A Poeira na Estrada – Parte VI

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O encontro com o Padre deixou Matias Santa Rosa com sentimentos divididos: se, por um lado, ficou a satisfação de ver o crime praticamente resolvido, por outro, restou a decepção exatamente pela mesma razão. Aquele era o seu primeiro caso como detetive e ele queria garimpar as informações, fazer as deduções, encontrar os suspeitos, até mesmo seguir pistas erradas, recomeçar, e, com seus próprios méritos, descobrir os culpados. Ele havia chegado, com uma simples entrevista, ao provável autor dos poemas e de pelo menos um dos assassinatos, além de ter descoberto que ele já estava preso por outro crime.

E aí residiam as dúvidas de Matias Santa Rosa: o assassinato da filha do coronel não seguiu o padrão dos dois anteriores e, ademais, não havia nenhum motivo aparente que ligasse Petrúcio a Olavinho. Não adiantava, contudo, perder-se em intermináveis digressões, sem antes encontrar-se com Petrúcio e tentar obter algumas respostas.

Andando a passos curtos, os sapatos gastos e cada vez mais sujos de poeira, chegou à delegacia. Sacudiu os pés, endireitou o cinto, colocou o último botão da camisa, fez um breve movimento labial, proferindo uma antiga jaculatória de forma autômata, fruto dos hábitos da infância, e adentrou a delegacia, subindo os três pequenos degraus da maneira mais natural que pôde.

Por dentro, a delegacia era tão simples como por fora: tijolos à mostra, chão de terra batida. Caibros tortos sob telhas sujas compunham o telhado, enfeitado, aqui e ali, por teias de aranha e pequenos buracos, telhas quebradas.

Havia ainda uma porta exatamente em frente à entrada, que certamente levava às celas, um banco, uma cadeira vazia, com o encosto quebrado, uma mesa de madeira ordinária, e, atrás dela, outra cadeira, ocupada por um sujeito de aparência cansada e feroz. No momento, entretanto, predominava o cansaço. Ele dormia sentado, ereto, os olhos fechados, a boca semiaberta, os braços, desajeitados, sobre o colo, a respiração pesada.

Com um pigarro, Matias Santa Rosa acordou o delegado, que apenas levantou os olhos, sem mudar de posição.

¾ Boa tarde, Doutor Delegado.

¾ Boa. Você é o filho de Cominho, não é? – disse o delegado após um breve instante – Zé de Cominho?

¾ Matias Santa Rosa. Quando eu era criança, me chamavam desse jeito aí. Mas faz tempo que não sou criança.

¾ Hum.

O delegado tornou a fechar os olhos, abrindo-os após longos três ou quatro segundos, como se tivesse a esperança de que aquela visita incômoda tivesse desaparecido. Mas não tinha. Com ar de tremendo enfado, perguntou:

¾ O que você quer?

¾ Vim ver Petrúcio, que está preso aqui.

¾ Isso aqui não é zoológico não, menino! Você não está na capital, onde pode visitar um museu, uma biblioteca ou uma igreja quando não tiver o que fazer.

Mais um momento de embaraço para Matias Santo Rosa. Ele precisava decidir rápido: se optasse em manter seu orgulho intacto, provavelmente sairia dali sem falar com o seu principal suspeito. Tirou uma das mãos do bolso, fingiu ajeitar um botão da camisa, adiantou-se um passo e esboçou um sorriso confiante.

¾ Doutor, eu não vim aqui a passeio, nem visitar nenhum animal. Estou sendo pago – e bem pago, por hora – para desvendar o assassinato de Olavinho. Sou um investigador particular. Ao que tudo indica, Petrúcio, que está preso acusado de matar a filha do coronel Otávio, pode fornecer informações preciosas sobre o suspeito. Sei que há muita gente que preferiria ver Olavinho morto, mas sou um profissional, e como tal, devo cumprir o meu contrato. Prometo não me demorar. Não incomodarei seu hóspede mais do que cinco minutos. Dona Lourdes, do finado coronel Olavo, muito certamente saberá apreciar a sua colaboração.

