Luz de Inverno – Ingmar Bergman

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Uma missa sendo celebrada para nenhum crente. Um diálogo entre um deficiente e o pastor apóstata. A oração de uma ateia. A febre e a gripe, com a qual quase nos contagiamos.

Luz de Inverno é daqueles filmes especiais.

Nunca havia visto nada de Ingmar Bergman, e eis que começo por esta obra-prima. Li que se trata da segunda parte da “trilogia do silêncio”, composta também por “Através de um espelho” e “O silêncio”, e já li que Bergman é especialista em pessoas, em filmar vidas de verdade.

Não sei dizer o que mais me chamou a atenção no filme: a temática – perda de fé –, sempre relevante para um católico como eu; as personagens – não deveria dizer as personagens, mas as pessoas, tal a autenticidade que elas passam; os belíssimos e tocantes diálogos; ou o clima pesado, reforçado pela neve, pelo frio, pela gripe do pastor.

Não vou ousar entrar em detalhes técnicos. Limito-me a falar do que vi e do que senti. A atmosfera do filme é envolvente de tal sorte, que fiquei com medo de pegar a gripe do pastor. É possível sentir o frio, o peso da lama nas botas, os calafrios perpassando a espinha dentro da igreja vazia, o enfado provocado pela música que vem do órgão tocado por um homem sem qualquer compromisso com o culto. Há uma cena, particularmente um momento, perto do final do filme, cuja beleza da fotografia me encantou: Quando a amante do pastor reza, seu rosto é captado de forma que a sua bela silhueta fica desenhada pela luz, num simbolismo direto (a ateia que ela é, imersa nas trevas, é iluminada quando reza), mas nem por isso menos belo. Não sei o nome dessa técnica, usada muito, muito mesmo, mas o resultado é esplendoroso.
Como é bom não saber de algumas coisas! Tentando encontrar o nome da amante do pastor (só encontrei o nome da atriz até agora – Ingrid Thulin), li que Gunnar Bjornstrand, que interpreta o pastor, estava realmente doente durante as filmagens. Preferiria acreditar que tudo havia sido planejado, eu acho.

Os diálogos, as falas, são tão cheias de sentido e tão pesadas. Incrível como um filme como esse – todas as críticas que li falam de uma mensagem de ateísmo de Bergman – me evangeliza, me faz pensar ainda mais em Deus. As personagens são todas muito ricas. Os diálogos entre o pastor e o pescador e entre o primeiro e o deficiente são fantásticos, mas é quando o pastor conversa com sua amante que tudo acontece. Quanta sinceridade, entrega e devoção estão presentes nos sentimentos da mulher! Quanta amargura, quanto desespero e desamor carregam em sua alma o pastor! A cena em que ele despreza a amante lembra bastante (apesar de ser mais suavizada, mas não menos cruel) aquele momento de “A Fita Branca” e até mesmo de Luz de Agosto, de Faulkner, ambos já citados aqui por Reinaldo.

