Mais do mesmo

José Reinaldo do Nascimento Filho

Ademir estava sentado em frente à janela do apartamento quando foi surpreendido por repetidas batidas na porta da frente. Instintivamente direcionou a cabeça em direção à porta, e murmurou: Isabel. Não sabia ele qual o sentimento mais apropriado para expressar naquela situação. Noite após noite, desde a morte da sua esposa, vivia como que anestesiado sem querer pensar mais em nada. Não obstante ele haver lançado um véu impassível sobre os seus sentimentos, sabia ele que havia chegado o dia de cumprir  a promessa feita à filha.

Há pouco mais de três anos Isabel tentava, dia após dia, convencer o pai a sair do apartamento no intuito de dar um simples passeio. Foram muitas as tentativas frustradas para que ela alcançasse o seu objetivo.

Após alguns minutos de batidas incessantes, Ademir levantou-se e, tateando as paredes, chegou até a porta.

Pensei que não viesse abrir, pai. Que demora!

Eu estava… no banheiro, filha. Estava no banheiro.

Com a janela aberta?! Eu já não falei uma centena de vezes que no estado que o senhor se encontra, uma janela aberta é muito perigosa?

Se você não sabe: eu sou cego, não morto.

Eu sou cego, não morto! Pelo amor de Deus pai, não aja como uma criança. Bem, esqueça. E então, está pronto?

Eu nasci pronto, não é isso que falam por aí?

Gostei de ouvir. Então vamos.

Vamos.

***

Chegamos pai. Viu que não é tão ruim assim?

Faz tanto tempo filha que não piso os meus pés aqui. As coisas devem estar tão diferentes.

Que nada. Tudo igual, só que numa roupagem diferente: os mesmos surfistas; os mesmos banhistas; os mesmos biquininhos; os…

“Biquininhos”?! Por favor, não me tente.

Olha que velho safado! É, acho que “biquininhos”, definitivamente, não existiam na sua época. Mas vamos lá. Comece colocando o pé direito. Isso, isso, muito bom. Não se preocupe, eu não vou soltá-lo. E então, como está se sentindo?

Estranho. Parece que estou pisando em… Não sei. Isso é lixo?

Não comece a reclamar, pai. São apenas algumas latinhas e sacos plásticos que pessoas mal educadas largaram pelo caminho.

Certo, vamos. Mas antes gostaria de saber se estou em trajes apropriados para o passeio.

Ah, não tenha dúvidas! Eu mesma os comprei: leves e coloridos como pede a ocasião. E serve tanto para agora, como para o espetáculo de hoje à noite.

Quem vai cantar mesmo?

Claudinha Leite. Ou melhor, CLAUDINHA LEITE, THE BEST OF THE SUMMERS!!!

Eu devo estar meio caduco mesmo para vir com você a essa festa. Olha para mim, filha, estou… velho. Essas coisas não foram feitas para mim.

Velho?! O senhor está lindo até demais! Ah, vai. Cadê aquela história de que “velho é molambo”? “Sou cego, não morto”? Vamos lá pai, Happy Birthday!

Desculpa, desculpa minha querida. Mas é muito difícil voltar aqui depois de tanto tempo. Não é a mesma coisa. Por incrível que pareça as coisas agora parecem estar mais complicadas para mim. Voltar aqui sem conseguir… Qual a graça? É a mesma coisa que entrar em uma biblioteca com um videogame quebrado.

Não entendi.

Perdão, perdão! Quer saber, esquece. Hoje deveria ser um dia feliz para nós dois, e eu fico aqui só lamentando… Perdoe-me, está bem? Perdoe-me. Não vai acontecer novamente.

Relaxe pai, eu compreen… Tento compreender como o senhor está se sentindo. E tem mais,…

Você sabia que Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, e Alberto Ribeiro compuseram, em 1945, uma música especialmente para isso tudo aqui?

Princesinha do Mar. Eu conheço a música, óbvio; mas confesso que não estava lembrada dos compositores.

Se quiser posso cantar para você.

Mas é claro que pode. Será um prazer ouvi-lo cantar.

Pois então… Ela começa assim: Existem praias tão lindas cheias de luz; Nenhuma tem o encanto que tu possuis; Tuas… lá, lá, lá…; Teu… lá, lá, lá; Tuas sereias; Sempre sorrindo…

Uma ajudinha, moça, que não como faz dois dias.

Pelas manhãs tu és a vida a cantar; E, à tardinha…; Deixa sempre uma saudade na gente…

Pai, pai, só um minutinho. O que você quer guri?

Vai um brilho?

Quem é minha filha? É um engraxate?

É pai. Desculpa, mas se você não viu, nós estamos sem calçados para engraxar.

Ele quer uma moeda, filha. Dê uns trocados para o garoto que ele vai embora.

Então deixa ver aqui na bolsa… Toma garoto: 75 centavos.

Obrigado moça. Deus abençoe os dois.

Ele já foi?

Já. E vai tarde se quer saber. São todos uns ladrõezinhos, acho. A prefeitura deveria fazer alguma coisa a respeito. Ficam por aí “esmolando” só para poder usar drogas, ou então para encher o rabo com cachaça. Desculpa as palavras pai, mas é a pura verdade.

Verdade, Isabel? Você agora tem a verdade? É assim que você os vê, filha?

É, é assim que eu os vejo. Por quê?

A senhorita já passou por alguma necessidade? Você sabe o que é dar duro todos os dias? Carregar, em vez de livros, como aqueles que eu comprei para você com tanto esforço, uma caixa de madeira nas costas? Ou quem sabe, cobiçar os “pisantes” das pessoas, uma vez que você sabe que nunca terá um daqueles nem nos seus melhores sonhos? Faça isso não minha querida. Você não sabe pelo que ele passou, ou passa todos os dias para sobreviver. Realmente eu não queria ter que dizer isso, mas, sei lá, posso não estar enxergando, no entanto percebo que as coisas não mudaram por aqui. Você, definitivamente, não conhece nada sobre o seu pai. Vamos para casa pelo amor de Deus!

Mas pai, o senhor prometeu! Vai quebrar a promessa só por que eu disse uma estupidez dessas?!

Claudia Leite ao vivo ou num DVD, para um cego, não faz tanta diferença assim. Vamos para casa, filha.

Isabel, muitíssimo desapontada, e sem entender o porquê daquela reação, pôs lentamente a mão sobre os ombros do pai e rompeu em prantos. Vamos para casa, pai, murmurou ela.


Anúncios

Uma resposta para “Mais do mesmo

  1. (risos)

    O mundo está se acabando, por dentro e por fora.

    Cláudia Leitte até que é bonita, mas cantando… (sic)

    Sobre o teu modo de escrever de forma denuncista, sempre achei que tu meio que te deslumbras pelas acusações mais óbvias, mas a inclusão da canção antiga foi uma boa sacada. Ao menos neste ponto, eu encontrei alguma identificação (risos)

    E, na moral, engraxate na beira da praia dá nos nervos! (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk)

    WPC>

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s