O segredo dos teus olhos está no ar, jovem Werther?

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O segredo dos seus olhos, Amor sem escalas e Os sofrimentos do jovem Werther. Tudo isso em menos de 16 horas. Um momento de magia, um desperdício total de tempo e um belo livro, com possibilidade para reflexões.

O segredo dos seus olhos


Juan José Campanella não é um nome que vai passar despercebido por mim. O Filho da Noiva está numa lista de intenções há muito, muito tempo, mas ainda não vi. Meu começo com O Segredo… não foi muito auspicioso. No início do ano eu o insultei mentalmente quando derrotou A Fita Branca como melhor filme estrangeiro, na cerimônia do Oscar. O filme de Haneke é, por motivos já explicados neste blog, especialíssimo para mim. Vê-lo derrotado por um filme argentino me despertou um ridículo preconceito. Até que li uma crítica do editor do site Cine Repórter, cuja opinião respeito bastante, dizendo que era compreensível a vitória de O Segredo… porque o filme era simplesmente irresistível.

Ontem vi o filme em blu-ray e não titubeei, aproveitando a chance para conferir o talento e a força do cinema argentino.

Poder-se ia resumir a história do filme da seguinte forma: uma jovem foi estuprada e assassinada há vinte e cinco anos, e, tanto o seu esposo como Espósito, funcionário do Tribunal Penal de Buenos Aires, travaram uma batalha para que o culpado fosse apanhado e punido. A justiça acaba não acontecendo como deveria e Espósito, vinte e cinco anos depois, obcecado pelo caso, decide escrever um livro relatando a história.

Parece um filme policial, mas é uma sensível e bela história de amor entre Espósito, maravilhosamente interpretado por Ricardo Darín, e Irene, sua chefe, interpretada por Soledad Villamil. É uma película sobre o passado e a dificuldade de deixar o que já aconteceu.

Interessante é que há um equilíbrio na história entre o drama, o humor e a ação. Mas o que chama mais a atenção no filme é Espósito e a sua adoração por Irene. Neste quesito, o nome do filme é um tanto inapropriado: os olhos do ator argentino são tão expressivos, mas tão expressivos, que é impossível não perceber e não se comover com o imenso amor que ele sente pela bela chefe.

Ainda em relação ao nome do filme, uma boa alternativa (apenas para fins argumentativos, deixo claro) seria “O segredo das suas palavras”, pois o silêncio e a falta de iniciativa, a resignação, o martírio emocional – todas características com as quais me identifico – de Espósito são arrebatadores. Seria tão fácil, tão fácil resolver tudo, o espectador é levado a pensar e, com isso, a sofrer com ele.

Eu afirmei que um dos principais motivos de eu não ter gostado de Antes do Por do Sol enquanto película é o excesso de clichês, em especial na caracterização estereotipada das relações das personagens principais, que ainda se amavam nove anos depois. O Segredo… fala de um amor que sobreviveu vinte e cinco anos, uma amor evidente mas oculto pela falta da palavra dita. O reencontro dos dois é o contraponto, para mim, da história de Richard Linklater: eles guardam ainda o sentimento, sofrem (em diferentes proporções, óbvio), mas Irene se casou, teve filhos – não é de todo feliz, não tem a cumplicidade com o marido que tem com Espósito – mas o roteiro não arremessa isso na cara do espectador. Ela não reclama do casamento para Espósito, este, apesar de ser uma das personagens mais presas ao passado que já vi, não chora suas lamúrias aos outros: guarda a sua dor para si e vai se nutrindo do amor por Irene, amor do qual ele não desiste, amor que não morre, amor erroneamente identificado por seu amigo bêbado, Pablo Sandoval, como paixão.

Amor sem escalas


Tendo visto O segredo dos seus olhos com a minha esposa – que, aliás, gostou muito – fui ver Amor sem escalas, badaladíssimo filme do roteirista/diretor de Juno, como anuncia orgulhosamente a embalagem do disco, que ainda traz outros anúncios igualmente ditosos:

“O filme do ano, o filme do momento.”

