Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

Certa feita eu assisti a um programa de televisão com o meu irmão Leonardo no qual o entrevistador e o entrevistado conversavam sobre as agruras da “profissão” de tradutor. Com o desenrolar do programa, um dos entrevistados falou sobre o número de obras estrangeiras traduzidas para o português do Brasil, contrapondo ao mesmo trabalho feito nos Estados Unidos.. Embora não esteja lembrado das percentagens citadas, sei que o número de livros brasileiros traduzidos para a língua inglesa é ínfima – em comparação as quantidade absurda de livros trazidos para as prateleiras tupiniquins.

Assim que acabei de ouvir tais números, fiz uma estúpida comparação a respeito do nosso Brasil: Comparei o nosso pais ao canal aberto Rede TV (“a rede que mais cresce no Brasil”, é bom frisar) Se eu não estiver enganado a frase foi mais ou menos assim: Incrível, não? O Brasil parece e muito com a Rede TV; porque veja bem: enquanto que no Brasil nós “vivemos” da cultura dos outros – diga-se Beyoncés, Ladys Gagá, Justin Beabers -, a inexpressiva Rede TV sobrevive da programação alheia (ou melhor, sobrevive da fofoca direcionada à programação alheia). A Rede TV é, definitivamente, um canal subdesenvolvido, não acha. “É”, acho que sim, disse o velho Leonardo.

Coincidência ou providência, essa anta que vos escreve estava lendo justamente uma obra na qual a personagem principal é um idealista apaixonado pelo Brasil e que abomina a cultura de outros países com todo afinco. Refiro-me ao já clássico Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), do mulato com ideias socialistas e de família modesta Lima Barreto, nascido no Rio de Janeiro, capital, do dia 13 de maio de 1881.

Pode parecer pretensão, mas acredito que a história desse livro pode ser resumida da seguinte forma: “A narrativa de um homem cuja sina é ver suas ideias e seu patriotismo serem motivo de chacotas, enquanto que medíocres e políticos corruptos chafurdam nas riquezas do Brasil”. O autor define como objetivo da obra “desenvolver o culto das tradições” e “mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes” (p.29). Policarpo Quaresma é um Dom Quixote à Lima Barreto, e o Homem ridículo de Dostoievski vivendo nos trópicos.

O livro é dividido em três partes distintas – cada uma subdividida em mais cinco partículas – que correspondem, cada uma, a um dos projetos grandiosos do protagonista.

Na primeira parte, para mim a melhor, conhecemos a personagem Major “Caxias” Quaresma, e todas as suas “excentricidades” patrióticas – exageros que levam às mais irritantes e persistentes chacotas dos seus vizinhos, diga-se de passagem. É também nela que o protagonista conhece Ricardo Coração dos Outros, e decide, com ele, aprender a tocar violão – instrumento que, na época, simbolizava a boemia e vadiagem. Assim que têm início as aulas, a zombaria em torno de Policarpo aumenta e passa a assumir ares maldosos. Para tristeza da personagem em questão, ele descobre que o instrumento que ele afirmava ser original do Brasil foi, na verdade, trazido por estrangeiros. Essa descoberta o faz abandonar as aulas, levando-o à depressão – isso, claro, somado aos constantes e irritantes “bullings” (desculpem o anacronismo, não resisti) feitos pelas pessoas que o cercavam. Após abandonar as aulas, Policarpo entra na inusitada empreitada de transformar a língua “Tupi” no idioma oficial do Brasil. E foi assim que, por descuido, acaba por redigir um ofício inteiro na língua indígena, o que resulta em sua dispensa do batalhão. Sozinho e sem ninguém, o Major sofre um colapso mental e é internado em um sanatório.

Na segunda parte, agora livre do sanatório, Policarpo Quaresma resolve comprar um tranqüilo e muito distante sítio: O Sossego. Fascinado e cego (redundância?) por aquelas belas terras, o Major começa a estudar e trabalhar com todo afinco para melhorar aquilo que lhe foi “dado” como presente pela natureza.

Certa noite, após dias e dias de trabalho incessante nas “maravilhosas” terras, Policarpo é acordado por milhares de formigas gigantescas que estão destruindo todo o seu estoque de sementes. E nesse trecho as metáforas são tão claras que chegam a cuspir na gente: assim como o sítio Sossego representa a nossa pátria e como ela reage frente às nossas maneiras de agir, as formigas representam a realidade iminente que tanto persegue Policarpo: para tristeza deste as terras do Brasil não estavam livres de pragas e… formigas. Mais uma desilusão para o nosso personagem. Não obstante tal calamidade, Policarpo envolve-se com corruptos políticos locais – embora acredite estar fazendo o melhor para a nação –, fazendo-o se revoltar com a política nacional agrícola, após descobrir as tais artimanhas e sujas negociatas realizadas sem o seu conhecimento.

