Outra volta do parafuso – Henry james

16/10/2010

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

Posso dizer que tive alguns problemas quanto a minha interpretação em relação a Outra volta do parafuso, de Henry James; livro que suscita, ainda hoje, várias possibilidades interpretativas. Escrevo isso – problemas – porque li sobre o autor e a obra antes de começar a leitura propriamente dita da novela; e sei que esse tipo atitude e de conhecimento antecipado mudou radicalmente o meu entendimento quanto às possíveis interpretações relativas* ao seu conteúdo novelístico – explícito e implícito.

A história do livro gira em torno de uma bela preceptora – substituta da srta. Jessel, também jovem e bonita, morta em circunstâncias misteriosas – contratada para educar e orientar duas crianças órfãs, Miles e Flora, a mando do tio, em uma velha casa no interior da Inglaterra. Após ser acometida de uma irrupção realizada por possíveis forças sobrenaturais, aos poucos a nova preceptora começa a invectivar contra os dois “subordinados”, vilipendiando-os com acusações e questionamentos intimistas e descabidos (piada interna?**).

Das primeiras sugestões diáfanas, a história toma, a partir de certo ponto, uma lógica mais explícita e fantasmagoricamente densa – como podemos perceber na sucessão de aparições sobrenaturais à preceptora e, possivelmente, às crianças, que persistem na negação das aparições, que, segundo aquela, é explicado pelo fato de que elas – as crianças – estão, juntamente com os fantasmas, Peter Quint e Srta. Jessel, antigos funcionários, confabulando com o intuito de atacar a sua integridade física e racional, além de tentar – e isso é muito importante – diminuir o seu poder e controle sobre eles.

As dúvidas seguidas pelos questionamentos e logo por respostas perpassaram os anos desde o lançamento do livro em 1898. Questionamentos do tipo: 1 – O que lemos realmente são possíveis e concretos contatos com “seres” oriundos do além? 2 – Serão meras fantasias de uma jovem sugestionável, o que nos leva a questionar sobre a sua sanidade? 3 – Insanidade mais contato com seres oriundos do além? 4 – Insanidade mais contato com seres oriundos do além, somados à representação analítica de uma sociedade regrada às tradições burguesas, mas corrompida e em crise sistemática e progressiva, por não conseguir manter em ordem a propriedade, a família, o prestígio e – muito importante – a classe social?

Buscando respostas a partir do título foi que pude perceber como este faz sentido se somarmos aos: 1- efeitos do conflito egóico – ela, a preceptora, questiona com ela mesma, e busca somente nela, as possíveis respostas racionais para os fatos sobrenaturais discriminando qualquer possibilidade da que eles não existam; 2 – as suas atitudes de perseguição às duas crianças – como se ela não conseguisse se acostumar ao estilo independente de Miles e Flora, o que levou a um momento no qual o pequeno pede para que a preceptora o deixe em paz e que respeite a sua maneira de ser e da irmã***. Esse tipo de atitude – evasão da nova preceptora a qualquer coisa que escapasse à sua racionalidade -, somado às minhas leituras e identificação com o pequeno Miles, levaram-me a acreditar na “explícita” insanidade e irracionalidade das suas visões deliróides de cunho místico.

Não obstante as possibilidades interpretativas, o livro pode ser lido e visto – e deve? – como um simples passatempo sem maiores pretensões psicanalíticas de uma sociedade burguesa em crise. Acredito que o clássico está justamente nessa capacidade de reter em suas páginas a possibilidade de suscitar debates ou simplesmente divertir como qualquer outro livro (qualquer é uma palavra muito forte).

*/ **/*** As relações livro e cotidiano apareceram gradativamente à leitura do romance, principalmente quando me dediquei a procurar indícios da não tão óbvia insanidade da personagem central do romance. A preceptora busca a todo instante perseguir e realizar uma cruzada para difamar e modificar as duas crianças que agem de forma tão “estranha” (piada interna). As duas crianças, principalmente Miles, não faz a mínima questão de manter contato íntimo e afetivo com a nova preceptora, mas sim – e isso é muito relevante na novela – com os antigos e já conhecidos funcionários, Peter Quint e Srta. Jessel, que volta e meia regressam para “atentar” contra a vida da preceptora, que tenta a todo instante “expulsá-los” da casa. As crianças não precisam de novos amigos. Elas precisam apenas delas mesmas.

Pág. 100

“Eles não têm sido bons; têm, apenas, vivido ausentes. Tem-nos sido  fácil viver em sua companhia porque levam simplesmente uma vida própria, alheia à nossa. Não são meus… não são nossos. São dele e dela”.


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Uma resposta para “Outra volta do parafuso – Henry james

  1. Li por alto alguns parágrafos, a fim de não introduzir teus julgamentos em minha leitura vindoura (risos), mas amei a interpretação egoíca do título sobre parafuso. Conforme te disse antes, amei a versão fílmica chamada OS INOCENTES, feita por um tal de Jack Clayton em 1961. Está lá citada no livros dos 1001 Filmes… Confere!

    Ai, ai, estas piadas internas!

    E sabes bem que tenho problemas com biografias de autores e congêneres, né? Mas conhecia o Henry James por causa de outra estória curta, WASHINGTON SQUARE. Ele é um aristocrata iconoclasta nato! Gosto assim!

    E viva a estranheza!

    te levo O COLECIONADOR amanhã?
    Isto é uma pergunta, visse?

    WPC>

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