Notas de uma cidade doente

 

CONFISSÃO

Parte I

 

“Fique com os seus fantasmas”, disse um amigo. Acho que era assim mesmo a frase: “Fique com os seus fantasmas”. E é a mais pura verdade: todos nós, cada um à sua maneira, convivemos com um fantasma pessoal. Eu conheço o meu e convivo com ele todos os dias. Sinto-o caminhando através das minhas veias, da minha pele, e em cada gota de suor. Desde aquele dia em que o primeiro homem matou o seu igual com um fêmur de mastodonte para ficar com o melhor pedaço de carne, a violência foi inserida de maneira irreversível – e irresistível – em nossos cérebros. Maculou-nos tão profundamente, que a levaremos para o túmulo; e só o coveiro fará gracejos da nossa caveira. Quem já viu um coração humano sabe do que falo. Ele é como um punho coberto de sangue. Nascemos banhados em sangue, prontos para o combate. Embora, e isso com muito esforço – e é preciso ser muito homem para reconhecer –, tentemos a todo custo inspirar algo que não seja puro mau… Já virou até um axioma. Perambulamos em meio a regras, convencendo-nos de que é a nossa natureza sociável que nos afasta da inevitável barbárie. Uma piada! Uma Grande e péssima e gorda piada! É o medo que regula as nossas escolhas, e nada mais. Porque se realmente déssemos voz à nossa natureza, a sociedade estaria, nesse exato momento, banhada em sangue. Coisa curiosa a observar-se: que é que mais tememos, acima de tudo? O que for capaz de mudar os nossos hábitos, nossas regrinhas, eis o que mais nos apavora. Mas, às vezes, levantamos pela manhã e resolvemos que já fizemos o suficiente, que não agüentamos mais, e passamos a não ignorar mais a voz, e, com calma e método, preparamo-nos para o impensável

(Acho que não ando bem da cabeça).

***

Ainda chove.

Os parasitas se apressam nas ruas como ratos fugindo da tempestade. O povo se comprime por entre os andaimes, montes de cal, tijolos, e, dominando tudo, o mau cheiro característico, tão familiar aos habitantes dessa cidade. Eles brigam por táxis, pelos melhores restaurantes, empurram e se atropelam pelas calçadas, abrigando-se nas soleiras das portas para esperar a chuva passar. Entre eles, em algum lugar, há caçadores se escondendo na multidão anônima… Espreitando nas sombras. Pronto para atacar… E nós não vamos aguardar imóveis o estampido do cão…

Meu nome é Vincent Holguim. Eu trabalho pra um mafioso chamado Antônio Gramsci. Nós viemos para essa cidade há muitos anos. Acabamos nos acostumando com a nossa vidinha de criminosos. Fizemos muitos amigos. Mas os nossos inimigos mataram os nossos amigos, e agora somos nós que estamos na mira… Vieram assassinos de todos os cantos. De todos os tipos. Do melhor tipo. E quando isso acontece é preciso tirar a bunda gorda da poltrona e sair perguntando. Voltamos a ser durões e, mais do que tudo,… cruéis. E será através da nossa crueldade, que eles saberão quem somos.

***

Não… por favor… chega…

Danny é um Hacker; embora seja mais conhecido pelo apelido de “bankman”, de bando de dados. Ele mora em um trailer próximo às docas, que parece mais um armário do que um cômodo habitável. Nesse momento o sangue dele está em toda parte. Por todos os cantos aquele cheiro rançoso de sangue e material fecal. Gramsci está fazendo algumas perguntas a ele nesse exato momento.

Me dê o que quero e vamos embora! Não é isso que faremos se ele falar, Vincent?

Confie no Sr. Gramsci, Danny. Ele nunca mente.

Onde estão os sacanas?! Diga!

Eu não sei… por favor… eu não sei…

Teria sido melhor se ele tivesse falado qualquer merda.

Eu vi o Gramsci fazer isso a semana toda: uma pergunta seguida de uma coronhada certeira. Ele dá uma surra em algum dedo-duro, pé-de-chinelo, ou coisa parecida. “Faz bem para os nervos”, ele me disse. Com o Danny não está sendo diferente.

Sr. Antônio! Antônio!

O quê?!

Chega, ele está morto…

E daí?!

