Oficina de Contos – José Castello – Segunda Aula

Disponível em:

http://portalliteral.com.br/oficina/oficina-de-contos


José Castello analisa três contos de Machado de Assis e uma conversa com Bernardo Carvalho, além de oferecer preciosas dicas baseadas na experiência de Julio Cortázar, Nicolai Gogol e Clarice Lispector. O mestre também propõe um ‘exercício de duplicação’.
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O escritor argentino Ricardo Piglia costuma dizer que um conto relata sempre uma história, enquanto na verdade conta outra. A idéia é incorporada por Bernardo Carvalho em seu romance mais recente, O sol se põe em São Paulo quando, logo no início do capítulo 3, seu narrador reflete: “A literatura é o que não se vê. A literatura se engana. Enquanto os escritores escrevem, as histórias acontecem em outro lugar”.

As idéias de Piglia e de Bernardo ajudam a pensar o caráter duplicado e secreto do conto. Narrativas curtas, compactas, com grande economia de personagens e de acontecimentos, os contos costumam ser tomados, erradamente, como “ficções simples”. Como se fossem, apenas, esboços, ou reduções de romances potenciais. Este engano leva muitos leitores, e também – o que é mais grave – escritores, a desprezar o conto, ou a tratá-lo como uma aventura literária menor.

É através da aparente simplicidade que o conto, em geral, ilude, arrasta e prende o leitor. O conto é, podemos pensar grosseiramente, a arte do mínimo. Com um mínimo de recursos, de elementos, de personagens e de linhas, ele narra uma falsa pequena história para, através dela, abrir um abismo aos pés do leitor. Para testar essa hipótese (que, é claro, muitos contos extraordinários desmentem, pois escrever é desviar-se e desmentir), parto, hoje, de três contos, estupendos contos, de Machado de Assis: “A cartomante”, “O espelho” e “Pai contra mãe”.

Um leitor apressado dirá que “A cartomante” é a história clássica de um triângulo amoroso, no caso entre Rita, Vilela e Camilo. Não deixa de ser verdade – mas reduzir o conto de Machado a isso é menosprezar o que ele tem de mais importante. Machado explora em seu conto, sim, clássicos aspectos psicológicos: a ansiedade de Camilo, as dúvidas e temores de Vilela (que o escritor levou ao extremo, no romance, em Dom Casmurro, com o triângulo Bentinho, Escobar e Capitu), o amor escorregadio de Rita.

Mais que esses eventos psicológicos, contudo, o que está em jogo em “A cartomante” é a relação do homem com o desconhecido, que se sintetiza na figura da adivinha. A possibilidade (ou sonho) de antevisão do futuro, as superstições a respeito das intenções ocultas que regem as coisas, o poder (ou a impotência) humana para manipular o destino, a presença secreta do mistério nas miudezas da vida cotidiana são temas que, numa corrente paralela, sustentam secretamente o relato.

Deparamos, nesse conto, com a grandeza de Machado: como quem não quer nada, narrando histórias comuns e até banais, com personagens que se deixam envolver pelo previsível e que se doam ingenuamente aos apelos e seduções mais vulgares, ele põe seu leitor frente a frente com algumas das mais difíceis questões da existência humana. É no particular, e é ao encontrar uma maneira inconfundível de tratar esse particular, que Machado de Assis se aproxima das forças secretas que animam nossa vida. Forças que ele esconde no cenário banal do consultório de uma cartomante, um lugar em que se decide, na verdade, não o destino humano, mas nossa impotência diante desse destino.

Machado faz algo muito parecido, e talvez ainda mais atordoante, em “O espelho”. O escritor deu a seu conto um subtítulo: “Esboço de uma nova teoria da alma humana”. Trata-se do relato de uma história vivida por João, um homem de 45 anos, um “capitalista inteligente” que descobriu que não temos só uma alma, a interior, mas, na verdade, temos duas: temos também uma alma exterior. “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”, ele relata a quatro companheiros que o ouvem, à luz de velas, em uma casa de Santa Tereza, no Rio.

O conto é o relato do modo doloroso como fez essa descoberta, duas décadas antes, quando era um rapaz de 25 anos. Para orgulho da família, mas também para desconfiança dos amigos, acabara de ser nomeado alferes da guarda nacional. Emocionada, uma tia viúva, moradora em um sítio solitário, o convida para passar alguns dias com ela. Mas não é o sobrinho que recebe, e sim o alferes. Em vez de chamá-lo de Joãozinho, como sempre fez, só o chama de “o senhor alferes”. Enche-o de gentilezas. Entrega-lhe, ainda, um presente, um antigo espelho, trazido ao Brasil pela corte de D. João VI, que dependura na parede de seu quarto de hóspede.