O delegado permaneceu alguns segundos em silêncio, imaginando se deveria ou não levar a sério as palavras de Zé de Cominho.

Levantou-se então e, com um sorriso superficialíssimo, escolheu uma chave dentre aquelas que compunham o imenso molho que trazia cativo ao seu cinto.

¾ Devo chamá-lo de detetive, então? Detetive Zé de Cominho?

E soltou uma gargalhada que fez vibrarem as chaves à sua cintura, num tilintar enervante.

¾ É suficiente me chamar de Matias, Doutor Delegado. Matias Santa Rosa – disse, fleumático, o ofendido investigador.

O delegado estancou o sorriso num átimo. Abriu a porta e apontou a última cela.

¾ Não demore.

Matias Santa Rosa não pôde deixar de soltar um longo suspiro de alívio. Após o péssimo início, não esperava obter aquela pequena, mas saborosa vitória. Só tinha que se redobrar em cuidados, doravante, para não falar demais. A promessa que fizera em nome da viúva do Coronel Olavo tinha-lhe escapado sem que sua razão pudesse frear, e poderia lhe trazer alguma dor de cabeça no futuro.

Enquanto chegava à cela, seguindo o delegado, pôde ver que, das outras três celas da delegacia, duas estavam vazias. Na terceira, exatamente aquela contígua à que abrigava Petrúcio, dormia um homem negro, de quem não se podia dizer muita coisa, já que estava encolhido, virado para a parede.

O delegado parou em frente à cela de Petrúcio, escolheu outra chave, abriu a cela, fez sinal com a cabeça para o detetive entrar, esperou, fechou a cela e disse:

¾ Quando terminar, grite.

Aquilo era ainda melhor do que Matias Santa Rosa esperava. Poderia conversar a sós com Petrúcio, que, desde a chegada das visitas, mantinha-se sentado no arremedo de cama, único móvel da cela, com a cabeça entre os joelhos e as mãos cobrindo as orelhas. Nem quando o delegado se afastou pareceu perceber qualquer fato que representasse novidade na sua monocórdia rotina. Ainda de pé, Matias Santa Rosa quebrou o silêncio:

¾ Posso me sentar aí ao seu lado?

Só então Petrúcio pareceu se dar conta de que tinha companhia. Muito lentamente tirou as mãos da cabeça, apoiando-se no banco, enquanto abaixava as pernas, estabelecendo-se numa posição mais ortodoxa. Inspirou. Examinou demoradamente seu visitante, com o ar mais esgotado que o detetive já vira.

¾ Quem é você?

¾ Matias Santa Rosa. Queria conversar um pouco.

¾ Quem é você? – o tom da pergunta mudou, para deixar bem claro que a primeira resposta para nada servira.

¾ Sou um investigador particular. Um detetive. As pessoas me contratam quando há um assassinato para ser resolvido.

¾ O meu caso já não está resolvido o suficiente?

¾ Não é sobre ele que eu vim falar.

Tirando um pedaço de papel do bolso, Matias Santa Rosa sentou-se ao lado de Petrúcio.

¾ É você o autor desse poema?

Petrúcio pegou o papel e, em menos de dois segundos, respondeu que não. Continuou, entretanto, lendo o poema até o fim.

¾ Muito bem escrito. Mas eu só escrevo poemas de amor. Escrevia.

¾ Não deve haver muitas pessoas por aqui que consigam escrever assim. Você saberia dizer quem mais?

¾ Que assassinato você está investigando? É o de Olavinho?

¾ São dois assassinatos. Em pelo menos um deles você está altamente implicado.

¾ Quem morreu? O pai de Rosário? – Petrúcio esboçou um sorriso como se nem ele acreditasse naquela hipótese.

¾ Marinho de Filomena, o macumbeiro.