Os diálogos funcionam tão bem porque não há personagens, há pessoas. Não é um filme sobre um pastor e sua amante, um pescador e sua esposa, é a história de um pastor e sua amante, um pescador e sua esposa. Não há excessos, é tudo muito contido. Desde a celebração, a leitura da carta, as discussões, o próprio suicídio. A missa celebrada no início do filme, e aquela que encerra a película são de um realismo duro, que machuca um católico, por sabermos que muitas vezes somos assim. E neste ponto o filme acerta mais uma vez: ele não cria estereótipos. Não se trata de um pastor ateu ou de uma amante com tendências à humilhação, ou de um pescador suicida. São pessoas vivendo um determinado momento da sua vida. Percebemos que elas têm um passado e terão um futuro (claro que exceção feita ao pescador). Elas respiram, mas é como se não respirassem. Estão sufocadas com algum peso. Estão angustiadas. Não aguentam mais. Cada um à sua maneira.
Aí entra a temática do silêncio de Deus. O silêncio sempre me fascinou (por isso mesmo, desde já proponho-me a ver os outros dois filmes da trilogia). O silêncio de Deus então, não é novidade nem no campo teórico nem no campo prático. Qualquer pessoa que creia em Deus sente, em alguma época, esse silêncio – arrasador, doloroso, mas fundamental para o amadurecimento como cristão.
É a noite escura da alma de São João da Cruz, quando duvidamos da existência de Deus, quando não temos ninguém para ouvir nossos clamores. Numa biografia recente de Madre Tereza de Calcutá, grande ícone religioso de nosso tempo, foram publicadas cartas de sua autoria em que ela afirma, dentre outras coisas, que passou mais de cinquenta anos da sua vida vivendo na escuridão espiritual.
Apesar de, como falei, o filme ser visto como uma pregação ateia, há uma semelhança fundamental entre o pastor de Bergman e a nossa Madre Tereza: ambos não desistem. Madre Tereza não passou dois ou três anos, mas CINQUENTA anos sem perceber Deus. E não desistiu. O pastor estava há alguns anos nesse vazio, que encontrou seu ápice após o suicídio do pescador. Mas ele termina o filme celebrando a missa. Se vendo Deus ou não, o que importa é que ele perseverou. Não sabemos se ele desistirá de tudo. Essa resposta cada um pode dar de si.

“Se há um Deus, perdoa-me, por favor. Quando tento elevar minhas preces ao Céu, há um vazio tão condenador…”
Madre Tereza de Calcutá

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9 Respostas para “Luz de Inverno – Ingmar Bergman

  1. Glupt!

    Este filme costuma causar isso conosco!
    Bergman causa isso!
    Difícil ter começado logo com este, mas, como te disse, comfiei sobremaneira em seu catolicismo analítico quando repassei o filme. Estive certo!

    Acho difícil falar em “ateísmo de Bergman”. Em verdade, o que há aqui é uma refração da autoridade luterana de seu pai, que o imbuiu de tanta culpa quanto o pai de Kierkegaard, filósofo que serve de base para o clima “luminoso” (acima de tudo) e invernal do filme. E, se o tom geral do roteiro parece pessimista, pe mais pelo abandono da religião e não pelo tal do “silêncio” do Deus em si, visto que vemos os efeitos subjetivos de tal silêncio alegado e não o silêncio em si. Sou adepto de Blaise Pascal, como bem sabes. “Creio num Deus invisível” e, sem aspas, creio num Deus invisível! Resta-me (ou resta-nos) a aposta da fé, uma aposta em que não se perde… Na pior e mais remota das hipóteses (totalmente refutada, aliás, apesar de epistemologicamente “possível”), pode não haver Deus, mas há crença e, por conseguinte, atos de bondade vinculados a esta boa crença, ou seja, lucramos ao crer em Deus e o mundo lucra também com o fomento de amor/bondade daí advindo. Por isso, a amargura do filme me consola acima de tudo, visto que minha religiosidade é mais íntima, anticlerical em alguns aspectos…

    Quanto à gripe, sou que nem a devota arrebata pela paixão desviada: aceitaria pegar aquela gripe, “desde que fosse dele” (risos internos)… Fui acostumado com um tipo estranho de escravidão personalista, já comentei noutra ocasião, mas Deus (ou minha “idéia de Deus”, para usar um termo kierkegaardiano) está acima, supra-acima de tudo!

    WPC>

  2. http://www.fotolog.com.br/pseudokane3/67142468

    PS: compare a foto que tu escolheste com a que eu escolhi para minha postagem (muito mais perfunctória que a tua, lógico, visto que eu NÃO conseguia ecsrever e fui tolhido por meu imediatismo de praxe!), só para que se tornem ainda mais patentes nossos pontos de vista convergentes sobre o assunto, não obstante uma leve (e aparente) distinção subtemática (risos)

    Eu pegaria a gripe, insisto. Sou pervertido, acho!