O rapaz se envaidece com tantas atenções. A tia exige, em contrapartida, que ele ande sempre com sua roupa de alferes. Atende ao pedido, mas logo depois compreende que, com tudo isso, “o alferes eliminou o homem”. Ele relata: “No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes”. O alferes era sua alma exterior – que podia se encarnar, também, em par de botas, uma ópera, ou um chocalho de criança, pois a alma exterior, diz, pode exibir qualquer aparência, pode ser ligar a qualquer coisa. Essa alma exterior havia aniquilado sua alma interior e era agora tudo o que lhe restava.

Súbito, a tia é obrigada a partir para amparar uma filha enferma. Os escravos, logo em seguida, abandonam a casa. O alferes fica sozinho no sítio. É tomado, então, por um insuportável vazio. Um dia, em plena crise, resolve se observar no espelho: tudo o que vê é uma imagem turva, difusa, em franca decomposição, do homem que já foi, ou que julgava ainda ser. Essa imagem só recobra a nitidez quando lhe ocorre vestir a farda de alferes. Entende, então, que tudo o que lhe sobrou é a alma exterior, incorporada naquela vestimenta militar. A alma interior, que se refere a seus aspectos humanos, foi por ela devorada.

“O espelho” é um conto filosófico. A idéia das duas almas, que a princípio parece absurda, mostra-se hoje, um século depois, incrivelmente atual. Vivemos em um mundo de duplicações, de clones e de virtualidade. Um mundo em que as pessoas costumam ser reduzidas a títulos, a contas correntes, a imagens na mídia, a currículos, a crachás. A “alma exterior” dá as cartas num mundo que se define pela superfície e pela velocidade e que tem horror à profundidade e à lentidão. Pensando assim, um século depois, espanta a sensibilidade de Machado. Sensibilidade que, se nos deixarmos levar pela figura sedutora da cartomante, se aproxima da premonição.

Mas essa duplicação narrativa guarda um segundo aspecto que, de modo sutil, mas insistente, está presente em toda a literatura de Machado. A segunda alma – como a da mulher que só pensava nas estações de ópera lírica e, depois, passa a só pensar nos bailes da rua do Ouvidor – fala das obsessões. Obsessões, idéias fixas, manias, paixões. Fala, portanto, de modo muito sutil e secreto, da própria literatura, que é, sempre, ao menos quando se escreve para valer, efeito de paixão. Eis aí a matéria prima dos escritores: a obsessão em escrever. Contra tudo, contra todos e apesar de tudo, continuar a escrever. Falei de Bernardo Carvalho: recentemente o ouvi afirmar que a literatura é, para ele, a coisa mais importante, “mais importante que tudo”. Escritores radicais – penso em João Gilberto Noll, para ficar em outro brilhante escritor contemporâneo – adotam a literatura como uma espécie de sacerdócio. Uma coisa que está acima de todas as outras. Na mesma conversa, ouvi Bernardo dizer ainda: “A literatura é a minha religião”. Apontava assim a “segunda alma” de que Machado fala em seu conto, alma que existe mesmo para aqueles que, como Bernardo, se declaram ateus – ou seja, não acreditam na existência da primeira.

Escritores costumam se deter longamente na reflexão sobre esse “massacre”. Algo que aparentemente vem de fora, a literatura (mas vem mesmo?), o invade e ocupa um lugar privilegiado em seu interior. No entanto – e eis a lição que Machado nos dá em “O espelho” – a literatura não é filosofia, nem é teoria literária, ou ensaio sociológico. Literatura é literatura e apenas isso – e tudo isso. Machado trabalha idéias, idéias difíceis, densas, imprecisas, perigosas, usando exclusivamente o instrumento delicado da narração. Com isso, não fecha, não “soluciona”, não bloqueia o pensamento, não conclui; ao contrário, abre novos caminhos, descerra novas perspectivas e nos oferece novas maneiras de pensar e de ver. Dizia João Cabral: a literatura “dá a ver”.

