Esperto e meio, dois espertos

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Matias tem nove anos e esta é a história de como ele aprendeu a ser esperto. Se bem que ele não entendia muito bem o que era isso. Só o que ele mais queria era ser esperto como uma raposa. Mais esperto que uma raposa, para dizer a verdade.

Ele lia uma revista em quadrinhos quando ouviu seu pai dizer a sua mãe:

– A raposa comeu outra galinha essa noite.

Ele continuou vendo o Pato Donald ser passado para trás pelo Gastão, o pato mais sortudo do mundo. Seu pai continuou:

– Já são três galinhas das boas, poedeiras. Tenho que pegar essa raposa. Mas ela é muito esperta.

Esperta, esperteza, espertalhão, pensava Matias. Ele gostava de brincar com as palavras. Espertinho, desperto, és perto, quase longe. Papai vai pegar uma raposa?

– Como você vai pegar uma raposa, papai? Ela é mesmo muito esperta, não é?

– Ainda não sei, Matias, mas vou elaborar um jeito. Se ela é esperta, preciso ser esperto e meio, não é?

Esperto, esperto e meio, dois espertos, dois espertos e meio, três espertos. Será que consigo ser dois espertos?

Matias guardou o Pato Donald e pediu para ir à casa da avó, onde ficava o galinheiro alvo dos ataques da raposa.

Lembrou-se das histórias do Mickey, em que ele representava o grande detetive, e pôs-se a inspecionar a cena do crime. O velho galinheiro ficava nos fundos da grande casa de sua avó, rodeado por uma cerca de pequenas estacas improvisadas, apertadas o suficiente para que nem o menor dos pintinhos pudesse sair. Apesar disso, a raposa conseguia entrar quando bem queria. Ele precisava prestar mais atenção ao cenário, em busca de possíveis rotas de entrada e fuga. Havia dois pés de manga enormes, cujas copas ocupavam praticamente todo o espaço do galinheiro. Perto de um dos lados da cerca havia alguns pés de café. No outro canto, alguns pés de mamão. A cerca era alta – ao menos para Matias. Nem com a ponta dos dedos ele conseguia alcançar a parte mais alta. Mas seria isso obstáculo para uma esperta raposa?

Do lado de fora do galinheiro havia diversas árvores: cafezeiros, mangueiras, cajueiros, mamoeiros, além de algumas árvores jovens compridas e finas, que não davam fruto e cujos nomes Matias não conhecia. Se raposa subisse em árvores, estava explicado como ela entrava no galinheiro.

– E chegou que nem veio falar comigo, menino?

Matias sabia que não tardaria até sua avó perceber a sua presença ali. Precisava contar com a cumplicidade dela se quisesse colocar em prática seu plano. Correu então para abraçá-la.

– Bença, vovó.

– Deus o faça feliz. Veio atrás de manga? Não tem nenhuma madura. Tá tudo verde ainda.

– Quantas galinhas restaram no galinheiro? A raposa já matou três, não foi?

– Ainda tem seis. Aquela peste tá com o diabo pra comer minhas galinhas. Não sei o que fazer. Seu pai disse que vai dar um jeito. Só não sei como. Raposa é animal muito arisco…

– Vovó.

– Diga, menino.

– Eu queria fazer uma surpresa para o papai e queria que a senhora me ajudasse.

– É um presente? E é aniversário dele? Não é só no mês de Sant’Ana?

– Não, vovó. Eu vou pegar a raposa. Pra mostrar como eu posso ser esperto.

– Raposa é bicho que dorme no sereno. Como um menino que mal deixou de fazer xixi na cama vai apanhar uma coisa dessas?

Orgulho ferido, Matias baixou os olhos. Mas ele sabia bem que se quisesse surpreender o pai precisaria contar com o silêncio da avó.

– Eu ainda vou inventar o jeito, vovó. Só queria que a senhora não contasse nada pra ele e… que me deixasse dormir hoje na sua casa.

