Melhores momentos – 2010 – Leonardo

O ano está no final e nada mais natural que olhar para trás e avaliar o que fizemos, vimos, ouvimos, lemos. Há muitas listas na internet, e esta aqui é, como todas as outras, pessoal, mas se restringirá (na medida do possível) ao espírito do blog Catálise Crítica.
Dez momentos que me marcaram em filmes e livros, independentemente da data em que foram filmados/escritos. O que importa é que eu tenha visto/revisto ou lido/relido e até mesmo escrito neste ano.

10 – Ilha do Medo – Martin Scorcese
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/10/07/um-fim-de-semana-de-cinema-e-cigarros/)

O filme é ótimo, mas o que me marcou especialmente foi o encontro com o Quarteto em Lá menor para piano e cordas, de Gustav Mahler, na cena do oficial nazista agonizante. A música entrou para o rol das minhas melodias favoritas.

9 – A Malvada (All About Eve) – Joseph Mankiewicz
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/06/04/a-malvada-all-about-eve-joseph-mankiewicz/)

Já havia visto o filme e o considerava um dos roteiros mais inteligentes e bem escritos do cinema, além, é claro, de Bette Davis oferecer uma atuação estonteante.
A cena que me fez engasgar ocorre durante uma briga, no aniversário de Bill. Margo, morrendo de ciúmes de Eve, diz que vai para a cama, deixando seu namorado e alguns convidados a observá-la subindo as escadas.
Bill faz então uma pergunta:
– BILL: Precisa de ajuda?
– MARGO (para de subir as escadas, se vira, sorri, e carrega tanta tristeza na voz que é impossível não se emocionar): Pra me colocar na cama? Tirar minhas roupas, segurar minha cabeça, me cobrir, desligar as luzes e sair silenciosamente na ponta dos pés…? Eve faria isso. Não faria, Eve?
– EVE: Se você quiser…
– MARGO: Eu não quero.

8 – Moby Dick – Herman Melville
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/06/29/moby-dick-herman-melville/)

Apesar de ter restrições quanto ao excessivo apego às descrições técnicas acerca da caça dos cachalotes, tamanho dos barcos, tipos de baleias, hábitos dos marujos etc., reconheço a importância de tal recurso para compor o quadro geral e preparar o leitor para conhecer o cachalote branco.
Mas o que fez a leitura desse livro constar nessa lista foi ter conhecido o Capitão Acab, um louco tão decidido que chega a dizer:

“Não me fale de blasfêmias, homem; eu bateria no sol, se o sol me insultasse.”

E Melville ainda nos brinda com a seguinte sentença:

“Pois o que é verdadeiramente espantoso e temível no homem ainda não foi posto em palavras ou livros.”

7 – Meridiano de Sangue– Cormac McCarthy
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/08/01/meridiano-de-sangue-cormac-mccarthy/)

De McCarthy havia lido A Estrada e Onde os velhos não têm vez. Aguardava ansioso ler Meridiano de Sangue, principalmente pelos elogios que Harold Bloom dirigira à obra. McCarthy deixa claro que a literatura é uma arte, e como tal, é construída para além do talento necessário, com carinho, cuidado, respeito.
Suas construções são belíssimas, seu estilo, inconfundível, suas histórias, arrebatadoras.

Ler isso faz bem demais ao cérebro e ao coração:
“Só agora a criança se despe enfim de tudo que foi. Suas origens tornam-se remotas como seu destino e nunca mais outra vez por mais voltas que o mundo dê haverá plagas tão selvagens e bárbaras a ponto de pôr à prova se a matéria da criação pode ser moldada à vontade do homem ou se o seu próprio coração não é uma argila de outro tipo.”

6 – Mary e Max (2009)

O filme é de 2009, mas vi no cinema em 2010. É um filme ímpar, mesmo eu não gostando dessa definição. Amizade, melancolia, fazem dessa DESanimação um tesouro.
Há uma cena em particular, quando Mary vai tentar o suicídio, alucinada com a overdose de Valium, que é de uma beleza que não se vê por aí.