¾ E por que eu o teria matado?

¾ Você e sua esposa andavam muito com ele ultimamente, não é? Fazendo umas orações, uns trabalhos… Sua esposa queria muito que vocês ficassem juntos de novo, mas você não parecia tão interessado…

¾ E isso é motivo para eu matá-lo?

Matias Santa Rosa sabia que não. Tinha que haver algo mais. Durante toda aquela conversa, o detetive tentava perceber qualquer sinal que demonstrasse alteração de humor em Petrúcio. O curso de detetive que ele fizera apenas mencionava a importância desse quesito, mas não apresentava nenhuma técnica. Restava confiar em sua intuição. O assassino mexia as mãos, respirava tranquilamente, mantinha o olhar no detetive e parecia – apenas parecia – se animar à medida que a conversa avançava. Já não ostentava aquele peso terrível no semblante. Tudo isso, todavia, não significava nada de inteligível para Matias Santa Rosa, exceto que a conversa estava boa. O investigador levantou-se. Foi em direção à porta da cela, dando as costas a Petrúcio, buscando tempo para elaborar uma nova estratégia.

¾ Por que você matou sua amante, Petrúcio?

Neste momento, sua capacidade de observação poderia tê-lo preservado do que estava por vir. Como estava de costas, não percebeu as alterações que se operaram numa minúscula fração de tempo em Petrúcio: as feições se contorceram, como se sofresse a mais severa das dores, seus olhos adquiriram um rubor antinatural, sua boca enrijeceu-se num sorriso absolutamente insano, os numerosos pelos dos seus braços se eriçaram e, antes que Matias Santa Rosa pudesse completar seu ensaiado trajeto – andar lentamente até a porta, olhar o corredor evasivamente, encher-se de importância, virar-se e contemplar, triunfante, o prisioneiro, Petrúcio já havia saltado sobre as suas costas, fazendo-o chocar-se contra a pesada porta. Aturdido, e sentindo uma dor lancinante no nariz, que quebrara-se no choque, Matias Santa rosa tentou virar-se, apenas para perceber quão forte era o seu agressor. Pressionando-o contra a porta utilizando o corpo e as pernas, Petrúcio usou as mãos para apertar o pescoço do investigador, de quem todo o ar desapareceu instantaneamente, tal a fúria manifestada pelos dedos inclementes do carrasco.

Matias Santa Rosa não conseguia reagir, por mais esforço que fizesse. Era como se tentasse mover uma casa do lugar ou beber toda a água de um rio. O único pensamento que lhe ocorria era: “Como fui burro! Como fui burro!”

O suplício atroz que se revelou a ausência de ar encheu de agonia o ser do investigador. O ardor na face, os olhos turvos, a escuridão… E aquele sussurro vindo de uma voz agora desconhecida: “você não sabe… você não sabe…”

Depois, a vida. Seus pulmões celebraram o ar mofado que suas narinas sorveram apaixonadamente. O chão sujo da cela pareceu macio e limpo quando ele caiu sentado, e teria sido a melhor cama do mundo se naquele momento ele pudesse dormir. A dor no ombro fê-lo esquecer o pescoço, que ardia como se em brasa viva. Seu algoz, no chão, ao seu lado, com sangue na orelha esquerda, uivando como uma loba de quem foram tirados os filhotes.

O esforço para voltar à realidade.

¾ … sorte demais.

¾ … já estava morto.

¾ … fosse o delegado…

¾ Eu não devia ter deixado ele entrar.

Aquela conversa já estava acontecendo em outro lugar. Matias Santa Rosa percebeu que os seus olhos estavam fechados. Decidiu abri-los. Não queriam obedecer.

¾ Esse Petrúcio é forte mesmo, né? Olha o que fez no pescoço do menino.

¾ E esse ombro todo roxo, como ele fez isso?

¾ Isso aí já fui eu, há! há! Quando cheguei ele não soltava o menino de jeito nenhum. Precisei ficar batendo com o cano da espingarda não sei quantas vezes para finalmente ele soltar. Errei algumas pancadas.