O sorriso da avó denunciou sua vitória. Precisava ser rápido e astuto. Voltar para casa e pensar em algum jeito de observar a raposa em ação naquela noite para saber como apanhá-la.

Beijou a avó e saiu correndo do quintal. Como um raio, adentrou a cozinha, passou pela sala, driblou o gato e já estava no corredor. Num átimo, estava na varanda da casa, no alpendre, passando pela sombra do pé de amêndoa. Entrou à direita, passando pelas flores e pelo pé de Comigo-Ninguém-Pode e pegou a estradinha que levava até a sua casa. O vento no rosto, ouvia o farfalhar dos pés de milho, verdes, do seu tamanho, do seu lado esquerdo e do seu lado direito. Faltava muito ainda para que eles crescessem e ficassem maiores que os homens. E secassem. E ficassem assustadores. Quando atingiam seu tamanho máximo, eles deixavam o corredor bastante estreito. Pareciam braços a querer segurar quem passasse. Mas agora não era hora de pensar nisso. Ainda era dia, e ele já passava pelo pé de jaboticaba. Uma curva à direita. Uma curva à esquerda. Uma pequena subida e lá estava a sua casa. Antes o galinheiro, os cachorros, o cajueiro, o terreiro onde brincava de bola e onde era espalhado o milho, em cima de lonas pretas, para secar.

Num fôlego só pulou o pequeno degrau do alpendre e adentrou a sala da casa, quase atropelando a mãe, que trazia umas roupas para o quarto.

– Está ficando doido, Matias? Que carreira toda é essa?

– Vovó disse pra eu ir dormir na casa dela hoje, disse Matias, respirando ofegante.

– Hoje você não pode dormir, não. E sua prova amanhã? Você ainda nem estudou!

– Mas eu vou estudar agora, mãe. Deixe, por favor! Antes de você acordar eu já estarei aqui, prometo! E vou dormir cedo. E levo o livro pra estudar. E a prova é de ciências, eu já sei quase tudo, é só estudar mais um pouco.

E com esses e mil outros apelos semelhantes, Matias convenceu a mãe. Primeira vitória, pensou ele. Vitória, vitorioso, Vitorino, vistoso, vista, revista.

E levou, junto com o caderno e o livro de Ciências, a revista do Pato Donald que não havia ainda terminado de ler. Só não levou um plano para vigiar a raposa que, em sua cabeça, atacaria novamente hoje. Ao menos ele torcia bastante por isso.

Beijou a mãe, pediu a bênção e saiu, primeiro correndo, depois, tentando se conter, num passo rápido, depois correndo, andando, para, finalmente, sair em desabalada carreira rumo à primeira de suas grandes aventuras.

Ao chegar à casa da avó, tratou de colocar imediatamente o material de estudo em cima da cama, para não chamar a atenção da velha senhora. Correu para o galinheiro. O sol já ameaçava se por. As galinhas já se aninhavam. Percebeu que elas ficavam todas em um cantinho, algumas no chão, outras em um galho de um dos cafezeiros. O lugar era perto da porteira do galinheiro, que, por sua vez, era perto da área onde sua avó lavava roupas. Ali seria seu observatório. Vararia a noite, sem piscar os olhos. Com sorte, seria lua cheia. Com sorte, a raposa viria. Com esperteza, pensaria numa forma de apanhar o bicho.

Enquanto comia o cuscuz com leite com a avó, inquiria-a a respeito do método de atuação do predador e sondava-a também a respeito do possível perigo que correria caso a raposa resolvesse mudar de cardápio naquela noite, escolhendo algo mais humano para comer.

Sua avó o tranqüilizou, dizendo que, arredias como eram, as raposas não atacavam pessoas, mesmo crianças curiosas como seu neto. Disse também, para pesar de Matias, que nas outras noites o ataque havia sido feito no meio da madrugada, antes de o galo cantar pela primeira vez. Algo em torno das três da manhã.

