A Empregada

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

O dia todo sentada num banco acolchoado em frente a um computador e um caixa registrador, está a minha mãe. Os seus dedos das mãos estão enviesados de um jeito estranho, os pés, sempre descalços, persistem numa dormência já familiar; os seus olhos castanhos estão inchados; e, embora já saturada do trabalho, ela ainda encontra forças para receber sorridente cada novo cliente como se fosse o primeiro do dia.

“Sempre sorrindo Ifigênia, sempre sorrindo!” – dizia um dos supervisores à minha mãe.

No supermercado onde a minha mãe trabalha os enfeites para o natal estão dependurados em todas as partes – principalmente nas cabeças dos funcionários, no formato de horríveis e descartáveis gorrinhos vermelhos. E é assim que o natal sempre me apareceu: brilhante, convidativo e sedutor; decorado com o suor dos pobres, sob a orientação dos ricos. Mas logo o supermercado fecha as suas portas, e o gerente começa a verificar uma a uma as caixas registradoras, tudo fica novamente sem brilho e no vazio; e quando, finalmente, os funcionários são dispensados, viam-se eles seguindo os seus cinzentos caminhos de volta para algum lugar – boa parte deles sozinhos; já outros, como é o meu caso, voltavam acompanhados: eu volto de mãos dadas todos os dias com a minha mãe. Essa é a minha rotina.

Hoje é quinta-feira, dia vinte e três de dezembro de dois mil e dez, um dia que parecia ser como qualquer outro, tanto na minha rotina quanto na da minha mãe, contudo ela não parece ser a mesma de outrora: os seus olhos estão mais intumescidos que o normal e, como se derretessem, escorrem deles grandes gotas de lágrimas.

O que aconteceu mãe, por que está chorando?

A labuta meu filho, é só a labuta – respondeu a minha mãe com a voz grossa e enrouquecida.

Nunca tinha visto a minha mãe chorar e não entendia a palavra que me soou tão bonita e repetida por ela.

Apesar de toda a minha pobreza gramatical, deduzi que labuta estava intrinsecamente relacionada à sua vida, ao seu cotidiano, à sua história.  Esposa há quase vinte anos, a minha mãe parecia cansada de tudo: da vida, do trabalho, e principalmente do meu pai – acredito que até de mim. Às vezes ouço-a esbravejar coisas como “Poderia ter sido”, ou ainda “Eu não nasci para esse trabalho”. Sendo, todavia, o mais revelador: “Na verdade, nunca te amei”. E é nesses tristes momentos que percebo realmente quem é a mulher a qual chamo de mãe.

Casar, para Ifigênia, nunca foi algo tão complicado e importante, como gostava de falar a minha avó. Para aquela, casar não passava de uma ideia, pura e simples, implantada na cabeça de toda menina como regra geral àquela que quisesse ser mulher direita. Desde a mais tenra idade ouvia a sua mãe falar, enquanto essa preparava o almoço, ou fazia algumas tranças nos seus cabelos: “Aprenda a fazer isso o quanto antes, pois um dia irás casar…”, ou então, “Venha aprender a bordar, porque, quando casar…”. A todo instante, e por qualquer motivo aparentemente banal, a velha ladainha vinha à tona: “porque, quando casar…”. Pergunto-me hoje sobre quais foram os seus prazeres mais íntimos; sobre os seus reais sentimentos e aspirações. Será que realmente esse foi o tipo de vida desejada pela minha mãe?

Com o passar dos anos, casar-se se lhe apresentou tão essencial, e incrustou-se de tal forma em seu pobre cérebro, que apenas cogitar a possibilidade de ficar solteira já lhe parecia uma ofensa imperdoável a Deus.

A minha mãe não era feia; mas não era bonita: branca, traços acanhados, nariz adunco; indolente nas idéias, mas viva nos sentimentos. Qualidades que, somados ao temor de não encontrar marido, foram cruciais para, aos 17 anos, iniciar namoro com o vizinho e padeiro, Petrúcio.

De início o meu avô desgostou daquele namorico; pois segundo esse, a família daquele homem estava longe demais, e “eu não conheço os seus costumes”; mas, para felicidade do casal, a minha avó estava do lado deles, e convenceu-o de que o padeiro vivia muito bem e que estava em ascensão social – bem, se não social, pelo menos nos negócios. Após oito meses de namoro, deu-se, para a alegria do pai, que passava por uma crise financeira, e não tinha mais condições de alimentar uma boca adulta: o dia do casamento.

Após um ano de casados, e na tentativa de fortalecer os laços matrimoniais, os meus pais direcionaram o frágil “amor” que existia entre eles, para um porvir mais vital: um filho. Apesar de ainda não reconhecer-se mulher do marido, e não compreender os seus reais sentimentos por esse homem, ambos estavam dispostos a libertar-se do vil egoísmo, e, sem exigir nada em troca, proporcionar amor a outro ser humano.

