TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Eu saí do cinema convicto de que deveria escrever sobre Tropa de Elite. Depois de alguns dias, contudo, deixei a ideia enfraquecer. Não creio que nada que eu venha a escrever, como argumentei com Reinaldo, acrescente nada à infindável discussão sobre as implicações do filme.

Corrupção é um tema extremamente caro para mim. Trata-se de algo próximo a uma obsessão (no sentido mais saudável do termo). Só quem me conhece bem para compreender exatamente o que isso significa. Trabalho há oito anos num órgão de controle e há seis fazendo ações educativas/formativas com servidores públicos, estudantes, conselheiros municipais, professores, falando sempre sobre ética, combate à corrupção, cidadania, honestidade. Considero que sempre fui honesto, mas a intolerância, o ódio que sinto hoje em relação à corrupção, não o tinha. Sei muito bem que ainda escreverei uma boa história sobre isso – e há de ser boa mesmo, de outro modo eu nem escreveria.

Lutar contra a corrupção, portanto, é, oficialmente, o meu ganha pão. Faço isso por profissão, e da melhor forma possível: tenho liberdade para escolher que eventos vou fazer, com quem, qual o tema (dentro de diretrizes, decerto).

No mês que vem, por exemplo, acontecerá um Debate Acadêmico na UFS, no dia 11/11, com o tema República, Corrupção e Cidadania. Contará com a presença de dois professores da área de Filosofia Política da USP e da Profª. Heloísa Starling, da UFMG, que tem um belíssimo trabalho sobre o imaginário da corrupção no povo brasileiro.

Aí vou ao cinema e vejo Tropa de Elite II. O inimigo agora é mesmo outro. O filme significa muito para mim. O óbvio ululante, aquilo que todos sabemos, mas não temos coragem de dizer, num acordo de mediocridade, o filme rasga, expõe, sem meias-palavras, sem politicamente correto. É como a situação que vimos nas eleições em Sergipe. Um candidato a senador que pouco tempo atrás sequer ameaçava os primeiros colocados. Mas foi tanto dinheiro na campanha, TANTO, mas TANTO… Que ele foi o mais votado. Como?!? E aí uma pergunta totalmente estúpida: Tudo isso por um salário de R$ 16.000,00 mensais? Sim! Este é o salário de um Senador. Claro, tem verba de representação, verba de gabinete (os famosos funcionários-laranjas), mas, mesmo assim, gastar, sei lá, cinco, dez milhões de reais (ou muito mais que isso, quem saberá jamais?) numa campanha para receber R$ 16.000,00? Só por amor à política, por vontade de fazer o bem a quem necessita? Como diz a velha piada: “Ai, ai, se sesse!”

Todos sabem que é nas emendas, nos acordos, nas negociatas que eles estão de olho. É ali que vai ser recuperado todo o “investimento”. Recuperado em termos, porque sabe-se que boa parte desse dinheiro para financiar campanhas vem do próprio erário, por meio de malabarismos diversos.

O filme também é doloroso para mim, porque concorda com a minha impressão de que meu esforço cotidiano pouco pode contra “o sistema”. Pouco pode é infinitamente maior que nada pode, decerto. Mas ainda é pouco.

O filme acaba. As pessoas aplaudem. Isso me incomoda. Não aplaudo. Sinto-me enciumado. Não sei se esse é bem o termo. É como se eu tivesse um poema favorito, de um autor obscuro, que ninguém conhece. É de bom gosto, é lindo, é profundo, fala comigo. Aí, numa novela global, um desses ridículos autores (nem sei se são ridículos, porque não vejo novela, é só preconceito mesmo) coloca esse poema para ser recitado por Reynaldo Gianecchini, o maior charlatão desde aquele ator que fazia Igor, um cigano de uma novela meio antiga da própria globo. Agora, o poema que tanto me é caro está na boca da plebe ignara. Pessoas que não dão a mínima para o autor do poema, sequer para o que o poema mesmo quer dizer, falam que é o que há de mais belo na literatura, arvoram-se em especialistas, mandam correntes de e-mails com o poema, fazem plotagens no para-brisa traseiro do carro com trechos do poema… Não sei se consegui passar bem a minha revolta com aqueles aplausos, mas é algo como jogar pérolas aos porcos.

A primeira coisa que pensei quando eles aplaudiram foi: quantos ali são igualmente corruptos? Quantos furam o sinal vermelho, param em fila dupla, jogam lixo na rua, deixam a merda de seus cachorros nas calçadas, pagam propina a policiais, são adeptos do execrável “jeitinho brasileiro”?

Corrupção, na definição clássica, é a apropriação do público pelo privado. Uma pessoa, desrespeitando a ideia de que um determinado bem pertence à coletividade, dele se utiliza para proveito próprio, egoísta. É fácil classificar a corrupção como uma palavra pertencente ao universo da política. Corruptos são os políticos. “O sistema” é corrupto porque os políticos são corruptos (funcionários públicos, por extensão, são corruptos também, como defende Tropa de Elite II – a Polícia Militar em especial).

Mas os exemplos que citei dois parágrafos atrás – furar sinal vermelho, jogar lixo nas ruas etc. – são a apropriação do público pelo privado. Tenho certeza de que eu não me irritaria se fulaninho passeasse com seu cachorro na sua própria sala e lá ele fizesse toda sorte de necessidade fisiológica. Fulaninho não teria saído da esfera privada. A partir do momento que ele deixa a merda na calçada, uma barreira se rompeu. Ele está dizendo: do que é exclusivamente meu eu cuido; do que é nosso (sim, pois a calçada é tanto minha como dele) eu não cuido – pelo contrário, não dou a mínima.

