Entrevista com o Vampiro – Anne Rice

12/10/2010

Terminei.

Após aquele “frustrante” texto sobre Orlando, de Virgínia Woolf, volto mais uma vez com um escrito básico, sucinto e direto ao ponto (repetitivo sem dúvida).

Sentado em minha cama, e de frente a um corredor escuro, sinuoso e provocativo (sim sou um fraco para filmes de terror. O Exorcista que o diga), termino a leitura de Entrevista com o Vampiro, o já clássico livro de Anne Rice – podendo agora entender o porquê dessa afirmação.

É com um triste pesar que começo as primeiras considerações escrevendo sobre a minha frustração a respeito de uma personagem colocado por um cinéfilo como uma possível surpresa positiva, e que seria, provavelmente, mais trabalhada e teria suas ações justificadas no decorrer do romance – mais bem trabalhada em comparação ao filme de Neil Jordan (1994). Refiro-me ao afetado e circense, Santiago; e ao seu vampiresco código de conduta, o qual é seguido por todas as criaturas do Teatro dos Vampiros, com exceção de Armand, e que pode ser resumido a partir do questionamento de Cláudia somado à resposta de Santiago:

“- Mas não há crime entre vocês, nenhum crime capital? – perguntou Cláudia.

(…)

– Crime! – disse. – Sim, há um crime. Um crime pelo qual perseguíramos um vampiro até destruí-lo. Pode adivinhar qual seria? (…) – Devia saber, já que faz tanto segredo sobre o vampiro que a criou.

(…)

– É o crime que significa morte para qualquer vampiro, onde quer que o tenha cometido. É matar sua própria espécie!” (pág. 245)

Posso resumir o personagem a partir desse delimitado diálogo (posso?). Ele é tão inexpressívo no filme quanto no livro. Seu papel (ou passagem como quiser) se justifica apenas para julgar Louis e Cláudia, pelo fato de ambos terem cometido o maior pecado capital entre aqueles da mesma espécie.

Apesar dessa frustração, o livro é ótimo e empolgante. As personagens são boas e memoráveis (também nem tanto): Armand é singular e bem caracterizado como figura “líder” e conhecedora do “ser” vampiro. Os diálogos entre ele e Louis representam de forma convincente os motivos que levaram todos a respeitarem-no; além disso, suas ações conseguem transmitir um pouco de seu conhecimento adquirido após 400 anos de existência vampiresca – o que é reforçado pela enorme coleção de todo o tipo de obra clássica que circunda seu aposento.

Os tormentos e as frases lamuriosas* de Louis (parecidíssimo com o Louis de Brad Pitt – não que isso seja realmente algo positivo) são motivos que levaram Armand a sentir tamanha e arrebatadora atração por ele. Entre o meio homem e meio demônio, o angustiado vampiro exerce sobre o Armand um poder que, segundo o atraído, representa o “espírito da sua época”; logo, para Armand, é motivo mais do que suficiente para justificar o “amor” entre eles (palavra muito repetida entre os vampiros, como se estes, por algum motivo não muito bem explicado, vivessem esse sentimento com maior força que nós meros mortais – o tempo para eles é diferente; logo, o amor, que precisa de tempo para amadurecer entre os homens, surge de forma diferente entre os vampiros, que não precisam mais preocupar-se com o tempo. Tentei).

E Cláudia, onde fica? A resposta está em outro personagem: Alice, interpretada pela sempre jovem Natalie Portman em Closer, de Mike Nichols. Apesar do belo conjunto de personagens, tanto no filme supracitado como no livro em questão, é essa pequena criança/adolescente/mulher que surpeende do início ao fim do livro. Semelhante a sedutora stripper, Cláudia permassa o livro como a figura mais enigmática da obra, não apenas como figura infantil belíssima (e sedutora?), mas como aquela que demonstrou através das suas ações o interesse para entender o que eles – os vampiros – representam naquela sociedade e para Deus.

Não quero me estender. Preciso agora escrever que alguns trechos do livro são bastante semelhantes ao filme, enquanto que outros, como o final, mudam radicalmente. Tenho certeza (não sei tirada de onde) que Clarice Lispector, a tradutora dessa edição, gostou muito de ter trabalhado com esse livro tão singular – discutir o “amor” entre uma criança e dois homens, MESMO que seja entre personagens ficcionais e sobrenaturais, não é tarefa fácil. Fiquei com vontade de ler no original. Obrigado Clarice Lispector.

Acho que é isso…

* ”Quem morre hoje neste quarto não foi aquela mulher. Ela precisará de muitas noites para morrer, anos talvez. O que morreu neste quarto hoje foi o último vestígio humano que restava em mim”. (pág. 271)

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Uma resposta para “Entrevista com o Vampiro – Anne Rice

  1. Tentaste bem (risos)
    Tentaste bem…
    Ah, este bendito deste tal deste suposto amor…
    Definitivamente, eis um livro que está entre minhas pretensões mais urgentes!

    Não precisa ter triste pesar para exprimir tua frustração não (risos)…
    Talvez eu tenha me expressado mal quando “elogiei” a suposta importância do Santiago no filme. Deveria ter dito que o que rolou ali – entre mim e ele, entre ele e mim – foi algo como identificação, algo como uma nódoa de ciúme (este sentimento tão circense) que se manifestou em relação à harmonia complicada que os personagens (ao menos, do filme) tentavam manter…

    Mesmo com este teu resumo direcionado a suprimir a já supostamente insignificante aparição do talzinho com nome hispânico, creio que esta pura frase normativa me diz muito… Diz a mim. É pessoal. Desculpa se empolguei-me quando exprimir isso e alimentei este potencial semi-frustrante em relação à sua apreensão do livro, que, afinal foi ótimo, é ótimo, não importa o que qualquer um diga, em seus arroubos de pretensão e “freudianismo impositivo” (risos)

    Tenho que ler isto!
    Com todo o perigo evidente que isto implicará… (risos)

    Bela descrição do cenário que conduz a tua cama (risos)
    Visualizo agora este corredor, mas não me parece de todo aterrorizante. Desde pequeno, tive um apreço forte pelas trevas, a ponto de eu não entender direito o que Federico Fellini quis me dizer quando disse que “o cinema nasce a partir da luz” (risos)…

    Reinaldo “tentando”… Quem diria?! (risos)
    Reinaldo “conseguindo” (aspas que deveriam estar duplicadas neste contexto específico – risos)

    E, a fim de que esta postagem não soe como uma larga “piada interna” entre criaturas com opiniões radicalmente distintas sobre muitos aspectos do mundo como somos eu e tu, tenho certeza de que o final do livro é radicalmente distinto do filme: afinal de contas, Neil Jordan engendra uma das mais belas e contemporâneas homenagens ao cinema que vi na década de 1990. A luz nascendo… O Sol… “Aurora” (1927), de Friedrich Wilhelm Murnau, do mesmo “Nosferatu, uam Sinfonia do Horror” (1922) lá homenageado… Belíssimo filme…

    Anne Rice que me aguarde!

    E sempre achei o Louis um chato, mas Claudia é sedutora e Lestat tem meu consentimento (risos) – “Te darei algo que eu nunca tive: escolha” (oh, se a vida fosse assim!)

    Ansioso, desde já, neo-paripiranguense.

    WPC>

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