiro, a fumaça do cigarro, servindo ora para afugentar o frio, ora para acalmar, ora para seduzir e sempre, sempre (para não perder a oportunidade), causando câncer.

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9 Respostas para “Um fim de semana de cinema (e cigarros)

  1. (risos)

    Pois é… Apesar de admitir que nunca tive a menor vontade de fumar, acho bonita minha efígie com um cigarro na boca (risos)

    Mas vamos aos filmes: Billy Wilder e Chalie Chaplin dispensam os meus comentários. São bem maiores do que eu (risos) e, de fato, sobre “O Garoto”: como é que tu agüentaste até agora? Lágrimas e risadas correm solto neste filme – em ambos, aliás, sendo que no primeiro o que mais me surpreende é, de fato, o faro crítico-social-sexual do diretor-roteirista, que, por mais que pareça eventualmente “datado”, choca ainda os mais ditos “virtuosos” (no sentido fariseu que o evangelista Mateus atribui ao termo – risos)

    Concordo contigo acerca do que disseste sobre esta decepção tarantiniana. Muito! Não sei porque ele está investindo tanto nesta ode patológica à vingança premeditada. Pior: de que adiantou sacrificar a História em prol da diversão?! Isto não funcionou comigo, apesar de eu ter me rendido ao Cristoph Watz (risos). Escrevi sobre esta raiva que ele me causou nalgumas postagens de ‘blog’, mas quase todos discordavam de meus argumentos iracundos (porque vingança gera ira, que gera o mal – por isso, meu desespero!)

    Quanto ao novo petardo scorseseano, tuas observações empolgadas têm muito a ver com o que eu próprio vivenciei durante a sessão: ótimo!

    E não, não fumarei jamais!

    WPC>

  2. Estava aguardando com muita ansiedade os seus comentários sobre esse final de semana recheado com filmes e… (sucos e biscoitos?).
    Pretendo assistir ao apartamento “falante” e o garoto (com triste pesar afirmo que de Chaplin assisti aquele do Hitler e mundo moderno).

    Curioso esse comentário sobre os filmes G. de Titans e Mercenários. Por algum motivo – ou simplesmente demência somado à imaturidade intelectual fílmica – gosto de assistir, sozinho ou não, filmes ruins. Eduardo já explicou em um dos seus comentários. Filmes “toscos” = rir. Mais do que isso. Assistir a esse tipo de filme horrível com uma penca de adolescentes e adultos que saem do cinema falando do quão maravilhoso foi o filme, enquanto que nós saímos rindo deles e do filme é algo incrível (para a gente). Para eles o filme de ação ou drama foi maravilhoso. Para nós um filme de comédia. A triste tentativa em fazer um filme “sério” resultou em uma comédia. Assistir aos Mercenários foi apenas um chance de fazer alguma coisa “divertida” com os meus irmãos: Assistir a um filme idiota com todos os meus irmãos: Eu, Eduardo e George estávamos lá rindo de algo tão ridículo. Você não estava lá com a gente. O filme foi um pretexto para colocar 4 irmãos em uma mesma sala.
    Quando eu vou assistir Crepúsculo com Eduardo, Renata, Vinicius e Deborah, é porque gostamos desse filme? Não. Simplesmente sair de casa com pessoas que gostamos com o intuito de rir.

    That’s all.

  3. Ah, sim, eu tinha passado por cima deste “acerto de contas” entre irmãos, mas, coincidetemente, tive uma conversa série e demoradíííííííííissima com Reinaldo sobre isso e discordo VEEMENTEMENTE de sua argumentação, mas, voltaireanamente, “defendo até a morte o direito de dizê-lo”. De vez em quando, eu suplico para que veja alguns filmes (exemplo: o ótimo À PROVA DE MORTE está em cartaz esta semana!), mas ele teima! (risos)

    Acho prepotente (e injusto, aliás) ver filmes que outras pessoas gostam com o intuito explícito de difamá-los generiacamente… Acho acrítico, acho que isto financia o mercado condenado pelo reclamante, posto que a capacidade de seleção cultural é o mínimo que se espera de alguém que tenha, de fato, se interessado, pelos ideais apocalípticos (e incoformistas) dos frankfurtianos. Mas deixe quieto: “não julgueis para que não sejas julgado”, disse-me o Senhor. Eu tento…

    WPC>

    • Deixei o comentário no seu blog.

      Tenho que ver ainda Antes do Amanhecer e Antes do Por do Sol, Luz de Inverno e agora este. Meus débitos cinematográficos estão se acumulando… Há um filme que só por uma cena eu preciso ver: O Sétimo Selo. Deve também ser absolutamente genial, não? Você conhece as adaptações de Santuário, livro de Faulkner? Li em algum lugar que eram péssimas.

  4. Não, não conheço as tais adaptações…
    Justamente por serem mal-sucedidas e esquecíveis (no pior sentido do segundo termo)
    emprestei O SÉTIMO SELO a teu irmão, mas a minha cópia estragou, pelo visto…
    Vou ver se consigo outra.
    É um filme do qual retiro minhas frases existenciais favoritas: “se tudo é imperfeito neste mundo imperfeito, só o amor é perfeito em sua perfeita imperfeição”, diz o protagonista cético e amargurado logo no começo… Bergman fere e salva!

    WPC>

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