– Será uma noite de vigília longa então, disse Matias, com a maior naturalidade que pôde.

– Vigília? Você não acha que vai conseguir vigiar uma raposa, vai? E se ela aparecesse justamente hoje, como você iria matá-la? Com um abraço? Ou de susto? – e sua avó soltou aquela risada que fazia a dentadura balançar em sua boca.

– Não, vovó, replicou, o mais calmo que pôde, o jovem aventureiro. Meu trabalho essa noite será só observar a raposa. Ficarei escondido ali perto do tanque de lavar roupas, coberto da cabeça aos pés. Ficarei sentado, aguardando. Essa noite o céu está claro e poderei observar bem de onde vem a raposa e como ela ataca e por onde foge. Poderei pensar numa maneira de apanhá-la e terei como preparar-me para agir.

– Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Como meu neto fala bonito. Esse tantinho de gente falando que nem doutor.

Matias sorriu. Gostava de receber elogios. Ele era mesmo esperto, e seria esperto e meio, até dois espertos, se conseguisse apanhar a raposa.

Após mais alguma prosa, foi ocupar seu posto. Estranhamente, sua avó foi-lhe muito solícita. Limpou e secou o lugar onde ele se sentaria, arrumou uns travesseiros, uns cobertores dos mais grossos, enrolou-o inteiro, deixando espaço suficiente apenas para respirar e observar o sono das galinhas. Seu propósito era firme, e cria que seria capaz de atravessar a noite sem um cochilo sequer.

Após horas e horas – ao menos assim lhe pareceu o tempo que transcorrera até então – seus olhos começaram a ficar pesados. Quis  levantar, mas sabia que a qualquer momento a raposa poderia aparecer. A perna esquerda ficou dormente. Precisava estirá-la. O formigamento estava incomodando bastante. Ouviu um barulho do lado de fora do galinheiro. Poderia ter vindo da mangueira ou do cajueiro, não sabia. Pensou que poderia ser a raposa. Esforçou-se para esquecer a dormência e o sono. Mas então pensou que poderia não ser a raposa. E se fosse algum bicho? Ou um ladrão? Pensou em correr dali, mas tinha que se dominar. Provavelmente era só o vento mesmo.

Se eu fechar os olhos só um pouquinho será que eles abrirão novamente? Não conseguia tirar essa ideia da cabeça. Queria fazer o teste, mas tinha medo de adormecer e perder para a raposa na prova de esperteza. Uma dor nas costas fê-lo mover o corpo e lembrou que sua perna estava dormente. O formigamento agora era insuportável. Percebeu também que precisava muito, muito mesmo, ir ao banheiro. Nervoso, quase em desespero, olhou as galinhas. Conseguia distinguir quatro delas, encolhidas, num repouso merecido após um dia inteiro ciscando e botando ovos. Elas não percebiam, nem por instinto, que havia um assassino em série, um predador terrível que as estava eliminando, uma a uma, noite após noite? Como conseguiam dormir tão tranquilamente?

Mexeu a perna para se levantar e não conseguiu esconder um gemido. O formigamento atingiu até suas partes mais íntimas, fazendo-o rolar no chão de agonia, o que provocou um barulho considerável. Aos poucos, e movido pela premente necessidade de ir ao banheiro, foi levantando, preocupado em não fazer mais barulho para não espantar a raposa, se por ali ela estivesse, e para não acordar a sua avó, cujo sono era mais leve que a respiração de um bebê.

Após ir ao banheiro, estirou-se o mais que pôde, lavou bem o rosto, esfregou os olhos e repetiu para si mesmo uma ladainha de “acordado, acordo, acorda, acordaria, acordando, acordarei, acorde…”.

De volta ao posto, rezou para que não tivesse perdido a chance, para que a raposa ainda estivesse descansando em algum lugar, regozijando-se da caçada da noite anterior. Reavivado pela atividade física, sentia-se capaz de atravessar duas noites seguidas, e com este espírito sentou, desta vez não tão bem agasalhado como antes.