¾ Quase que Zé de Cominho se lasca todo.

¾ Quase que ele vira tempero.

As risadas. Sempre elas, histéricas e insensíveis. A vocação para ser humilhado. Acho que esse é o meu único talento. Pronto. Finalmente abriram.

Matias Santa Rosa olhava o teto. As telhas velhas, os caibros podres, as teias de aranha. Tentou se mexer. Dor no pescoço. Muita, muita dor no ombro. A cabeça estava maior que aquela sala. Levou as mãos ao pescoço. As mãos do assassino não estavam lá, mas ele podia senti-las.

¾ Ele acordou!

Virou-se, vagarosamente, na direção da voz. Conseguiu, na confusão em que sua mente estava, distinguir a porta de entrada da delegacia. Estava deitado sobre o banco. Precisava sair dali. Força de vontade. Ignorar a dor. Ir para casa. Rápido. Urgente. Reordenar as ideias.

Quando percebeu, já estava, trôpego, sob o umbral da porta. Rechaçou, como um autômato, alguma mão auxiliadora. Não ouviu – ou fingiu não ouvir – qualquer chamado ou apelo. O sol quente no rosto, outrora incômodo, mostrou-se apanágio. Precisava cumprir a meia légua até a sua casa, a despeito da dor. Cada passo um sacrifício. Difícil pensar. Mas não foi ele. Não foi ele.

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4 Respostas para “A Poeira na Estrada – Parte VI

  1. “Mas faz tempo que não sou criança”…

    Apesar de – eu ADMITO! – não estar conseguindo acompanhar a trama no sentido linear da mesma (talvez deva imprimi-la e lê-la de outra forma continuada quando vocês “encerrarem” a narrativa), fico sempre encantado com o rigor constitutivo dos personagens e, no teu caso específico, com a pujança dos diálogos: esta declaração fleumática do investigador ameaça tirar da jogada o famoso “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno!” daquele filme famoso recente (risos)…

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  2. Essa história não vai acabar, pelo menos por enquanto. Os três irmãos conversando percebemos que foi uma má escolha escrever uma história a seis mãos, ou melhor, três histórias que se entrecruzam. Seria necessária dedicação total ao enredo para que tudo fizesse sentido. Vejo como tem se tornado confuso acompanhar cada história, e o objetivo de quem escreve deve ser simplificar, fazer-se compreender, e não o contrário. Como o nosso objetivo com o blog é praticar para aprendermos, nada melhor que essa lição: contos multiautorais exigem mais dedicação e tempo do que dispomos atualmente, e, talvez, mais maturidade como “escritores”.
    Num futuro não tão distante, quiçá retornaremos, já que, ao menos de minha parte, gostei bastante de Matias Santa Rosa. Acredito somente que ele merecia mais atenção da minha parte no início. Pensá-lo um pouco mais para que ele, agora, pudesse pensar mais por si.

  3. Aceito o argumento…

    Quanto ao “inacabamento”, sempre lembro do Jorge Luis Borges, que dizem que as estórias não acabam, elas são interrompidas pelo tempo, pelo cansaço ou por outra coisa que eu não lembro agora, mas que tem muito a ver com teu comentário justificativo…

    Procurei a citação completa , mas não encontrei. E insisto e concordo contigo: o personagem é muito forte: nos dois sentidos do termo!

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    • PS: só para que tu vejas o quanto eu respeito o gênio argentino, utilizei o verbo no plural (risos) – Quase um ato falho – hehehehehehehehehehe

      Mas, é isso: tua autocrítica é plena de sapiência observacional. Como dizem por aí: aprende-se na prática. Por isso, gosto tanto de ver filmes iranianos com meus vizinhos caminhoneiros, por exemplo: eles sempre me mostram detalhes que, sozinho e confinado, eu não saberia decodificar adequadamente.

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