Oficina de Contos – José Castello (Portal Literal)

O Portal Literal (http://www.portalliteral.com.br) disponibiliza algumas oficinas literárias. Há no site, gratuitamente, uma Oficina de Contos que desde o ano passado penso em fazer. São dez aulas, cada uma encerrada com um exercício. Disponibilizarei a cada semana uma das aulas e e cada um dos três componentes do blog terá uma semana para postar o exercício correspondente, normalmente no formato de um conto.

A seguir, a primeira aula (o conteúdo completo da oficina pode ser acessado em http://www.portalliteral.com.br/oficina/oficina-de-contos):

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Em sua primeira aula, José Castello destaca que cada conto oferece, secretamente, sua própria definição do que é um conto. E propõe um exercício surpreendente.
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Diz o dicionário que o conto é uma narrativa breve e concisa, que apresenta unidade dramática e tem a ação concentrada em um único ponto de interesse. A definição sintetiza as idéias mais comuns que cercam, como velhas superstições, o conceito de conto. Não traz uma regra, uma norma, não é um dogma: mas é, ainda assim, um bom ponto de partida. E, como todo ponto de partida, existe não para que nele estacionemos, mas para que o superemos.

A palavra conto vem de “conputus”, do latim, que, entre outros significados, guarda o sentido de “cálculo”. De fato, na arte de escrever contos existe muito de perícia, de busca de rigor e precisão, de luta contra o excesso e o supérfluo. É claro, cada autor estabelece seus próprios objetivos, fixa suas próprias fronteiras e lida com suas próprias idéias a respeito do que escreve. Os contos de Machado de Assis, como “A cartomante”, ou “A mulher de preto”, não se parecem com um conto célebre do argentino Júlio Cortázar, como “O perseguidor”. Ambos se distanciam muito de uma fábula de Esopo, como “A raposa e as uvas”, dos relatos de Charles Perrault, como “O barba azul”, e também de qualquer uma das cem narrativas guardadas no Decamerão, de Boccaccio. Ainda assim, todos costumam ser chamados, genericamente, de contos.

Em resumo: cada escritor deve criar e fixar sua própria definição de conto. Pouco servem as explicações ligeiras, como a idéia de que o conto é, por regra, uma narrativa curta. O mais importante conto de Cortázar, “O perseguidor”, tem cerca de 70 páginas. Tem quase o mesmo tamanho, por exemplo, que O quieto animal da esquina, um dos romances (ou novelas) do gaúcho João Gilberto Noll. A via das medições e muito perigosa. Há sempre muito de arbitrário quando se diz que “O perseguidor” é um conto e O quieto animal da esquina, ao contrário, é um romance.

Em um livro famoso, Assim se escreve um conto, o escritor argentino Mempo Giardinelli, depois de admitir que o conto é “indefinível”, ainda assim arrisca algumas definições. Conto seria o relato de uma breve série de incidentes – assim como, no interior brasileiro, se contam “causos”, um sinônimo de conto. O conto seria uma história acabada e perfeita, como num círculo, do qual o supérfluo está excluído. Ou ainda: conto seria um relato em que o argumento, o assunto e os incidentes são fundamentais – e, nesse caso, os contos se interessariam apenas “pelo que está acontecendo”, e nada mais. São definições precárias, que podem ser desmentidas com facilidade. Muitos contos famosos, como o “William Wilson”, de Edgar Alan Poe, e “O Horla”, de Guy de Maupassant, atribuem tanto valor às atmosferas quanto aos eventos, o que desmente a primeira definição. Os contos do argentino Jorge Luis Borges, como os célebres “As Kenningar” e “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, são muito mais exercícios intelectuais do que relatos factuais, e desmentem a segunda. Um conto filosófico como “O ovo e a galinha”, que Clarice Lispector apresentou no I Congresso Mundial de Bruxaria, desmente a terceira. Talvez se possa pensar, a favor das definições, que elas são criadas justamente para serem desmentidas e mesmo traídas. Para servirem de baliza, de referência – como as faixas luminosas nas estradas escuras. Isso, contudo, não facilita as coisas para quem escreve. O conto continua a ser um problema que cada escritor precisa resolver a seu modo. Na verdade, cada conto oferece, secretamente, a sua própria definição de conto.

O que define o conto, se é que, depois do Modernismo ele ainda suporta definições, é, acreditam alguns, a tendência à concentração. Podemos pensar nos relatos contidos nasMil e uma noites, o grande clássico da literatura árabe, reunião, na verdade, de 1001 contos. Cada uma das histórias se basta. Nelas se concentram um número limitado de personagens, se desenrolam um pequeno número de eventos, em geral reunidos no mesmo lugar e no mesmo tempo. Há, no conto, uma tendência à forte economia de recursos. A convergência dos vários elementos em jogo para um mesmo foco, de alguma forma muito precária, ajuda a definir o conto. Os magníficos contos do escocês Robert Louis Stevenson, como “O ladrão de cadáveres”, viriam confirmar isso.

Mas, como sustentar essa idéia a respeito do conto diante dos densos e delicados relatos de Gustave Flaubert, como o célebre “Uma alma simples”? Narrativas como “O capote” e “O nariz”, do russo Nicolai Gogol, devem receber a definição de contos? E, se não são contos, o que são? Pense-se em Clarice Lispector. Relatos breves como “Feliz aniversário”, ou “O crime do professor de matemática” suportam, sem grandes dificuldades, a definição de conto. Mas, nos livros de contos de Clarice, encontramos narrativas complexas e misteriosas, como “O ovo e a galinha” e “O relatório da coisa”. Serão mesmo contos, só porque estão guardadas em livros de contos? Há quem afirme que alguns dos relatos breves de Clarice, como “O relatório da coisa”, sequer fazem parte da literatura – pertenceriam, mais, à filosofia. Clarice se irritava com essas tentativas de classificação. Sabia que classificações costumam servir, quase sempre, como mordaças – ou como muletas para esconder a preguiça dos classificadores. O argentino Adolfo Bioy Casares, ainda que sempre fascinado pela força das histórias, ajudou a explodir a idéia do conto, emprestando a seus relatos breves uma complexidade que, em geral, só se espera dos romances. Contos como “A serva alheia” serão mesmo contos? Se acreditarmos piamente no que dizem os manuais de literatura, talvez não seja possível afirmar isso. Contudo, é claro que são contos, e não só isso, mas alguns dos mais magníficos contos já escritos.