O argentino Julio Cortázar, mestre do conto – de quem já falei na oficina anterior – rememorou, um dia, em entrevista a Ernesto Bermejo, sua tendência para criar personagens super-intelectuais, sujeitos “que especulassem com muita inteligência sobre certos problemas metafísicos”. Só conseguiu vencer esse vício, que bloqueava sua escrita, quando decidiu “seguir o caminho inverso, construir um personagem assimilável ao homem da rua”. É a arte de Nicolai Gogol em seu O capote. É o que faz Robert Musil mesmo em um romance monumental como O homem sem qualidades. É o que faz Graciliano Ramos ao criar Luis da Silva, o atordoado e frágil protagonista de Angústia. É o que Cortázar faz em seus magníficos contos.

Penso no terceiro conto de Machado que propus a vocês: “Pai contra mãe”. Ele começa em tom circunspeto, distanciado, quase professoral, de ensaio, ou estudo histórico. Os cinco primeiros parágrafos mais parecem uma lição de história social, que rememora os ofícios e aparelhos ligados à antiga escravidão, entre eles o ofício de perseguidor de escravos fujões. Só no sexto parágrafo Machado, enfim, nos introduz na história de Cândido Neves, de seu amor por Clara e de suas imensas dificuldades com o trabalho e a sobrevivência. Impasses que tenta resolver adotando o ofício de perseguidor de escravos em fuga.

Clara tem uma tia, Mônica, mulher austera que, depois de criá-la, vigia de perto seu amor por Cândido. A vida do casal é dura, o ofício de caçador de escravos é instável e Clara tem que se desdobrar cosendo para fora. Engravida, tem o bebê, mas o casal é despejado dias depois. A situação se agrava e a tia, pensando no recém nascido, convence-os a entregar o bebê à Roda dos enjeitados – instituição que abriga crianças desamparadas.

Cândido se recusa, mas, enfim, pressionado pela miséria, aceita os argumentos da tia. Pega o bebê, mas, no caminho, cruza na rua com uma escrava fujona em troca de quem se promete um excelente dinheiro. Deixa a criança numa farmácia, sai atrás da mulher e consegue pegá-la; ela se desdobra em lamúrias e pede piedade não por ela, mas pela criança que carrega na barriga. Cheio de fúria, e mesmo assim, Cândido ignora seus apelos e a entrega aos seus donos. Na luta para fugir, ela aborta – e o filho morto salva o filho de Cândido.

Na aparência, Machado escreveu um relato social, que aborda a miséria e o desespero, relato que vem adornado por algumas pinceladas de análise dos costumes. Mas será só isso? “Pai contra mãe” trata, mais que isso, da divisão em que todo ser humano se funda, abismo sobre o qual todos existimos. Contudo, em vez de teorizar, ou mesmo de construir teorias fantasiosas como em “O espelho”, Machado aferra-se unicamente aos fatos, e apenas a eles, para escrever uma história ela também, afinal, comum. Que, no entanto, carrega em seu interior (como a escrava grávida) questões e impasses que vão muito além dela. A cisão interior do homem, sua animalidade, o modo como o desespero pode massacrar alguém, a aflição extrema que nos leva aos atos mais repulsivos são questões que latejam no interior de “Pai contra mãe”. E que, de certa forma, ultrapassam a história que lemos ou que, pelo menos, a duplicam.

Para falar de uma coisa, Machado fala de outra. Para pensar sobre uma coisa, nos leva a pensar – e a “ver” – outra. É nas entrelinhas, como dizia Clarice Lispector, que a literatura se escreve. Jogamos a isca – a narrativa literal. Mas, quando essa isca fisga o que realmente interessa, dela já não podemos nos livrar, porque isca e coisa se misturaram. Essa mistura entre o que se diz e o que não se diz, o que se pensa e o que não se pensa, o que se escreve e o que não se escreve é, enfim, a literatura.

Exercício da Aula 2:

EXERCÍCIO DE DUPLICAÇÃO

Escreva um conto, de no máximo 5 mil caracteres com espaços, que relate uma história enquanto outra, de modo submerso mas ainda assim visível, se desenrola simultaneamente.

Por exemplo: o conto relata os acontecimentos em um jantar formal enquanto, na cozinha, a história mais importante acontece. Mas tudo o que o leitor tem é o relato do jantar, e a segunda história, a secreta, a ele se revela só através de pequenos sinais, que dele exigem um esforço de decifração.

Outro exemplo: o conto relata uma aula de inglês. Ocorre que o narrador não está dentro da sala de aula, mas fora dela. Escondido, por exemplo, atrás da porta de entrada, ou de uma janela. Contudo, mais importante que a aula é o que acontece a esse narrador. Acontecimentos de que o leitor, no entanto, já que tem sua “visão” restrita à sala de aula, recebe apenas pequenos sinais, muitas vezes desconexos, ou mesmo contraditórios.

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