5 – Luz de Inverno – Ingmar Bergman
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/11/10/luz-de-inverno-ingmar-bergman/)

Nunca havia assistido a nenhum filme de Bergman e, por conta de uma excelente recomendação, eis que começo por este. Não acredito que pudesse haver introdução melhor. Que obra prima!
Claro está que o filme adquire uma plêiade de sentidos dado o fato de eu ser religioso (termo que não admite advérbio de intensidade, ao meu ver). Sou católico e acredito em Deus. E ver um filme sobre um Pastor que perde a fé, sobre uma Missa sem fiéis, sobre relações mal resolvidas… me evangelizou.
Além da história, me encantaram as personagens, o cenário frio, tão frio que julguei precisar de um cobertor, a despeito de Aracaju despejar-me trinta graus de sol enquanto assistia ao filme e a beleza das imagens, numa fotografia que eu, completamente leigo no assunto, apreciei demais.

4 – Luz em Agosto – William Faulkner
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/03/19/luz-em-agosto-william-faulkner/)

O ponto alto deste ano, no tocante à literatura, foi, sem dúvida nenhuma, ter conhecido William Faulkner. E comecei bem: Luz em Agosto enfeitiça. Não dá para ficar falando. É preciso lê-lo novamente.

Ler Faulkner é ter acesso a histórias e personagens ricas, e ainda se deparar com textos deste tipo:

“Apenas pensou com calma: Então isso é o amor. Entendo. Estava errado sobre isso também. Pensando, como pensara anteriormente e pensaria de novo, e como qualquer outro homem pensara: como o mais profundo dos livros se mostra falso quando aplicado à vida.”

3 – A Árvore dos Desejos – William Faulkner
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/07/16/a-arvore-dos-desejos-william-faulkner/)

Melhor que descobrir e ler Faulker, só ler Faulkner para seu filho de sete anos. Encontrei, por acaso, numa pequena livraria da UFMG, “A Árvore dos Desejos”, em mais uma brilhante e primorosa edição da Cosac Naify. Meu filho tinha seis anos na época (hoje já tem sete) e decerto já havia lido muitas historinhas para ele quando menor. Agora que ele havia aprendido a ler, eu resolvera recomeçar. Ler com ele e para ele. E comecei bem, muito bem. Mais um grande momento, este, assim como os próximos, repleto de significados afetivos.

2 – Toy Story 3 (2010)

Toy Story é um grande filme. Mas o que o fez figurar em posição tão destacada é não somente o que significou para mim quando o vi, mas o que significou para meu filho, André.
Confesso que toda a história de mudança de fase, de deixar para trás os tempos de criança e acolher o que é próprio do novo tempo mexeu comigo pela minha história (oriundo de família do interior muito, muito unida em si, vim morar sozinho em Aracaju, para estudar, com 16 anos) e pela história dos meus irmãos (que moraram um bom tempo comigo, mas chegara o tempo em que eles tiveram que ir morar sozinhos e já vislumbravam a possibilidade de se separar, com o término da faculdade).
Mas foi quando saí do cinema que o filme ganhou mais valor. Estávamos eu, minha esposa e meu filho e ele só me abraçava, evidentemente emocionado. Comentávamos da beleza do filme, eu e minha esposa, quando perguntei a ele se tinha gostado do filme, não obtendo resposta. Meu filho de seis anos estava à beira das lágrimas! Ele ultrapassara o lado “animação” do filme e compreendera toda a história de deixar pai e mãe, deixar os brinquedos… Após algum diálogo, ele me fez a seguinte pergunta:
– Eu vou ter que ir morar em outra casa e deixar você e mamãe?
Eu o abracei e o confortei.

Um filme que faz isso é mesmo especial.

Como cena representativa, fico com aquela em que os brinquedos, na expectativa de serem destruídos, dão-se as mãos. Apesar de ser previsível (ninguém acreditava que eles realmente fossem morrer), a cena é muito emocionante.

1 – Amor Contado, Pesado, Dividido – José Leonardo Ribeiro Nascimento
(conferir post original: https://catalisecritica.wordpress.com/2010/10/26/amor-contado-pesado-dividido/)

Na madrugada de 25 para 26/10/2010 escrevi no escuro.

Não coloco esse texto em primeiro lugar pela sua qualidade literária, mas pelo que ele representa para mim.

