Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

 

Eu sou feliz no casamento.

 

Essa afirmação, estritamente pessoal, me impossibilita avaliar “Antes do Pôr-do-Sol” de maneira imparcial, e quem assiste ao filme sabe disso.

Já li, em diversas fontes – destaco aqui Stephen Koch e seu Oficina de Escritores – que todo livro é autobiográfico. Concordo com esse pensamento. Alguém pode escrever sobre dinossauros, naves espaciais ou vampiros e, ainda assim, trazer elementos de sua própria vida – no mínimo, os preconceitos virão.

Analogicamente, os filmes são autobiográficos para quem faz e para quem vê. Neste último caso, refiro-me à impressão causada pelos filmes. Voltando a Bastardos Inglórios, imagino, por exemplo, que um alemão e um judeu de vinte anos não verão o filme do mesmo modo, e isso contribuiu para que eu não tenha gostado do que vi.

Assisti aos dois filmes. Primeiro foi Antes do Pôr-do-Sol, mais recente, e, em seguida, Antes do Amanhecer. Isso não foi bom. Péssima sugestão, Reinaldo. Mas a intenção, sei, foi das melhores.

Vou começar pelo primeiro. Antes do Amanhecer é uma daquelas realizações especiais. E só distinguindo bem o que o roteirista escreve do que os personagens dizem é possível compreender bem o filme (isso parece óbvio, mas eu mesmo tenho a tendência – por conta exatamente do caráter autobiográfico que entendo possuírem as obras, de confundir as coisas).

Muitas das falas do filme são ridículas – a maioria delas, aliás. Não ridículas por serem ruins, mas por expressarem idéias de gente imatura. E, entendo, era exatamente isso que pretendia Richard Linklater ao escrever o roteiro. Jesse e Celine são pessoas inteligente, sem dúvida, mas são jovens que nem de longe têm a experiência que julgam ter. E falam de tudo com uma autoridade tal que parece que a vida é demasiadamente simples. Até quando a definem como complicada.

Um hábito típico desse tipo de gente é que seus diálogos são repletos de temas universais. Eles não falam do padeiro, nem do cinema da Rua 45, nem da dor de barriga que tiveram. Falam da Política, do Homem, da Mulher, da Vida, do Amor. E esse amor…

Eles não sabiam o que era o amor, e o filme conta a história dessa descoberta. Por isso mesmo a película já ganhou, de imediato, preciosos pontos comigo: eu acredito no amor, por mais piegas que essa frase possa parecer.

Não vou falar muito sobre essa primeira parte da história, porque não há bem uma história, mas diálogos, muitos diálogos que soam autênticos, originais, verdadeiros. Apesar de parecer uma loucura Celine decidir descer do trem com Jesse – momento decisivo da trama -, em nenhum momento vemos isso como algo impensável.

Há dois momentos especialíssimos, dentre tantos:

Quando eles escutam a música na cabine, o jogo que fazem, um tentando apanhar o olhar do outro, é irresistível. Arranca sorrisos, que podem até vir com lágrimas, de quem ama.

Na outra parte está mais presente a mão do roteirista, mas não deixa de ser especial. É quando eles revelam seus sentimentos e dúvidas um ao outro simulando uma conversa ao telefone com seus amigos. Formidável!

Aí o tempo passa.

Nove anos.

Algum dia, Ethan Hawke, Julie Delpy e Richard Linklater se encontram e começam a conversar, relembrando o filme e como tudo era lindo. Agora eles – os atores e, quem sabe, o diretor – estão mais maduros. Mais amargos.

Decidem contar a continuação da história. Ethan dá seus pitacos. Julie também. Se põem a escrever o roteiro, os três. Não pode ter muita magia, a vida não é bela. Nem perder todo o encanto, se o amor não pode existir, que sobreviva ao menos a paixão.

E aí meus problemas começaram (é de Maus isso, não é?).

O segundo filme não foi tão feliz como o primeiro, por causa justamente do roteiro. Apesar de os diálogos serem muito bons os problemas estão nos argumentos.

É muito clichê. Recorreram ao que havia de mais óbvio e de mais fácil para “amadurecer” os personagens.

A primeira pergunta que os três escritores devem ter feito é: por que ela não foi? Não podia ser o fato de que ela tinha uma prova ou que simplesmente não acreditou que ele iria. Não. Vamos radicalizar. Precisamos matar alguém. Quem? Justamente a pobre da avó, com quem ela guardava tanta afinidade no primeiro filme. “E isso”, deve ter opinado Julie Delpy, “vai justificar ainda mais o fato de que ela se desencantou com o amor, afinal a morte de um amor matou o outro.”

