Manifesto Comunista- karl Marx e Friedrich Engels (em quadrinhos)

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

“A história de todas as sociedades que existiram é a história de luta de classes”.

Irritou-me profundamente essa adaptação em “quadrinhos” do Manifesto Comunista, de karl Marx e Friedrich Engels (que na verdade de quadrinhos tem muito pouco, sendo o nome mais propício para esse pequeno livreto o de Manifesto Comunista – Ilustrado). O modo como os desenhos supriram as críticas aos costumes burgueses em simplistas representações ilustradas pareceu-me falha e reducionista. Pode ser alegado que a intenção era justamente essa, a de transformar um texto complexo em uma mídia mais didática – no caso, os quadrinhos; todavia, dicotomizar a luta de classes para aquele que é bom, aquele que é mau,  não me pareceu uma escolha inteligente (olhem com atenção a capa, e percebam como a *simbologia do perverso está incrustada nas feições do gigante e comilão burguês). A partir do momento que é apontado os “heróis” e “vilões” na história, o papel importantíssimo da análise de Marx e Engels cai por terra. Para mim as ilustrações, ao invés de facilitar o entendimento do texto original, serviram mais como panfleto político e para seduzir mentes inocentes e facilmente manipuláveis.  A função dos quadrinhos, ou de qualquer outra mídia, deveria ser a do esclarecimento e incitamento à crítica, e não à demonização de classes.

Não estudei o Manifesto Comunista; não conheço as idéias de Marx (apesar de já ter lido três dos seus livros mais conhecidos: O Capital, o próprio Manifesto Comunista e O 18 de brumário de Louis Bonaparte), e embora guarde algumas informações básicas do conteúdo principal, a moral da história – pelo menos nos quadrinhos – é a de que o capitalismo existe porque os burgueses eram malvados e não tinham coração.

Apesar de tentar capitar as idéias básicas e repetir na íntegra alguns trechos do texto original, a dicotomia, proletariado = bom e burguês = mau, pareceu-me estupidamente simplista e errônea. No entanto (e como gosto disso), essa versão assinada pelo tradutor Rodolfo Marcenaro, de 1979, serviu-me para esclarecer algumas idéias sobre o papel do meu irmão, Eduardo, no seu atual emprego, como também para entender melhor a conversa que tivemos numa reveladora noite de… não me lembro mais.  Para ilustrar nosso bate-papo sobre as agruras referentes às suas jornadas cansativas, foi que escolhi dois trechos do “quadrinho”. No primeiro, temos a análise sobre o salário mínimo e o que ele verdadeiramente significa; e no segundo, uma fala de um superior a um operário que ousou reclamar seus direitos.

“Examinemos o trabalho assalariado. O preço médio do trabalho assalariado é o mínimo do salário, quer dizer, a soma dos meios de subsistência indispensáveis ao operário para continuar vivendo como operário. Assim, o que o operário ganha pelo seu trabalho é estritamente o necessário para a mera reprodução de sua vida, de sua força de trabalho”.

 

“Fora daqui! Seu trabalho já não me serve. Vai querer, por acaso, que eu o mantenha por sua bela cara? Adiante, outro”. (pág. 52)

 

*E se há crítica, há também elogios. Percebam como o perverso é simbolizado, mas percebam também como todos os operários têm as mesmas feições. Se no capitalismo o individual é supervalorizado, no comunismo ele – o individual – cede lugar a supervalorização do coletivo. 


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2 Respostas para “Manifesto Comunista- karl Marx e Friedrich Engels (em quadrinhos)

  1. Não se entendi bem a parte elogiosa nem o cotejo com a experiência pessoal de teu irmão, mas… Tenho um apreço gigantesco pelo panfleto original (lido e resenhado três diferentes vezes no mesmo dia, conforme já te confessei) e fiquei curioso (nem por bem, nem por mal, apenas curioso) quando tu apareceste com este volume aí e, como tal, quero dar uma olhadela, sim. Traga-o!

    Não acho esta dicotomia de todo problemática em se tratando do tema discutido (deve ser assim, aliás – é um PANFLETO!), e confesso que eu tendo a retroalimentá-la nalgumas situações, mas defendo-me por sucumbir a uma estranha “permissividade de transporte” entre ambas as classes extremas da citada dicotomia: freqüento ambientes patronais e proletários em iguais medidas e tenho críticas severas e mui similares a ambos, em especial no que tange à condenação sistemática e minuciosamente similar (oh, ideologia dos meus pecados!) do homossexualismo e de outras formas “tangenciais” de sexualidade não-reprodutiva. Por isso, meu parecer sobre esta luta de classes cada vez mais complexa e auto-negada é ambíguo, é difícil de definir, ao ponto de eu chegar erroneamente a me definir como sendo afiliado ao “centrismo” político no perfil do Orkut (risos)

    Mas aqui a gente entra noutra âmbito da questão: falamos sobre os “erros” e acertos das profecias histórico-marxianas ou sobre os problemas da translação literária? Só posso me aventurar a contento depois que tiver acesso à obra ora resenhada: traga-me!

    Wesley PC>

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