Na terceira parte, agora se aproximando mais da História, o autor leva o protagonista a envolver-se na Revolta da esquadra da Marinha (1893-1894) – confrontos nos quais Policarpo oferece todo o seu apoio ao presidente Floriano Peixoto. Por fim, a revolta é reprimida, e todos os envolvidos presos e enviados para a prisão. Não conformado com as atitudes do presidente, Policarpo envia uma carta repudiando as atitudes tão ditatoriais. Policarpo também é preso, e… e já escrevi demais sobre o livro.

Tenho apenas uma crítica para fazer sobre a obra em questão: a perda do fôlego narrativo. Apesar de o romance ser curtíssimo (208 páginas), escrevo com pesar que fiz, em alguns trechos, uma leitura forçada da obra; e justifico esses momentos, baseando-me, somente, na não “capacidade” do autor em manter o fôlego do início ao fim do livro (pelo menos não para mim). Situação que não aconteceu, por exemplo, em Luz em Agosto, romance no qual o autor parece não querer desperdiça uma palavra sequer (e nesse aqui Lima Barreto desperdiçou?).

Realizar a leitura de Triste Fim de Policarpo Quaresma foi uma experiência recompensadora e reveladora, principalmente porque escolhi estudar a ciência História, disciplina que tem como metas, “desenvolver o culto das tradições” e “mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes”. Utópico? Pode ser. Mas como disse o Homem ridículo: “Se todos quisessem, tudo mudaria sobre a Terra num momento”.


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4 Respostas para “Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto

  1. Eu discordo de ti em muitíssimos aspectos deste texto.

    Em primeiro lugar, sabes bem o quanto eu acho problemático usar parâmetros comparativos que não deviam sequer ser citados, né? Para mim, a Rede TV! inexiste, é indigna de citação e, como tal, sou incapaz de detectar qualquer sagacidade crítica no trecho de teu texto que narra a discussão calorosa entre tu e teu irmão, duas pessoas que, cada qual a seu modo, respeito sobremaneira, apesar de nossas discordâncias fundamentadas por arcabouços intelectuais mui diferenciados.

    Em segundo lugar, não somente eu sou um fã ardoroso, mui ardoroso do livro, como tu deves intuir que minha identificação com ele é plena. Comecei a lê-lo, bastante atrasado, na época em que meus colegas de País eram imbuídos de um patriotismo espúrio e atroz, período de Copa do Mundo, e desde a citação francesa do começo, vi-me na pele do obstinado e derrotado de antemão protagonista. É como se não houvesse objetivo a ser conquistado, mas sim o desejar pelo desejar, o que, creio eu que concordemos, possa ser entendido justamente como utopia. Nesse sentido, não acho que haja uma perda de ritmo, mas sim uma modificação inassumida de âmbito desejoso, uma percepção das frustrações prévias que é negada veementemente, no plano consciencioso, pelo orgulho público, pelos compromissos a que o personagem se comprometera até a morte. Afinal de contas, ele fora doutrinado pela disciplina militar. E confesso que me assustei deveras, no sentido positivo, com as vigorosas (quase chulas) tomadas de posição política por parte do autor desta obra-prima, para mim, uma obra-prima singular!

    Caí na tentação de redigir uma apreciação mui calorosa deste romance, mas, ao contrário de ti e de tuas citações faulknerianas, a ferida aberta em minha consciência utópica, fortemente utópica, quando li este livro foi muito mais pessoal. Comigo, é sempre pessoal: eis o meu dom, eis o meu karma. Segurei as mãos de autor e personagem, muito diversos entre si, aliás, com um fervor que assustou até a mim. Nesse sentido, percebo o quanto somos diferentes em matéria de política, muito mesmo. Se brincar, chegamos a ser concorrentes na bendita ou maldita da “luta de classes” apregoada pelos comunistas, com ou sem carteirinha de legitimidade.

    Mas o que importa é aquilo que sempre te digo: NÃO SOMOS INIMIGOS! Mas, neste texto, como eu discordo de ti, precioso leitor. Discordo muito!

    Segue minha versão entusiástica acerca da apreciação do mesmo livro:

    http://gomorra69.blogspot.com/2010/06/de-como-eu-entendo-o-patriotismo-i.html

    WPC>

  2. PS: reli com mais cautela a tua resenha e, se me permite um comentário ainda mais pessoal sobre teu texto, é que, além de deixar bem claro que leste a pulso muitos trechos do livro, que teu consumo da obra foi demasiado forçado (o que, sou obrigado a admitir, não é tua culpa nem culpa de ninguém, acontece de vez em quando, ora pois), o que me ofende irracionalmente, visto que, comigo aconteceu o inverso: não conseguia parar de ler aquelas páginas, tamanha a identificação utópica!