“George Clooney na interpretação da sua carreira.”

“Amor sem Escalas é leve e sombrio, hilariante e trágico, animado e pensativo, romântico e realista.”

Fico imaginando se, daqui a vinte anos alguém acreditasse na primeira frase e escolhesse essa película para representar o cinema americano em 2009. Quão desapontado ficaria ao ver um filme que, no frigir dos ovos, não passa de um péssimo livro de auto-ajuda (pleonasmo, sei) filmado.

Não sou a pessoa indicada para apontar as possíveis referências de Jason Reitman como roteirista/diretor, mas é evidente que ele se julga um Grão-Duque, quando, no máximo, tem talento para ser um Visconde. Há um tom pedante no roteiro, deixando transparecer em cada fala dos personagens a idéia: “Viu o que escrevi? Inteligente, não?” O pior é que não há essa inteligência toda e o roteiro ainda subestima sobremaneira o espectador (ATENÇÃO, SPOILERS A SEGUIR. NÃO PROSSIGA SE NÃO VIU O FILME), tendo como exemplo mais irritante a cena em que Alex liga para Ryan e explica, como uma professora primária, o que ele significou para ela, chegando ao cúmulo de dizer que ele era um “parêntese”!

Não consigo entender como um filme inteiramente previsível como esse pôde ser indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado. (MAIS SPOILERS!) Quem não sabia, por exemplo, desde o começo do filme, que quando Ryan atingisse os dez milhões de milhas, não se sentiria feliz como imaginava que se sentiria? Quem não sabia que ele daria as milhas para a irmã e o marido, especialmente depois daquele mapa dos EUA (mais uma vez subestimando a inteligência do espectador)? Quem não sabia que ele iria cansar-se daquela palestra idiota da mala vazia justamente no encontro mais importante de todos?

A lista ainda tem vários exemplos, mas não quero perder mais tempo com um filme que mais parece aquelas pérolas que passam três vezes por mês na Sessão da Tarde ou em alguma Sessão Especial do SBT ou da BAND.

Os Sofrimentos do Jovem Werther


Chego enfim ao livro de Goethe que marcou época. Li, na verdade, como parte da bibliografia indicada da disciplina Ética e Meio Ambiente, mas li de bom grado. Assevero que a obra não figurará entre as minhas preferidas, mas a leitura é fluída, agradável.

Tenho um grande amigo do trabalho que também leu o livro pelos memsos motivos que eu e, pragmático como ele só, disse que não gostou: o jovem Werther, além de totalmente inútil, chegando a ficar sentado por horas apenas vendo os pobres trabalhando e as crianças brincando, é desonesto e mal-intencionado, pois continuou com as suas investidas mesmo após o casamento – feliz – de sua amada.

A partir desse ponto de vista, enquanto lia, imaginei a seguinte situação: após muita insistência de nossa parte (os três irmãos do blog), conseguimos convencer meu pai, que nunca leu um livro, a se aventurar no mundo da literatura.

“Qual livro vocês me recomenda para começar?”

“Os Sofrimentos do Jovem Werther”.

Quão desditosa seria a empreitada do nosso progenitor se tal ocorresse. Como meu pai descreveria o jovem Werther? Provavelmente assim:

“Um vagabundo safado, preguiçoso e viado.” E jamais voltaria a ler outro livro.

Não pude evitar o riso diante dessa impossível situação onírica.