Após uma longa espera – aparentemente maior que a anterior – eis que, do alto da mangueira um corpo desce, célere, gracioso. É quase um pouso, de tão preciso, mas também um bote, de tão rápido. Um animal grande, maior do que ele esperava, com o pelo prateado, as patas compridas e fortes, um porte solene, observa o ambiente. Os olhos brilham. Matias não saberia dizer se era o reflexo da lua somente. Parecia haver algo mais, e isso fê-lo estremecer. Mas precisava ser forte e corajoso. O corpo do animal estava parado, plantado no solo. Só sua cabeça e seu rabo se mexiam. Matias não sabia dizer se era o olfato, a audição ou a visão que o bicho utilizava, mas temia que ele o encontrasse. Alguns segundos se passaram, imóveis o predador, as presas e o vigilante. Só o vento insistia em se mover, agitando a pelagem do belo animal, derrubando folhas e causando calafrios no menino.

Um pensamento repentino tomou de assalto o pequeno voyeur: seria ele capaz de capturar a raposa ainda naquela mesma noite? Um dos cobertores que sua avó lhe emprestara poderia ser usado como rede. Se ele conseguisse ser veloz e suficientemente silencioso. Se fosse mais esperto que a raposa.

Tirou por um segundo os olhos do animal, e agora ele já estava caminhando, passos lentos, implacáveis, rumo ao galinheiro.

Não pensou. Levantou-se e já havia passado a porteira. Estava a seis metros do bicho. Ganharia dele na velocidade? Não, sem dúvida não. Esperto e meio, dois espertos. Dois cobertores, um para enganar, outro para capturar. Os dois braços bem abertos. Ele teria que escolher um lado. Um pequeno alvoroço entre as galinhas. A raposa apanhara sua presa. Voltara-se agora para Matias, a galinha entre os dentes, debatendo-se fracamente. Um momento de hesitação. Direita ou esquerda? Os cobertores, agora redes, ameaçadores. Matias sorrindo, excitado. Esperto e meio, dois espertos.

A surpresa. Nem direita, nem esquerda. A raposa pulou sobre o jovem caçador. Rápida, muito rápida. As patas em seu ombro causaram ardência. Ela usara o garoto como trampolim para alcançar a mangueira. Esperto e meio, dois espertos. Pensa rápido, age rápido. O rabo ainda passava roçando seu rosto. Segurou-o com toda força que tinha, que não era muita. A raposa arrastou-o mangueira acima, como se não carregasse nenhum peso.

Em dois pulos já estava no ponto mais alto da árvore, levando junto o assustado garoto. De cima da árvore, o balanço deixava-o meio zonzo. Dava pra ver todo o telhado da casa da sua avó. Virou a cabeça, estava curioso para ver se conseguiria avistar sua casa. Mais um pulo da raposa, dessa vez para o espaço vazio. Ela pulara sozinha. Matias não conseguira se segurar. Caía agora de muito alto, o chão cada vez mais perto, a certeza, enfim, de que não havia sido esperto e meio nem dois espertos.

Até que sua avó segurou-o pelo braço.

– Você vai se atrasar, menino. Sua mãe não vai mais deixar você vir dormir aqui.

Olhou ao redor. A cama, os cobertores, o telhado. Como chegara ali?

– Como vim parar aqui, vovó?

– Você dormiu, né, menino. Dormiu e eu o coloquei na cama.

Era um sonho…

Tomou o café – cuscuz, mais uma vez – emburrado. Não conseguira vigiar uma noite. Ao menos sua avó o informara de que a raposa não aparecera.

– Pelo menos você não perdeu se tempo.

– Que horas eu caí no sono e você me levou para a cama?

– Antes das onze horas. Mas já são seis e meia. Você vai chegar atrasado à escola. Acho bom ir correndo pra casa.