    Insistindo em nossas veementes diferenças ideológicas, acho a tua interpretação da segunda parte do livro mais subjetiva do que “pensadamente cuspida”, como ousaste mencionar. As metáforas que tu explicaste me foram enxergadas por um viés bastante diverso, sacrificial até, que eu pondero aqui em relação a citações mais detidas a fim de não retroalimentar discussões que já tivemos noutras oportunidades sobre o tema do ‘sacrifício por uma causa’ e congêneres…

    Destacar anacronismos é o que menos prejudica teu texto, ao contrário das comparações chavonadas que, centradas mais num “estilismo compositivo” adotado como sacrossanto, pareceram-me um pantim de fã dostoievskiano, se é que se possa entender pejorativamente esta expressão. Neste caso bem específico, acho que seu fanatismo soou fora de propósito, forçado até.

    Insisto na (para usar um termo destacado em teu texto) desnecessidade de tua introdução familiar, sobre o crescimento nulo de um canal nulo de Tv com base em nulas observações sobre criaturas midiáticas que são nulas e devem ser relegadas, pelo menos por alguns de nós, à nulidade citacional que elas merecem: ignoremo-nas!

    De resto, eu confio em ti, Reinaldo. Poderia citar aqui aquele famoso excerto voltaireano sobre a minha luta ferrenha em dizeres aquilo que eu discordo, mas… Tu me conheces bem, acho que não preciso me expor a este nível.

    Gosto de ti, fico muito contente que tenhas um ponto de vista, aprecio deveras a tua forma dialogística de escrever estas resenhas, mas, no caso da apreciação da obra em pauta, nossos caminhos espectatoriais seguem em direções radicalmente distintas.

    Fica bem, melhor sorte no próximo livro (se bem, que eu acho que tuas frustrações estilísticas serão ainda mais ferrenhas em relação à feminina Clarice Lispector) e, se me permite a presunção de um conselho: cuidado com os parâmetros comparativos enganosos, visse?

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  3. PS do PS: depois de ler teu texto, fui tomado por espertina. Dormir me pareceu complicado, quando eu tinha tanto a discutir e argüir contigo: Por favor, Reinaldo, leia aquele artigo-manifesto do Glauber Rocha que te passei! tenho certeza de que lhe seria útil nalgumas reflexões, como a que tu intentaste no início…

    Acho muito complicado (equivocado, diria) tachar a Rede TV! de “subdesenvolvida”. Subdesenvolvida em relação a quê? O correto seria a-desenvolvida ou, se me permite o oxímoro válido, desenvolvida de forma retrógrada. Sub-desenvolvimento é mais uma forma de dizer “em desenvolvimento”, como se houvesse um padrão a ser seguido, mas a Rede TV! literalmente “anda para trás”. Subdesenvolvidos são a TV Record, o SBT, a Tv Cultura, coitada…

    Quanto ao balaio estrangeiro que citaste como oposição à “cultura dos outros”, cautela! Senão, as citações apologéticas ao autor russo e ao William Faulkner tambpem serão vistas/entendidas como “cultura dos outros”, meu caro. Afinal de contas, apesar de os três exemplos “negativos” que tu destacaste chamarem a atenção por causa do viés ‘pop’, Justin Bieber não é igual a Beyoncé que não é igual a Lady GaGa, apesar de se irmanarem por baixo muitas vezes. O guri de 16 anos é um nojento, uma nulidade extrema, sabes que acho isso, mas Lady Gaga é apenas irregular (quer ser mais do que artista, quer ser diva, quer ser vanguarda – e não o é, em minha opinião), enquanto a Beyoncé realmente estuda música, realmente atualiza o R&B, as tradições negras musicais norte-americanas, sendo tão relevante para eles quando o Zeca Pagodinho é aqui. Abomino Zeca Pagodinho , odeio sua ode extrema ao álcool, mas tachar Beyoncé de “lixo” pura e simplesmente, é um exagero problemático. Basta ouvir “Halo” com cuidado para entender o que eu quero dizer…

    E, de coração, Leonardo, queria saber se tu entendeste o porquê de os parágrafos iniciais deste texto de teu irmão terem me incomodando tanto, no sentido negativo do termo… Fui claro ou pareceu um mero pantim reclamante?

    Quanto à opinião dele sobre o livro, aí é questão de opinião mesmo., Ele tem a dele, eu tenho a minha, tu deves ter a tua, estamos os três certos e errados ao mesmo tempo…

    Fé!

    WPC>

  4. ERRATA: onde lê-se “Tv Cultura, coitada”, leia-se “Tv Aperipê, coitada”. Incorri num erro atroz de julgamento aqui… Afinal de contas, se eu estiver tomando a TV Globo (sic) como parâmetro de desenvolvimento, a TV Cultura deve ser considerada sobredesenvolvida!

    E, nesta hora, creio que posso me valer de um recurso de autoridade: afinal de contas, eu não me graduei em Rádio/TV por nada (risos)

    Fiquemos bem,

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