E daí que ele não pode responder mais nada.

Não é por nada não, Sr. Gramsci, mas, ou essa cidade está lhe deixando pirado, ou o senhor está perdendo o jeito.

Também acho… Estou começando a odiar tudo isso.

Ficamos ali, parados, olhando para aquele corpo inerte por um momento. É preciso estar acostumado a esse tipo de vida. E toda vez que admiro um corpo morto, realmente reconheço que levamos jeito para a coisa e que nascemos para tudo isso.

Por quanto tempo jaz na terra um homem até apodrecer?

Faça o teste com outro, pois esse vai para o fogo.

O senhor bebe, Sr. Gramsci?

Isso é um convite?

***

Às vezes faz bem visitar os familiares em busca de conselhos. O meu irmão, por exemplo, é especialista em ouvir os problemas dos outros. Mamãe queria que ele fosse médico. Mas ele disse que aqui o salário é infinitamente melhor (entendam como quiser).

 

IGREJA MATRIZ SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


Eu sei que ele me aguardava pacientemente no confessionário. Aproximo-me, e me certifico de que ninguém me viu chegar e me ajoelho diante do homem de Deus e então dou início à minha confissão: Perdoe-me, padre, pois eu pequei… Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro dos nervos. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença, e não sei com certeza o que é que me dói de verdade. Faz muito tempo que vivo assim – uns quinze anos. Agora estou com quarenta. Há bastante tempo não me confesso…

Prossiga filho…

Há pouco matei um coitado. Odeio violência, mas ela é necessária. Ele pediu aquilo. Mas pensando melhor, acho que ele realmente não sabia de nada. Ainda sinto o cheiro de seu sangue em minhas mãos. Matei um coitado, padre. Na verdade, foram muitos… centenas, talvez. Usei drogas, fudi com várias prostitutas até não poder mais… Eu fiz as maiores putarias. Eu me afastei da família. Ganhei muita grana a custa dos outros, e muitos outros às minhas. Mas agora Deus resolveu fazer justiça, enviando uns desgraçados bem armados prontos para me fritar… Eu preciso saber por quê!

Bem filho, disse o padre calmamente enquanto me esgoelava com as grandes mãos através da abertura do confessionário. Talvez isso esteja acontecendo porque você é um gordo fornicador, arrogante e assassino, que merece trocar as bolas de lugar com os olhos, para ver se enxerga melhor as coisas. Saia do meu confessionário seu monte de merda! Você é uma desgraça para a família!

Dá pra ficar mais calmo, Adrian?!

Eu vou me acalmar quando você morrer, Gramsci. Eu adoraria fazer isso… mas Deus-pai não ia me perdoar se eu matasse do meu próprio sangue.

Eu só queria…

Nada! Você não quer nada. Vamos sair da casa de Deus antes que você chame mais atenção, disse ele enquanto me guiava para uma ruela contígua à Igreja.

Olha Adrian, nós somos irmãos…

Não me lembrar disso…

Nós somos sangue do mesmo sangue. Eu estou encrencado! Preciso de ajuda. Você acha que eu viria aqui se não estivesse desesperado?

Realmente, você fica ridículo quando está indefeso. Bem, a federal está querendo o seu rabo faz tempo; os seus amigos querem seu sangue; e os seus inimigos, a sua cabeça. Com outras palavras: você está fudido!

Foi o que pensei.

Os negócios não estão dando tanto retorno, não é isso? Eles têm mais dinheiro, mais recursos e mais contatos. Eles estão no topo agora, e estão queimando a papelada. Eu não devia contar, e não sei se vai fazer muita diferença, mas… um “pecador” me disse que eles não estão atrás de você. Querem alguém na sua organização.

Quem é? Eu entrego numa bandeja de ouro agora.

Nobre. Quanta lealdade aos vizinhos. Parece que um dos seus membros é agente duplo e…

E eles vão apagar todo mundo só por isso? Para não ter como errar? Não acredito. Olha, liga pro Bispo… Vonthemblank… Tem que haver outro jeito. A igreja já matou antes por mim e… um corpo a mais, não fará tanta diferença.