A prova!

Não estudara nada por causa daquele mal fadado plano e agora tinha a prova, e ainda estava atrasado.

Correu como louco, os livros na mão, o banho mal tomado, o cabelo por pentear. Ouviu ainda alguns sermões de sua mãe, mas todo o seu raciocínio agora estava direcionado para a prova. Sabia muito bem que seria castigado se tirasse uma nota vermelha. E era isso que aconteceria, inevitavelmente.

Enquanto percorria a pé a distância que separava a sua casa, em um pequeno sítio na zona rural, da escola, no centro da cidade, teve tempo de pensar no que faria: uma solução errada, mas necessária. Colaria na prova. Nunca havia feito isso, e tremia só de pensar nos riscos envolvidos. Mas esperto, esperto e meio. Conseguiria se safar se tudo desse certo. Só tinha que sentar atrás de Júlia ou de Fernando, e torcer para que eles colaborassem.

O único problema era a professora Finha, ruim que só cobra, braba que só cachorro raivoso, esperta que só… que só uma raposa.

Fora derrotado no sonho, agora não seria. Era só ser veloz e suficientemente silencioso.

 

– Por que está chorando, Matias? – perguntou logo a mãe, assim que o viu chegar.

A voz não saiu. Só chorou.

– Mas o que foi, meu filho?

Explicar tudo para sua mãe era a parte mais difícil de todas. Não só tirara a sua primeira nota vermelha, como tirara um zero, absoluto, definitivo. E tivera sua prova rasgada. E todos os olhos da turma sobre ele. E os olhos da professora, incisivos, acusadores.

A situação era grave, mas tais foram a dor e o arrependimento demonstrados ao contar, entre lágrimas e soluços, seu drama a sua mãe, que esta, um eterno poço de compreensão, pouco espaço encontrou para repreender seu rebento. Pelo contrário, tentou consolá-lo, animá-lo:

– Vá ver o que seu pai está fazendo lá na casa da sua avó. É uma armadilha para pegar a raposa. Vamos lá.

Passos vacilantes, bem distintos daqueles do dia anterior, levaram-no até o galinheiro. Do lado de fora, sua avó, seu tio, alguns vizinhos, todos curiosos com a ousadia e a esperteza de seu pai.

– Será que isso dá certo?

– Sem dúvida nenhuma, garantia seu pai.

A armadilha era composta por uma arapuca gigante, dentro da qual seria colocada uma galinha, usada para atrair a raposa. Na entrada da arapuca um mecanismo seria acionado pelas patas da raposa e liberaria a corda que numa das pontas estava presa a uma árvore fina e flexível, dobrada como uma catapulta, e na outra ponta fazia um laço na entrada da arapuca, de sorte que a raposa seria laçada bem no meio do corpo e sofreria um violento puxão, sendo esmagada contra a base da arapuca, firmada fortemente no chão.

Matias demorou pouco tempo para perceber a ideia simples, mas engenhosa de seu pai.

Sua tristeza foi arrefecida pelo encantamento com a armadilha. Olhou seu pai como se ele fosse um gênio. Esperto e meio, dois espertos.

 

Naquela noite o sono demorara a chegar. Pensava em esperto, esperteza, espertinho, espertalhão, és perto, és longe. Pensava em raposas e em tipos de solo e em heterogêneo e homogêneo, e se queria ser esperto mesmo, se fosse pra ser como a raposa ou como ele tentara ser na prova. A raposa vivia roubando, tomando o que era dos outros. Não parecia se preocupar com o fato de que aquelas galinhas tinham um dono. Ele fora meio raposa. Tentara se apropriar do que era dos outros. Não fizera a sua parte, não trabalhara para receber o seu sustento. Não estudara para a prova e mesmo assim queria nota azul.