Voltando à realidade, foi bom ter lido Goethe um dia depois de ver O Segredo dos Seus Olhos. Há muita similaridade entre a situação de Werther e de Espósito, e muito provavelmente este último passou pelas mesmas inquietações e dúvidas que o jovem alemão. Assim como Werther, o argentino não tentou sufocar seu sentimento (seus sentimentos, na verdade, porque ambos sentiam duas coisas, e isso fez toda a diferença). Estava ali o tempo todo, alimentando-os e matando-os. O amor é paciente, não é egoísta, tudo suporta. Olhem para Werther e para Espósito e fica óbvio quem verdadeiramente amava. Para Espósito prevaleceu o poder benfazejo do amor; para Werther, a torrente arrasadora da paixão. Para este último, portanto, o fim já estava desenhado. Era só uma questão de, como afirmou o próprio alemão, decidir quem iria morrer.

 

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5 Respostas para “O segredo dos teus olhos está no ar, jovem Werther?

  1. Juro que imaginei teu pai dizendo algo bem parecido, antes mesmo de tu revelares o segredo (risos)

    Um dos livros de minha vida… Ou de minha sobrevivência, não sei. Tenho diários pessoais desde os 12 anos de idade e paixonites crônicas e no extremo do platonismo (com tudo o que isto implica) desde que me entendo por gente… Logo, um dos livros de minha vida. Talvez os apanágios enumerados por teu pai se apliquem bem a mim enquanto leitor mimético. Só não sou preguiçoso (risos)

    Sobre “Amor Sem Escalas”, o buraco é mais embaixo (no pior sentido do termo). Não gostei sequer do JUNO. Sou um dos detratores mais contumazes do Jason Reitman, mas ninguém me ouve. Talvez o melhor seja eu falar por mim mesmo:

    http://gomorra69.blogspot.com/2010/02/oscar-2010-indicado-n-4-amor-sem.html

    Quanto ao filme do Campanella, ouso dizer que este é o filme dele que menos gosto. O FILHO DA NOIVA é soberbo (chorei litros, como diz o povo, no cinema), O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA me encanta enquanto possível futuro jornalista, mas… Este filme mais recente me tem algo de rançoso. Acho que o problema foi comigo mesmo, visto que também fui precipitado e mecanizado quando o vi, em função da porcaria da competição do Oscar, que faz com que enxerguemos ótimos filmes como concorrentes e não como irmãos artísticos nesta ferramenta ética que (me) é o Cinema. Esboço um breve comentário aqui:

    http://gomorra69.blogspot.com/2010/03/oscar-2010-indicados-melhor-filme.html

    E é isso…

    Teria muito mais a dizer, mas estou LITERALMENTE num processo de surto passional neste momento. Vi o mais recente filme do Alain Resnais e estava desgostando de sua neurastenia pequeno-burguesa no começo, mas, aos poucos… Aos poucos…

    Teu pai definitivamente me detestará se um dia chegar a me conhecer (risos)!

    WPC>

  2. Deixei um imenso comentário aqui, mas não consigo visualizá-lo e corrigir eventuais defeitos de escritura ou derramamento “pleonástico” (risos)…
    Acho que se perdeu no limbo por causa do excesso de ‘links’ acostado, mas… Como costumo dizer a teu irmão (noutro contexto): “eu tentei, juro que tentei”… E sempre falho. Herança católica talvez. Pretexto confessional. Estou surta(n)do, deixei quieto!

    WPC>

  3. Recuperando…:

    Parte 1 – Juro que imaginei teu pai dizendo algo bem parecido, antes mesmo de tu revelares o segredo (risos)

    Um dos livros de minha vida… Ou de minha sobrevivência, não sei. Tenho diários pessoais desde os 12 anos de idade e paixonites crônicas e no extremo do platonismo (com tudo o que isto implica) desde que me entendo por gente… Logo, um dos livros de minha vida. Talvez os apanágios enumerados por teu pai se apliquem bem a mim enquanto leitor mimético. Só não sou preguiçoso (risos)