Eu não posso, e não quero… Até mais, irmão. Fique longe da minha Igreja. E… cuide dos seus fantasmas…

***

Foram tempos difíceis. Tempos de fúria para um ex-coroinha. Não há saída, ele pensa. E só duas escolhas são viáveis: encarar o cano de uma magnum 44, ou sair à caça. O cano vai direto à boca. Não conseguia dar nome àquela sensação. Era mais amargo para ele que a própria vergonha. Sangue misturado às lágrimas. Era derrota. Era ser vencido. “É preciso superar isso”, ele pensou. É a magnum 44, ou sair à caça. Em qualquer escolha, muito sangue há de ser derramado… “E não será o meu”, pensou Antônio Gramsci.

 

Continua…

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5 Respostas para “Notas de uma cidade doente

  1. Desde o primeiro parágrafo seu texto só me lembrava spawn, mais precisamente aquela mini-série incompleta que Voce tem, cujo nome esqueci. Temos que transformar este texto em HQ. Falo sério. Brilhante.

  2. “Até mais, irmão. Fique longe da minha Igreja. E… cuide dos seus fantasmas”…
    (risos)
    Ah, se me dissessem isto!

    Estilo macho, mccarthiano até (risos)
    Não é necessariamente o meu estilo, bem sabes, mas apreciei sobremaneira as sutilezas dialogísticas, as piadas internas (esta barbárie axiomática do primeiro parágrafo faz menção ao que penso que menciona? Risos), o supremo nome do mafioso (risos), Antonio Gramsci, logo ele? O homem que me ensinou que “não se pode saber sem sentir e, muito menos, sem estar apaixonado”? O titio inspirador do Paulo Freire? Um de meus mentores intelectuais mais caros transformados num chiste violento da contemporaneidade decadente? Sou obrigado a confessar: nesse ponto, genial!

    Mas, de resto, não é meu estilo, posto que as respostas suprimidas que quase chegam a doer mais do que socos (como tu bem fazes na vida real) e a necessidade de se fazer algo que se odeia (eu já ouvi isso de tua boca) são detalhes positivos na forma que me ferem enquanto forte identificação conteudística, mas… A gente sobrevive. Eu, tu, e os demais espectadores de situações similares que se descortinam diuturnamente diante de nós, inclusive no que tange aos nomes anglofílicos que lamentam e, ao mesmo tempo, sentem saudades festivas de seus ancestrais rústicos…

    Talvez me seja falta de experiência para compreender o que sentes ou o que transpareces/obscureces nesse tipo de texto? Cormac McCarthy possui um casamento feliz e uma vida tranqüila no campo. Acho que posso começar a interpretar a partir daí… (risos)

    Interpretações, grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr! Susan Sontag se contorce no túmulo agora, furiosa comigo. Mas, “a vida é cheia de som e fúria”, já dizia o bardo… E do silêncio que se impõe até mesmo nas palavras fortes e ativas de mafiosos que matam e se confessam e matam e se confessam de novo… IRMÃO é o cumprimento! Mas os fantasmas é que cuidam de mim…

    WPC>

  3. O texto foi inspirado nos seguintes textos e filmes:

    Spaw, Caçada ao poderoso chefão – Todd McFarlene
    Crime e Castigo – Dostoievski
    O jogador – Dostoievski
    Closer – Mike Nichols
    Inglorious Bastrds

    e

    “Fique com seus fantasmas”, frase dita por Richard Eduard, nosso “primo”, durante uma partida de RPG.

  4. Faltou dizer que mesmo que inconscientemente Sin City está presente. Essa narrativa comum aos contos e romances noir, com personagens malditos e desiludidos, altamente caricatos, lembrou-me a obra de Frank Miller e mesmo Max Payne, jogo que terminei há bastante tempo.

    Que não fique a impressão de que isso é uma crítica. Acho que o blog estava precisando “voltar às origens”. Criamos o blog para exercitarmos a escrita, e parece que esquecemos disso por algum tempo. Acho interessante cada um de nós se aventurar na arte da escrita. Não importa o tema: não precisamos discutir o futuro da humanidade. Escrever algo divertido, para praticar.

    Bandidos no confessionário é um clichê monstro, Reinaldo, mas clichê é uma preocupação/obsessão minha, não sua. Escreva mesmo, e que bom que os contos voltaram ao blog.

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