Uma observação relevante: eu acredito que fez mal ao filme os dois atores bancarem os roteiristas. Eles se apegaram demais às personagens.

“Como eles vão se reencontrar?” deve ter sido uma das próximas perguntas. Ethan Hawke levantou a mão primeiro, levou vantagem: “Eu me tornei escritor. Meu bestseller é a história de nós dois.” Julie Delpy deve ter ficado com raiva interiormente. “Meu personagem era mais artístico”, pensou. “EU deveria ser a escritora!”

Para não ficar pra trás, ela disse: “Já sei! Agora Celine toca violão e compõe. Eu mesmo vou compor a música que vai tocar no final do filme!”

Tudo bem, Jesse e Celine já eram especiais no primeiro filme, mas convenhamos: transformá-los em dois artistas é gostar demais das personagens. Não gostar demais, se apegar demais, porque ela não precisava tocar violão nem ele escrever um poema para o filme ficar bom. Vimos isso no primeiro filme, quando o poeta do rio fala sobre Milk Shake e eles ouvem música juntos.

Outra coisa: eles reviram o primeiro filme e ficaram pensando: vamos dar, no segundo filme, sinais de amadurecimento dos personagens a partir de motes do primeiro. Dois exemplos claros: no primeiro, Jesse caçoa de uns monges. No segundo, ele relata que foi conhecer um monastério e não só gostou muito, como isso virou motivo para ele filosofar. No primeiro, Celine fica meio lisonjeada com a opinião de uma vidente aparentemente golpista. No segundo ela é totalmente cética. Nem Deus, nem fantasmas, nem horóscopo.

Prestando atenção, há muitos outros momentos como esse durante o filme, como se as personagens se resumissem ao que foi mostrado no primeiro filme, o que está absolutamente longe da verdade.

Apresento agora o maior clichê do filme:

“Como eles encaram o amor?”

“Eu”, diz Ethan Hawke, “sou casado e tenho um filho. Mas casei porque minha esposa engravidou e hoje permaneço casado por causa do filho. Minha esposa é uma estranha para mim. Ela não é ruim. Nós que não nos completamos.”

Julie Delpy, mais cerebral, deve ter rido internamente. “Minha versão vai ser melhor”, pensou.

“Eu não casei. Namoro alguém que vive viajando. Quase não o vejo e não o amo. Não sou feliz. Justamente porque viver distante de você representou a morte do amor na minha vida, preciso viver distante dos outros”.

Ethan Hawke deve ter baixado a cabeça. A versão dela ERA melhor.

Mas o pior ainda estava por vir: na primeira oportunidade, ele derrama em cima de Celine todas as mágoas do casamento, da vida, diz que é infeliz, mas, bondoso como só ele, revela que ELE é o culpado, sua esposa não tem culpa de não ser sua alma gêmea.

Eu sou feliz no casamento, como afirmei na primeira linha do texto. Eu acredito no amor. E eu sei o que é o amor. É tudo, menos um sentimento. É uma decisão, que precisa ser renovada a cada dia. Se fosse diferente, como amar um pai ausente, um filho desobediente, um irmão ingrato?

Não amo os meus por conta das suas qualidades, mas porque estou decidido a amá-los e pronto. E não abro mão. Por que com minha esposa seria diferente?

Não canso de repetir, sempre que tenho a oportunidade: quando encontrei a minha esposa pela primeira vez – conversamos por mais de uma hora – tive a certeza de que ela “era a mulher da minha vida”. Foi uma revelação. Isso foi em 08 de setembro de 2001. No dia 30 começamos a namorar. No dia 08 de dezembro de 2002 nos casamos. De lá até hoje são quase mais de nove anos e não houve um dia em que eu tivesse dúvidas de que era ela. Mágica? Coisa de cinema? Não. Vida real. Decisão. A certeza de que daria certo veio a partir de atos – uns agradáveis, outros nem tanto – que foram construindo essa certeza. Até hoje é preciso renovar esses atos. Da minha parte e da parte dela.

As pessoas dizem muitas coisas sobre o casamento. Nenhuma delas positiva. Vira rotina. Prende. São dois solitários compartilhando um nada. Um mente para o outro. O amor acaba.