    Sobre “Amor Sem Escalas”, o buraco é mais embaixo (no pior sentido do termo). Não gostei sequer do JUNO. Sou um dos detratores mais contumazes do Jason Reitman, mas ninguém me ouve. Talvez o melhor seja eu falar por mim mesmo:

    http://gomorra69.blogspot.com/2010/02/oscar-2010-indicado-n-4-amor-sem.html

    Quanto ao filme do Campanella, ouso dizer que este é o filme dele que menos gosto. O FILHO DA NOIVA é soberbo (chorei litros, como diz o povo, no cinema), O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA me encanta enquanto possível futuro jornalista, mas… Este filme mais recente me tem algo de rançoso. Acho que o problema foi comigo mesmo, visto que também fui precipitado e mecanizado quando o vi, em função da porcaria da competição do Oscar, que faz com que enxerguemos ótimos filmes como concorrentes e não como irmãos artísticos nesta ferramenta ética que (me) é o Cinema. Esboço um breve comentário aqui:

    http://gomorra69.blogspot.com/2010/03/oscar-2010-indicados-melhor-filme.html

    E é isso…

    (…) – Continua

  4. Juro que imaginei teu pai dizendo algo bem parecido, antes mesmo de tu revelares o segredo (risos)

    Um dos livros de minha vida… Ou de minha sobrevivência, não sei. Tenho diários pessoais desde os 12 anos de idade e paixonites crônicas e no extremo do platonismo (com tudo o que isto implica) desde que me entendo por gente… Logo, um dos livros de minha vida. Talvez os apanágios enumerados por teu pai se apliquem bem a mim enquanto leitor mimético. Só não sou preguiçoso (risos)

    Sobre “Amor Sem Escalas”, o buraco é mais embaixo (no pior sentido do termo). Não gostei sequer do JUNO. Sou um dos detratores mais contumazes do Jason Reitman, mas ninguém me ouve. Talvez o melhor seja eu falar por mim mesmo:

    Quanto ao filme do Campanella, ouso dizer que este é o filme dele que menos gosto. O FILHO DA NOIVA é soberbo (chorei litros, como diz o povo, no cinema), O MESMO AMOR, A MESMA CHUVA me encanta enquanto possível futuro jornalista, mas… Este filme mais recente me tem algo de rançoso. Acho que o problema foi comigo mesmo, visto que também fui precipitado e mecanizado quando o vi, em função da porcaria da competição do Oscar, que faz com que enxerguemos ótimos filmes como concorrentes e não como irmãos artísticos nesta ferramenta ética que (me) é o Cinema. Esboço um breve comentário aqui:
    E é isso…
    Teria muito mais a dizer, mas estou LITERALMENTE num processo de surto passional neste momento. Vi o mais recente filme do Alain Resnais e estava desgostando de sua neurastenia pequeno-burguesa no começo, mas, aos poucos… Aos poucos…

    Teu pai definitivamente me detestará se um dia chegar a me conhecer (risos)!

    WPC>

    • E, caso apareçam 8.000 comentários repetidos (deve ter detector de ‘spam’ ou algo parecido aqui no ‘blog’), é só apagar (risos)…

      Mas, basicamente, só o que não pude recuperar aí em cima foram os ‘links’ para textos que publiquei lá na Gomorra, à época do Oscar, comentando filme por filme, no afã de minhas pretensões valorativas mais “internalizadas”. Explico: um de meus mentores docentes disse-me, certa vez, que o maior problema de minhas críticas é que elas são baseadas em impressões imediatas, o que, por outro lado, ele elogiou contextualmente, já que eu erro sabendo que estou errando e não me esquivo disto.

      Mas deixa ver se eu consigo dormir. É tarde. Vou trabalhar e estudar daqui a pouco. E estou surtado, “e o resto é silêncio”, como diz Hamlet antes de tombar peremptoriamente. E é isto que me apavora. O gritante silêncio que antecede o tombo… E, ao contrário do que acontece com o protagonista deste livro tão pungente, o suicídio, nem de longe, me parece uma solução viável. “Entre a tristeza e nada, escolho a tristeza”, já dizia o gênio…

      WPC>

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