Toda corrupção, para mim, começa desses pequenos atos. Um assaltante não começa a sua carreira roubando um carro forte. Começa ficando com um troco que lhe foi passado a mais indevidamente. Sente o prazer do enriquecimento ilícito. Rouba uma caneta na papelaria. Um estojo de barbear no supermercado. Uma garrafa de uísque. Vai evoluindo até chegar a assaltar um banco, uma joalheria ou um carro forte.

Assim é com os políticos. Não consigo imaginar político corrupto sendo exemplar nos pequenos atos. Para desviar milhões, a primeira coisa que ele tem que perder é o respeito com a coisa pública. Riscar cadeiras na escola quando era criança. Entupir o vaso sanitário propositadamente. Quebrar orelhões. Além do respeito com a coisa pública, ele perde, consequentemente, o respeito pelo próximo. Furar fila porque conhece o gerente do banco. Parar o carro no meio da rua, interrompendo o trânsito para pegar seu filho na escola (esse filho, por sinal, vai crescer sem respeito nenhum pelo outro). Ele não vê problemas, portanto, em levar uma resma de papel do seu trabalho para sua casa. Aquele arroz que tem lá “sobrando” na prateleira da escola? Vai para a minha panela. Surge então alguém que lhe dá um ótimo presente para facilitar o trâmite de algum processo. A evolução disso é óbvia.

Ao tratar de corrupção, o filme acerta em parte ao dizer: “O inimigo agora é outro”. Há uma expressão utilizada em vários livros, filmes, séries que serviria perfeitamente como subtítulo para o Tropa de Elite III que eu faria (ou a minha versão, um pouco mais reflexiva, para o Tropa de Elite II): The Enemy Within. É algo como “o inimigo interior”. Pode significar, por exemplo, e este seria o sentido que eu atribuiria, a nossa própria concupiscência, a inclinação que temos para a corrupção, para trazer um termo religioso à baila.

Nos eventos que participo percebo sempre a tentativa de se jogar a corrupção para o outro. Esquecemos, comumente, que nós somos patrocinadores da corrupção, por meio de atos que passam despercebidos. Não nos fazemos uma pergunta crucial: o que eu tenho a ver com a corrupção?

Talvez essa tenha sido uma pergunta ausente neste excelente filme.

P.S.: Eu realmente não ia escrever esse texto. Até uns trinta por cento dele, eu estava colocando-o como comentário à brilhante crítica de Wesley (http://crticasdeumcinemanu.blogspot.com/). Vale a pena conferir.

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2 Respostas para “TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO

  1. Ontem perguntei aos alunos sobre o filme em questão, e para minha tristeza, ou simplesmente pelo total desinteresse por parte da maioria dos questionados, eles responderam com um belo “É bom. O filme mostra a verdade mesmo desse políticos corruptos”.
    Um ótimo filme e um ótimo caminho para levar uma discussão sobre política em uma sala não muito interessada nos problemas brasileiros. Pretendo levar esse texto hoje mesmo para a minha aula. Vou imprimir e ler na sala com a turma. Desviar um pouco do assunto por uma boa causa. Comunismo na China; Mao Tse-Tung; corrupção; política; mentiras descaradas e disfarçadas com uma máscara bondosa de um “ditador” que pregava uma ideologia socialista suja, mas, por ele, justificada.

    Tentarei…

  2. Não sei se seria de todo redundante que eu gritasse aqui que CONCORDO RADICALMENTE COM TUA TESE DE QUE A CORRUPÇÃO COMEÇA NOS PEQUENOS ATOS! Como eu sou escorraçado quando insisto nisto! Como eu próprio luto, inclusive contra mim mesmo, para provar isso! Não sei até onde vão os comentários e relatórios de Reinaldo sobre o que acontece por aqui no trabalho, mas, sendo também serviço público, o formador institucional de muitos servidores por aí, vemos barbaridades ocorrerem de 10 em 10 segundos… Na semana de entrega dos diplomas de Medicina, então. E quando o governador de nosso Estado precisou de uma 2ª via do Diploma? Mais assuntos demorados para nossa conversa pessoal vindoura.

    Ontem mesmo eu questionei Reinaldo acerca de teu texto sobre o filme (risos) Estava agoniado, ansioso para ver tua experiência “por dentro”. Não somente para comparar com minha visão formalista-defensiva ou com meus atropelos fluxogramáticos (fiquei receoso em ter utilizado termos administrativos específicos – risos), mas para aprender pessoalmente na minha prática imitativa. Gosto muito do que faço, Leonardo! Amo trabalhar com pessoas que precisam de coisas e que mostram como realmente são no afã por obtê-las. Vejo-as por dentro, por dentro! Tanto que, quando vou a alguma festa com estes “universitariozinhos de esquerda” (risos), sinto-me como um cirurgião plástico num bordel de luxo: tal qual ele, vejo como as pessoas são no âmago, por debaixo das capas embelezadoras. E elas se parecem muito entre si. E isso dói!

    Fiquei tão agoniado quanto tu no que tange aos aplausos superficiais, aliados à empolgação propagandística do diretor que, para além da sagacidade analítica demonstrada, é vendido, é submisso midiaticamente. Digo mais: sinto uma estranha simpatia subjetiva pelo primeiro. Gosto muito mesmo. Defendo-o dos clichês acusatórios dos quais ele muito bem se esquiva neste filme, mas… aplausos não resolvem! Aplicação efetivamente ética, sim, mas… O inimigo não é só outro, como é disseminado e “hospedado” a torto e a direito (e a esquerdo) por aqui…

    Cena forte escolheste, no plano da denúncia. Tentei fazer o mesmo ao escolher a foto do personagem que mais me pungiu. Este filme mexe conosco. O que está no fundamento de sua crítica mexe ainda muito mais… Glupt!

    Obrigado por não ter “esfriado” (risos)
    Obrigado!

    WPC>

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