Uma experiência nova

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Os olhos circundam tudo, admirados. Agora que chegou, não entende como não havia notado tudo aquilo, que parece ter sido feito só para ser visto. Parado, os pés descalços, olha o exato ponto em que as águas se encontram com o firmamento. Como se fosse a criação do mundo. No vai-e-vem rítmico os olhos vão sendo embalados, enfeitiçados e surge a vontade de fazer parte daquela canção tão alegre.

Um piscar de olhos e já contempla a obra humana. Torres e mais torres habitadas por gente feliz. Arrepia-se. É muita beleza. Luxo. Há muito dinheiro ali, dentro daquelas paredes. Um giro rápido sobre seus pés. Pessoas indo e vindo. Pessoas paradas, queimando o corpo. Chama a atenção aquelas tão pouco vestidas, uma tentação. Poderia passar horas contemplando-as, mas não é o momento. Necessário manter o foco.

Olha para o alto, fecha forçosamente os olhos. Olha para baixo, e em seguida busca o ponto de encontro, o nome da lanchonete famosa. Está longe, precisa avançar.

Enquanto anda, vasculha cada espaço, em busca de algum momento feliz que lhe possa pertencer. Aqui uma menina sorri, inocente, mãos dadas com o pai. Acolá alguém dorme tranquilo enquanto expõe a pele aos perigos da radiação solar. Ele aprendeu isso na televisão. Há gente sentada, bebendo, comendo, gargalhando. Gente de pé, praticando alguma atividade esportiva. Só não parece haver lugar para ele. Procura onde ele poderia se encaixar, mas não encontra. Sua presença ali parece pesar, atrapalhar o ambiente, quebrar alguma harmonia mágica. Mas ele não entende dessas coisas. Só sente uma dor fina e inquebrantável no peito. Daquelas dores que fazem querer morrer.

Enxuga os olhos, não pode ser visto chorando.

Até chegar àquele ponto, andou bastante. A maior dor é não saber se deve se arrepender ou não. Mas como saber? Como saber se resistiria a tudo?

Não posso me dar a esses luxos de tanto pensar, pensa. E, incontinenti, seus lábios se contraem. Não sorria há tempos. Não lembrava que acabava tão rápido.

Da última vez ainda estava em casa (ao menos é desse sorriso que sempre lembra). Contava alguma piada à mãe. Algo infantil sobre como entreter uma loira, algo que havia aprendido na escola. Sua mãe não entendera a piada e ele explicava. Sorria sentado à mesa, comendo um último pedaço de carne. Sorria ainda quando ele chegou, o hálito pesado, os passos graves, o olhar furioso, tentando esconder nessa fúria toda a vergonha por ser tão mau.

E depois…

Depois não se lembrava de ter sorrido até aquele instante.

No ponto de encontro, descobre que tem que esperar. E esperar é algo que ele desaprendeu também, neste tempo de aventura. Sabia esperar a sopa que sua mãe fazia, a nota da prova, pra saber se havia ido bem ou não, aquela menina – qual era mesmo o nome? – passar em frente à sua sala duas vezes ao dia. Vê-la era tudo que ele queria naquele tempo, já que não tinha coragem para mais nada. Chegava mais cedo, sentava na cadeira mais próxima à porta. Todos achavam que era para sair mais cedo quando a sirene tocasse. Como se enganavam. Permaneceria ali mesmo depois, só para, por dois, três segundos, ver passar, bem perto, a única princesa que conhecera até então.

Mas isso passou, e esperar se tornou difícil. Como esperar a fome passar sem comida? Como esperar que lhe dessem carona, com aqueles trajes? Como esperar que o dono da banca de frutas se virasse se aquelas bananas gritavam seu nome, pediam para ser levadas? Tudo precisava ser instantâneo, porque não havia perspectiva. Não sabia como seria dali a uma hora, mas somente o que precisava naquele exato momento.

Olhou o chão, pensou em sentar. Mas temeu alguma pancada de repreensão e ficou de pé. Ele era cruel, como todos que conhecera desde sua saída. Era cruel como seu pai. Com o tempo, quem sabe, pensava, ele acaba como meu pai. Por enquanto, contudo, precisava dele. Aprenderia o necessário o mais rápido possível e depois andaria com as próprias pernas. Quem sabe não acharia sorte grande? Baixou a cabeça, pois não era mais criança para pensar essas maluquices.

Poucos minutos depois ele chega e a conversa é rápida. Poucas instruções. Ele quer avaliá-lo.

Engole a saliva duas, três vezes, para ver se junto, vai o orgulho, que insiste em avermelhar sua face.

Caminha incerto, as pernas trêmulas. Espera o tempo certo. Ao menos é só um minuto. Escolhe o primeiro alvo. A aproximação é dolorosa, e traz à lembrança os pratos fartos que desperdiçava em casa, com a desculpa de que a fome acabara.

Aqui a fome não acaba, pensa.

Aproxima a mão do vidro. Balbucia, quase sucumbindo ao choro:

– Uma ajudinha, moça, que não como faz dois dias.

2 Respostas para “Uma experiência nova

  1. O final é PERFEITO (em letras maiúsculas mesmo!)

    O que mais me encantou neste desfecho (ousaria dizer surpreendente?) é como (não) fomos preparados para o seu advento através da exuberante descrição de situações e memórias que o antecede…

    Sempre fui habituado à apreciação deveras passional deste estilo descritivo, gosto de descrições, de enumerações de anseios, prazeres e desejos: na minha ignorância “julgamental” sobre a vida, confundo-me várias vezes acerca do quão importante é enumerar aquilo que cremos que seja importante para nós… Assim mesmo como escrevi: pleonasticamente, aliterativamente…

    Uma de minhas crises mais recorrentes sobre o que gosto ou deixo de gostar é marcada por esta dicotomia quantidade X qualidade. Como bem sabes (Reinaldo já deve ter dito), tenho o hábito/vício de ver 2 filmes por dia, em média, mas… o que são “dois” nesta conta? Às vezes, vejo um curta-metragem que me deixa tão perplexo como se tivesse visto três longas-metragens… A qualidade se sobressai, para o melhor e para o pior! E este final, ah, este final…

    Quando li o título, pensei que se tratasse do seu tema moral predileto, do arrependimento, da mudança de perspectiva… E terminou sendo “uma experiência nova” acerca da categorização temática que atribuí a ti…

    No plano pessoal, aliás, o texto como um todo me fez lembrar dum patético arremedo de pseudo-namoro adolescente, em que uma Testemunha de Jeová, à época mui apaixonada por mim, disse-me numa carta definitiva que “o que importa nesta vida não é ter aquilo que desejamos, mas sim desejar aquilo que temos”. É um chavão, eu sei, mas algo nesta tua escrita me transportou diretamente para a descarga intensa de emoção que tocou tanto a minha “pseudo-namorada” juvenil ao escrever a carta quanto a mim mesmo, sempre que a releio (obviamente, a deixei guardada, respeito paixões alheias!)… Neste sentido, te digo OBRIGADO. Sei que faço muito isso (agradecer), mas é sincero, visse?

    WPC>

  2. Pingback: Melhores Momentos – 2011 « Catálise Crítica

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