Claro que nessas reflexões fora ajudado pela sua mãe, que lhe pregara um belo sermão após o jantar, e pelo seu pai, que ainda dissera:

– Sem mérito, que gosto tem um dez? Se você tivesse sido “mais esperto” que a professora estaria apenas igualando-se à raposa, que, noite após noite, estava sendo mais esperta que sua avó, roubando-a.

Melhor seria, concluiu finalmente o contrito Matias, ser esperto como o meu pai, que trabalha dia após dia e ainda encontra um jeito de vencer a raposa, não para tomar o que é dela, mas para proteger o que é da minha avó.

Matias acordou diferente no dia seguinte. A mesma certeza que tinha de que a raposa havia sido apanhada naquela noite lhe assegurava que nunca mais colaria numa prova nem tentaria ser esperto à maneira da raposa. Fazer o certo era ser esperto e meio, dois espertos.

E definitivamente aquela raposa nunca mais comeria nenhuma galinha.

 

Anúncios

6 Respostas para “Esperto e meio, dois espertos

  1. Sem ir muito longe, a comparação com UM VELHO CLICHÊ prenuncia uma interessante similaridade de proposições morais: como se o lastro fosse o mesmo, visto que, de fato, o é! Eis o que me encanta neste tipo de fábula, de conto, de lição de moral ficcional: a narrativa como assunção de valores autorais. E eu fico cá a imaginar o que a raposa comerá a partir de agora…

    WPC>

    • PS: e sim, sim, eu deturpo o que leio, esta é uma mania estranha, mas que me ajuda a sobreviver nesta pletora de conteúdos do mundo hodierno: por mais que seja evidente que, desde o título, o autor do conto quer que pensemos na comunhão benfazeja entre pai e filho, eu ignoro isto quase que por completo, fico mais concentrado em aprendizados íntimos, que lidam com desejos que devem ser contidos por causaram mal quando aplicados irrestritamente… Meu aprendizado foi mais singular, solitário até, do que numerativo. Mas eu entendo, por dentro, o que foi defendido aqui… É um problema pessoal, no sentido mais interno do termo: PROBLEMA!

      WPC>

  2. Esse conto merece três explicações:
    – O episódio da raposa é verídico: é uma das mais emblemáticas memórias que formaram a imagem de meu pai como “inventor”, pessoa inteligente. E veio para evitar (ou amenizar) aquele classico desencantamento ao descobrir que seu pai não sabe tudo;
    – Escrevi como fábula moral mesmo, destinada a um público mais infantil, com o propósito de ler para meu filho. Pretendo escrever histórias assim para leitura e reflexão na hora de André dormir, para contribuir com a formação do caráter dele. Coisas de pai (já escrevi pelo menos uma eminentemente assim, que foi “onde está o tem tesouro”, e a história do coco verde traz traços morais) . 😀
    – Resgatando um dos objetivos do blog, resolvi escrever como exercicio. Queria contar a história da raposa de uma forma instrutiva. Escolhi esta maneira, e confesso que achei o final fraco. Mas, encarando como um exercicio, mantive o conto.

    • Eu tinha certeza de tuas explicações 1, 2 e 3.
      Juro CERTEZA AUTO-EVIDENTE de que a) era verídico: Reinaldo já me acostumou a enxergar verdade por detrás destas “memórias inventadas” (termo felliniano); b) era proposital e direcionadamente moral: tu já confessaste este intento N vezes; e c) era um exercício atrelado ao elo virtual da postagem imediatamente posterior: elementar, meu caro, elementar!

      Nos três casos, a evidência ostensiva dos objetivos é elogiosa, tal qual acontece comigo em relação ao consistente ‘ corpus’ fílmico do M. Night Shyamalan (hehehehehehe)

      WPC>

  3. A última suposição, a respeito do exercício, está em parte acertada. É um exercício, mas não parte da oficina de contos. O exercício da primeira aula ainda está por vir. 😀

  4. Pingback: Melhores Momentos – 2011 « Catálise Crítica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s