Há ainda a idéia corrente de que o conto ou guarda um mistério – como nos “contos de mistério” e nos “contos de terror” – ou bem guarda um enigma. No primeiro caso, do mistério, há sempre uma expectativa de solução, de desvendamento, de fecho esclarecedor. Nesse sentido, e apesar da extensão, os romances policiais da inglesa Agatha Christie seriam, na verdade, contos. No segundo caso, do enigma, privilegiam-se em geral as atmosferas, as reflexões psicológicas, as meditações. Escritores fabulosos como Anton Tchekhov, o autor de “A dama e o cachorrinho”, radicalizaram essa opção pelo realismo intimista. “Onde está marcada a cruz”, a peça do norte-americano Eugene O’Neill, por exemplo, cumpre com muito mais rigor os preceitos clássicos dos contos do que grande parte das narrativas que ostentam esse nome. São clichês, forças do hábito, comodidades que, no fim, examinam o conto só na superfície, mais em busca das semelhanças, do que em busca daquilo que realmente importa: sua marca original. Não custa lembrar que a literatura é, antes de tudo, o terreno do particular – e os contos, é claro, não ficam de fora disso.

Hoje muitos escritores praticam o conto mais realista, que se aproxima da fotografia, do cinema e da reportagem. Contos de João Antonio, como os reunidos em O guardador, ouÔ, Copacabana, são contos ou reportagens? Ao escrevê-los, ele praticava literatura, ou jornalismo? O que dizer das magníficas crônicas de Rubem Braga, ou daquelas assinadas por Paulo Mendes Campos e Carlinhos Oliveira? Como fixar, com segurança, a fronteira entre a crônica e o conto? A mesma dúvida surge com a leitura das narrativas curtas de Ernest Hemingway. O velho e o mar, seu romance mais famoso, não é um conto – mas guarda mais rigor e tensão que a maioria de seus contos. O norte-americano Truman Capote chegava a dizer que escrevia “romances de não-ficção”. Ironizava, assim, com a mania de classificar. Capote sempre surpreendeu, e até chocou, com a liberdade interior que se concedia.

Em vez de ajudar, clichês sempre atrapalham. Dão a impressão ligeira de que estabelecem uma ordem, uma classificação, um cânone. Mas, quase sempre, descartam aquilo que os contos (e a literatura) têm de melhor: a capacidade de perturbar e de surpreender. Então, quando você se sentar para escrever um conto, esqueça desses padrões, dessas classificações, e tente estabelecer, com firmeza e convicção, seu próprio rumo. Cada escritor cria sua tradição, cria seu passado, cria suas influências e cria, também, suas definições. Escrever é, antes de tudo, buscar a voz interior, isto é, perseguir aquela marca que distingue um escritor de todos os outros. E isso não se aprende, não se ensina, isso se encontra. Mais importante que saber o que fazer é saber o que não fazer. Daí a importância de afastar-se, antes de tudo, daquelas facilidades – repetições, fórmulas prontas, definições – que amordaçam e bloqueiam o caminho do escritor. É o trabalho mais difícil e de aparência menos nobre: saber o que um escritor não é, saber o que um escritor não quer. Porque cada escritor é, sempre, um escritor diferente. O que o define e legitima é a voz inconfundível. Uma página de Guimarães Rosa, ou de Clarice Lispector, ou de José Saramago, lançada ao vento, será sempre inconfundível. Ou o escritor busca essa marca, ou não merece ser chamado de escritor.

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A partir da próxima semana, começamos a trabalhar casos específicos. Para facilitar a vida dos alunos, tomarei por base os contos reunidos em Os cem melhores contos brasileiros, antologia organizada pelo crítico e poeta Ítalo Moriconi, para a editora Objetiva. Mas os contos citados ao longo desta primeira aula podem ser tomados, também, como pontos de partida para a leitura e a reflexão.

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Exercício da Aula n.º 01:

http://www.portalliteral.com.br/download_exercicio/

6217_of_contos.exercicio_1.doc

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Uma resposta para “Oficina de Contos – José Castello (Portal Literal)

  1. No livro SAYONARA, GÂNGSTERS há uma definição embebida em crise do que seria Poesia e do porquê ainda existir a necessidade de ensiná-la nas escolas… Como um espontaneísta demente, tenho algumas restrições a este tipo de escola, mas nem de longe ousarei dizer que não apreciei o esquema dos exercícios (muito bons mesmo!) ou este texto brilhante, em que alguns questionamentos “limítrofes” que já me tomaram de assalto várias vezes vêem à tona numa preciosa voz alheia… Estou lendo agora O VELHO E O MAR. É curto, é conciso, é confinado a um espaço imenso (o mar), mas recortado em sua utilidade pragmática (a pesca de um dado peixe, a reconquista de um orgulho vencido), mas é tão psicologicamente rico, como se poderia esperar do Ernest Hemingway, que muitos hesitam em classificá-lo como um conto. Quando estive ao lado do Edgard Allan Poe e do Guy de Maupassant, citados no texto, senti interrogações deveras semelhantes. Bonita postagem.

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