    WPC>

    • PS do PS; na vida “real”, SILÊNCIO é algo que me apavora e já fui ateu por 2 dias, no ano 2000 (risos), mas fui salvo por um filme adaptado de livro de Graham Greene (um de meus autores favoritos), FIM DE CASO. Conheces? É soberbo!

      E já deixei O SÉTIMO SELO com teu irmão, visse? É o melhor ponto de partida bergmaniano possível…
      É lá que dizem que “o vazio é um espelho que se reflete em meu rosto”, logo rebatido por um de meus apotegmas fílmicos favoritos: “se tudo é imperfeito neste mundo imperfeito, só o amor é perfeito em sua perfeita imperfeição”!

      Veja-o…

      E depois te passo o restante.
      Tenho um amigo que possui mais de 90% da obra deste sueco genial em DVD!

      WPC>

      • PS do PS do PS: se quiseres um contraponto, hoje à noite, coincidentemente, a TV Cultura vai exibir um filme de nome LUZ SILENCIOSA. Olha só a sinopse:

        “Johan é um menonita casado que vive ao norte do México. Os menonitas defendem o pacifismo radical e rejeitam o progresso, mas a comunidade de Johan é mais moderada. Eles usam carros e os benefícios da medicina moderna, mas ainda se recusam a utilizar comunicações com o exterior, como telefone ou internet. Neste ambiente Johan se apaixona por outra mulher, contrariando as leis de sua religião”.

        Se tiveres tempo, veja-o.
        Tentarei fazê-lo também. Com certerá, renderá um diálogo fecundo, o filme mexicano (que ainda não vi) é elogiadíssimo!

        Wesley PC>

  3. Uma coisa que esqueci de comentar no texto: o filme é inspirado em “Diário de um pároco de aldeia”, livro de Georges Bernanos que virou filme nas mãos de Robert Bresson. Você certamente já assistiu a este filme, correto? Há muitas semelhanças? Parece também ser um filme altamente recomendável…

  4. DEFINITIVAMENTE, não tem a ver com o livro!
    Nada a ver mesmo!
    A pessoa que escreveu o artigo e citou isto apenas “chutou”, não é possível!

    O livro do Bernanos e a versão fílmica do Bresson (se brincar, a mais fiel da História, no que tange a adaptações) são FAVORITOS sempre, sempre e sempre! Recomendo de pé… É de cortar o coração, visto que tanto Bernanos quanto Bresson são pascalianos/jansenistas que nem eu… Amo este filme, amo este livro, amo a dedicação irrestrita ao “Deus Invisível” que se mostra ao pároco de Ambricourt em cada segundo, em cada filigrana da natureza, em cada respiro humano, em cada dor de barriga (na verdade, no auge canceroso) que ele sente…

    Puxa, de coração, Leonardo, eu te digo: acho difícil que Bergman tenha mexido com o Bernanos… O tom é radicalmente distinto: em momento algum, o pároco questiona a sua fé… Ele aceita a cruz, inclusive numa cena (tanto do livro e do filme) em que… Ops, não posso falar! Leia e/ou veja. É definitivamente PERFEITO!

    WPC>

    • PS: fui buscar alguma fonte que me autorizasse a entender o que Bergman poderia ter utilizado do livro que citaste e o termo mais adequado é este mesmo que está contido em seu verbou: “inspirou”… Bergman deve ter lido o livro e se irritado com a devoção irrestrita do protagonista sofrido e quis mostrar o inverso (risos). Ciuminho luterano, mais uma vez (hehehehehehehheheheh)

      Oficialmente, tudo é inspirado em tudo, né? (risos) Mas, insisto: este dado é muito forçado. Deve ser coisa de distribuidor de DVD (risos), que quer acocanhar mais clientes na linha do “se tu gostaste disto, talvez tu também goste disto…” (risos)

      WPC>

      WPC>

  5. Pingback: Luz de inverno (1963) | Cine-Fórum CCB

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