Eu afirmo categoricamente: hoje amo mais a minha esposa que ontem, e nos outros 3.323 dias que transcorreram desde que a conheci pude dizer o mesmo. O amor cresce com o tempo, se consolida. Não houve arrefecimento da paixão, não houve morte do amor por conta da rotina. Nossa rotina, a bem da verdade, é lutarmos o máximo possível para um fazer o outro feliz. E como tem dado certo!

Amar não é só fechar os olhos e coraçõezinhos pulularem na tela. Amar é se humilhar (palavra que as pessoas odeiam com todas as forças. O orgulho move o mundo). Amar envolve reconhecer erros. Renunciar em prol do outro. Amar é tudo, menos ser egoísta.

Aí você vê um filme de pessoas tipicamente amadurecidas: “O amor não existe”. “Não foi do jeito que eu pensei que seria”. “Olho para trás e vi que perdi oportunidades”. “Estamos fadados à infelicidade” et cetera.

O filme soa bem para a grande maioria das pessoas, porque elas não sabem o que é o amor. E não querem aprender. É muito mais fácil viver desiludido do que encarar a realidade, arregaçar as mangas e fazer sacrifícios. O casamento não está bom? Acaba e começa outro. Seu namoro não vai bem? Aventure-se! Alimente-se de paixões. O dia-a-dia é muito ruim. Vivamos de lampejos. A única forma de pormos fogo na nossa vida é por meio de antigas paixões reacendidas. E depois? Depois nada. Voltemos para o vazio.

Essa receita eu não sigo, e certamente por isso o segundo filme me soou tão mal.

Eu acredito no amor. Sou plenamente feliz no meu casamento. Tenho uma vida feliz. E não me arrependo disso.

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9 Respostas para “Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol

  1. PERFEITA FRASE DE ABERTURA!
    E, sim, ela explica de antemão muita e muita coisa no que tange à tua insatisfação com o segundo filme, que é o que gosto mais, que foi o que me arrancou lágrimas de identificação, porque sim, faço votos à teoria, não somente de concepção, como também de recepção autobiográfica. Por isso, eu tendo a me identificar tanto em filmes…
    NÃO SOU FELIZ NO CASAMENTO OU OU EM QUALQUER COISA QUE O VALHA (risos) – E nem tenho como me arrepender ou não disto!

    Quando eu emprestei o DVD dupla-face a Reinaldo fiz questão de avisar que havia uma inversão nos lados do mesmo e que o segundo filme, obviamente, deveria ser visto depois do primeiro (de maneira que ficou até legal o ato falho tautológico em teu texto depois da piadinha com a obra-prima do Art Spiegelman – risos). Sou um dos assim chamados arquiinimigos conceituais do Richard Linklater. Detesto sua pretensiosa subsunção a fórmulas e chavões ultra-dialogísticos de filmes independentes, mas… Não tenho como resistir á piadinha com a Nina Simone ao final… Ou com as brincadeiras sérias envolvendo vida sexual ativa… E com avós mortas… e com frustrações de todas as formas… E com saudades… E com tudo o mais que tem a ver comigo. Tem muito a ver comigo! Por isso, talvez eu nem tenha forças para argumentar tão racionalmente como tu e, ao invés disso, bastasse escancarar a minha suposta infelicidade matrimonial. Argumento mui efetivo este! Muito mesmo…

    Tenho certeza de que voltarei a comentar este texto…

    Mas, sim, é perfeitamente compreensível porque este segundo filme não funcionou tão bem contigo, ao contrário de mim e Reinaldo, que, venhamos e convenhamos… KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    E, em toda a minha vida, poucas vezes fui tão infeliz ao utilizar uma onomatopéia de riso quanto esta acima. Mas, como diria o nosso mestre Cartola: “rir para não chorar”!

    E é só o que eu sou permitido falar, por ora.

    WPC>

    • PS: sou apaixonado pela Julie Delpy desde criança, o que dificultou em muito a minha análise mais “racional” do filme… Eu me entreguei, eu me deixei levar… E sim, a cena da cabine de música tem muito a ver com o que eu chamo de “ideal de um encontro romântico”: a música, o confinamento, os risos… é quase uma regravação da última cena melancólica de O AMOR EM FUGA (1979), do titio François Truffaut. Busque aí… veja a pentalogia Antoine Doinel. Nem mesmo a tua felicidade matrimonial será imune (risos – agora sim, risos de harmonia mesmo!)