Assim aconteceu; e quando eu cheguei lindo e rosa, os meus pais acreditaram que sua felicidade estava completa. Aquela que um dia preocupava-se com o casamento e o seu real sentido, aos poucos começou a entender o porquê de tudo aquilo – principalmente quando chegava a hora de me amamentar, ou de, simplesmente, admirar-me deitado no berço de jacarandá dado pelos meus avós. Sentia-se feliz. Na verdade, sentia-se radiante. Ela me disse que o seu peito estufava quando olhava para uma “criança tão perfeita”; e, no mais profundo da alma, sentia-se orgulhosa pelo sucesso de sua jovem maternidade. “Agora me reconheço como mulher e como esposa”, ela me disse às lágrimas.

O casamento ia bem, até o pai chegar com a abrupta notícia de que havia falido – eu tinha cinco anos naquela época, e foi a primeira vez que os vi brigar de verdade.

Como?! – questionou a minha mãe, com a voz trêmula sobre a ruína do seu marido. Agiotas, é isso! EU fali, meu Deus, EU fali! – disse desesperado colocando as duas mãos sobre a cabeça.

Nós falimos, foi isso que aconteceu!

Eles vão me matar…

Desesperançados e já temendo retaliação, os meus pais deram início a vil necessidade de culpar um ao outro; e se existe alguma coisa à qual o homem se deixa arrastar com cruel fruição, quando já começou, é humilhar totalmente a outra pessoa. Continuaram com violência cada vez maior, até que alguns vizinhos assustados invadiram a casa e selaram instantaneamente suas bocas com uma terrível notícia: vovô acabara de falecer.

Foi de repente, Ifigênia… É coisa do coração,… Meu Deus, por quê?! – gritavam estateladas em uníssono.

Veio o enterro. Veio a “venda” da padaria para sanar todas as dívidas. Veio o novo trabalho de pai: servente de pedreiro. Veio o primeiro emprego de mãe: “caixa” de supermercado. Veio a morte de vovó. Estávamos sozinhos. Mas, apesar de todas as adversidades enfrentadas, nós as superamos todas. Contudo, nem mesmo naquelas horas de plena união, esquecimento e felicidade, os sentimentos entre os meus pais pareciam ser mais os mesmos.

Finalmente avistamos nossa casa. Mas logo nos aproximamos, percebemos que alguma coisa estava diferente. Todas as luzes estavam acesas, um esquelético vira-lata sujo com sangue entrava e saia pela porta da frente como se a loucura o tivesse possuído; no entanto a coisa mais estranha era o fato de o rádio de casa estar desligado – o meu pai gostava de se embebedar ao som de música brega no volume mais alto. Nesse momento larguei a mão da minha mãe e corri em direção à porta da frente.

Pai, o senhor já chegou?

Ninguém respondeu.

Pai!

E o silêncio foi tão fúnebre para o meu coração, que as minhas costas se gelaram com um horrível pressentimento.

Petrúcio, Petrúcio! – correu já desesperada a minha mãe porta adentro. E ao passar pela cozinha viu no chão um mar de sangue misturado a um número incontável de garrafas e latas de cerveja. Quando fui atravessar para ver o que tinha acontecido a minha mãe empurrou violentamente a porta contra mim, e lançou um grito de horror.

Não entre! Não entre!

FIM


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Uma resposta para “A Empregada

  1. O final não me emociona, infelizmente.
    Meu eterno problema com pais!
    Jamais terei paz enquanto não resolve reste problema com pais!

    Gostei do narrador.
    “Lindo e rosa” é uma excelente auto-descrição infantil.
    Pareceu-me digna, a trágica Ifigênia.

    Digo mais: uma parcela mui considerável de meus colegas de infância hoje são empregados de supermercados que retiram o brilho das festividades espúrias ao fim do expediente… E nem todos sabem o que é labuta. E nem se impregnam do esforço lingüístico hermenêutico de que sua instância narrativa se vale para descobrir. Para eles, LABUTA rima com PUTA. E algo mais do que a simples sonoridade fonético-sufixal me faz pensar que eles têm razão ao pensar assim…

    Quanto ao tom “social” do texto: revela bem tuas condições de classe, alguém que olha “de fora”, ancorado pelo viés do “minha vida não era assim”… Não é errado, não, mas, no plano da identificação com alguns leitores (eu, por exemplo), soa rançoso. Não impositivo, não negativo. Rançoso. E isto não é um demérito, antecipo-me em dizer. Mas distancia…

    “Sempre sorrindo”, Reinaldo querido. SEMPRE!
    É o que me diziam as colegas de colégio primário, que hoje são caixas de supermercado, num daqueles clichês senso-comunais que ajudam na sobrevivência diária: SOFRA SEMPRE SORRINDO.

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