Eu conto toda a história no post (favor conferir), mas, resumindo, escrevi no dia seguinte ao nascimento da minha filha, Beatriz, e o texto é uma declaração de amor à minha esposa, Andréa.


.
.
Ânima infinita, que não acaba
Só assim  explicar esse sorriso tão doce
.
Sorriso de ventre rasgado
Peitos machucados, costas maltratadas
Olhos abertos, tanto, tanto tempo abertos
.
Sorri ao sofrer dando o que ainda não tens
Só para ver mais junto de ti quem mais perto estava
.
Cansaço não é nada, dor não é nada.
Sorri.
.
Sorrindo, me fazes chorar. E te amar.
Eu que o mais que faço é
Escrever no escuro.

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2 Respostas para “Melhores momentos – 2010 – Leonardo

  1. Eu costumo ver 2 filmes por dia e leio e consumo produtos culturais de forma impávida. Por isso, minha lista vai pro último dia mesmo, quiçá recorrendo ao famoso artifício da ordem alfabética, começando e terminando com R (“piada interna” – kkkkk), mas deixa quieto: deixa eu meter o bedelho em tuas indicações:

    10 – também amo o uso genial da trilha sonora vanguardista neste primor scorseano. Krzysztof Penderecki foi reabilitado genialmente, ao passo que Gustav Mahler, meu alter-ego diagnosticado em MORTE EM VENEZA, sempre será um dos meus compositores favoritos!

    9 – Sobre A MALVADA, Eve sou eu. Glupt. Igualzinho, pergunta pro Reinaldo (kkkk)

    8 – Não li o “Moby Dick” ainda, mas, por não entender ainda o teu senso de galhardia (falha de minha criação a-familiar), LEONARDO, ainda, peguei “O Velho e Mar”, na Biblioteca, em tua homenagem. Serve

    7 – Cormac McCarthy é um escritor tão macho quanto John Huston o foi no cinema. Ansioso para ler este. Os outros dois já foram elogiados no ‘blog’ da Gomorra também.

    6 – Não gostei tanto, tanto de MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE quanto vocês (problemas pessoais, descritos aqui: http://gomorra69.blogspot.com/2010/06/como-assim-quer-dizer-que-as-pessoas.html ), mas admito que é exuberante, lindo, eterno, inesquecível!

    5 – Sobre LUZ DE INVERNO, calo a boca diante de tua excelente postagem de “leigo”, calo a boca! Extraordinária interpretação pessoal. Tenho como te conseguir quase tudo do Bergman, visse/ É só dizer… É só pedir para Eve (risos).

    4 – tenho que ir devagar em relação ao Faulkner, mas viste o que ENQUANTO AGONIZO fez comigo, né?

    3 – idem

    2 – a cena das mãos dadas em momento que parecia ser o derradeiro da vida dos brinquedos é linda mesmo. Sempre tive um pé atrás em relação aos filmes desta franquia (não tive brinquedos na infância, a associação nostálgica não funcionou comigo), mas o tema deste terceiro filme é bem outro, maduro, triste e doloroso, até. A partida, como bem destacaste. O momento em que os filhos saem de casa e são tragados definitivamente pelo capitalismo. E, como tal, chorei neste filme também. Chorei sim!

    1 – Pela qualidade literária TAMBÉM, humpf! Belíssimo texto, exemplo de vida, prolongamento teológico, tudo!

    Parabéns!

    WPC>

  2. Estou pensando em colocar no último dia do ano mesmo a minha lista – e digo de antemão que Luz em Agosto, Mary e Max e Toy Story estarão na minha lista dos top 10. Quanto às suas escolhas… o final, como havíamos “conversado” via mensagens de celular, foi mais do que merecido e previsível. Ah, sim. Sobre o Ilha do Medo, a música frisada – Quarteto em Lá menor para piano e cordas – tem sentido especial para mim porque: primeiro, utilizei para compor o último trecho de um vídeo que fiz com o meu irmão Leonardo para um disciplina da universidade; e segundo, porque foi a música que, por coincidência ou não, sempre tocava no rádio do mesmo irmão supracitado quando chegávamos na faculdade onde ele tinha vínculo empregatício (bons momentos).

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