      WPC>

  2. PS do PS: e, para além de eu aceitar de muito bom grado e concordar plenamente com tuas admoestações no antepenúltimo parágrafo… Comigo, os problemas são um pouquinhos mais complicados… Não dependem de mim! Sou totalmente favorável à humilhação benfazeja (como religioso que sou, não poderia ser diferente – até cunhei uma expressão que me define neste sentido: “taciturnidade ditirâmbica”), mas o problema é beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem mais complicado… Numa de nossas futuras conversas pessoais, eu explico. Ou tento!

    WPC>

  3. Pingback: Manual das Encalhadas

  4. Quando a pessoa se compromete a realizar uma critica cinematográfica, propõe-se de antemão a fazer uma analise sobre enredo, coesão, atuação, profundidade dos personagens etc….
    No entanto, o que se tem no presente texto não é um análise dos referidos temas, mas um incontrolável descontentamento com abordagem feita pelo filme, em virtude de ser antagônica perspectiva de vida daquele que se propôs a fazer analise critica.
    A critica se perde no mar de pessoalismo, demonstrado a falta de maturidade não dos personagens, mas sim daquele que se diz apto a fazer uma analise critica dos mesmo.
    Por fim só pode-se dizer que é lamentável o texto escrito acima.

    • E quem disse que eu sou crítico, ou que pretendi escrever uma crítica ao filme?
      Você deveria prestar mais atenção ao blog que você acessou. Trata-se de uma página pessoal, cujo objetivo é exercitar a escrita e demonstrar a opinião.
      A minha opinião sobre o filme – opinião de espectador, não de crítico ou profissional do cinema – foi essa. Se você não gostou, você tem todo o direito. Em nenhum momento vendi o meu texto como crítica cinematográfica.

      Anyway, thanks for visiting us. 😀

  5. Se isso aqui nao foi feito para realizar uma crítica
    Então é melhor vc modificar o texto da sua página
    já que de catálise crítica ela não tem nada, somente opiniões extremamentes parciais.

  6. Eu sou suspeita pra falar desses dois filmes, principalmente o “Antes do pôr-do-sol” pois é meu favorito. Realmente concordo que sua percepção sobre o filme está bastante relacionada com a sua vivência e por ser um blog vc tem toda liberdade de colocar sua crítica ou ponto de vista.

    Obviamente não vim te censurar, mas fiquei me coçando para dizer meu ponto de vista tb ehehe

    Sei que o roteiro do segundo filme foi composto a três mãos, mas vc deu uma avacalhada qndo simulou a forma como ele foi escrito (como se tivesse sido estruturado sob mera disputa de ego dos atores).

    Não acho que ambos se tornaram “artistas”.
    Se vc tiver violão em casa ou conhecer alguém que tenha, vc imagina que ele pode se tornar muito bem um hobby que algumas pessoas utilizam pra relaxar e “brincar” um pouco. Tanto que o início do filme deixa claro que a profissão de Celine é voltada pra algo mais social e político. (Jesse até comenta que ela se tornou uma “ativista neurótica” em certa parte do filme).

    E ok, pode ser preconceito da minha parte pelo fato do personagem ser americano, mas não creio que ele com sua bagagem cultural mais voltada pro instrumental consiga fazer sucesso com um segundo livro, onde não haverá nenhuma experiência mais extraordinária vivida por ele para contar.

    Quanto à mensagem de “o amor não existe” tb discordo.Pra mim ficou a mensagem que o amor existe sim, mas entre os dois (como insinua a cena final). O problema creio que foi justamente o fato do primeiro encontro ter sido extraordinário e intenso a ponto de fazê-los ficar sempre à procura de uma relação que se igualasse ao que aconteceu, desprezando outras formas de manifestação de amor.

    Reza a lenda que é possível haver outro filme 9 anos depois do “antes do pôr-do-sol” (2013!) e sinceramente espero que seja verdade, pois como o “antes do amanhecer” retrata com naturalidade a perspectiva da juventude sobre as relações e o “… pôr-do-sol” da fase adulta, fico curiosíssima em ver qual será o ponto de vista dos personagens na maturidade, de fato.

    Bem, já escrevi demais.
    De qualquer forma, acho legítima sua interpretação e fico feliz que seja pelos motivos que colocou 🙂

    • Obrigado pelo comentário, Thays.

      Realmente, como já escrevi em diversos textos, não tenho a pretensão de escrever críticas de cinema. Escrevo minhas impressões sobre histórias que me chamaram a atenção, deturpadas, inevitavelmente, pelas minhas experiências, pelas minhas idiossincrasias, pelos meus defeitos e qualidades.
      Bom ver que você compreendeu isso.
      Visite sempre nosso blog. 😀

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