O homem, a mulher e o carneiro

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Nessa madrugada eu sonhei com o meu pai. No sonho, ele veio a mim como um fantasma. Estava bonito, branco e resplandecente. Perguntei a ele qual era o seu desejo, contudo não obtive resposta. Às vezes ele aparece e nós conversamos; outras, como agora, questiono-o sobre várias coisas, todavia ele persiste no silêncio.

“Preciso de ajuda, pai”.

Eu sou um bom homem. Alguém disposto a realizar uma missão dada por Deus: ser um bom marido; um bom pai. Mas é justamente quando começo a pensar nisso, que me vem aquela estranha sensação de fracasso. E mesmo depois de trinta e cinco anos morando sob o mesmo teto, fazendo todo o possível por eles, ainda me sinto como se estivesse exatamente no mesmo lugar, como dois ponteiros eternamente parados marcando sempre a metade de alguma coisa – um velho relógio de pêndulo que há muito perdeu o ritmo e o rumo, eis como me sinto agora.

“Preciso de ajuda, pai”.

Levante-se homem. Pense menos, trabalhe mais. Espairecer as vistas é do que você está precisando. Comece tirando essas remelas dos olhos, e pare de tanto abrir a boca; incline-se para a direita sem fazer ruído e pegue as suas sandálias. Encontrou-as? Pois bem, calce-as antes que ela acorde. Saia da cama, e não deixe de esticar bem as juntas (pare de bocejar, eu já não falei?!). Agora caminhe em direção à porta (lembre-se do sinal da cruz para a Nossa Senhora Aparecida). Antes de atravessar a soleira, sonde o quarto para ver se você não se esqueceu de alguma coisa: com calma; isso aí, com parcimônia. Não deixe que ela lhe veja. Certifique-se que ela ainda esteja dormindo. Está? Então pode sair.

“Um café cairia bem”. Concordo, veja se tem algum na garrafa. Procurou, mas não encontrou, não foi? “Para que serve diabo de mulher se não for para fazer o café?!” Está com medo de falar José? Está com medinho? Fale essa porra como homem!

– Para que serve diabo de mulher se não para fazer o diabo do café!?

Esquece, você acabou de acordá-la. Que horas são mesmo? Quatro e meia? “Está na hora de levar os carneiros para o pasto”. Tem razão, vá.

– Para onde está indo tão cedo, Zé?

– Levar os ‘bicho’ no pasto.

Muito bem, curto e grosso! O seu pai não poderia fazer melhor. Deixe-a resmungando e siga o seu caminho. Vire-se e saia de casa. Caminhe em direção ao curral. Não precisa dizer mais nada.

– Volto ‘nestante’.

– Vou fazer cuscuz com ovos. Preciso esperar por você?

Nunca senti tanta dificuldade para responder uma pergunta tão simples. Senti-me um tanto abestalhado, sem saber o que dizer. E percebi que uma palavra errada naquele momento poderia ser suficiente para terminar com os trinta e cinco anos de união. Confuso, desorientado, as palavras pareciam querer antecipar-se à minha vontade. E foi sentindo um suor frio escorrer pelo rosto, que respondi:

– Seria bom, ‘né’?

Não é dessa forma que ela vai lhe respeitar. Não demonstre fraqueza. Seja firme. Está querendo comer no mesmo cocho? Parece que após tantos anos de casado você ainda não aprendeu! Pois bem, quer saber? Esqueça. Os carneiros já estão berrando (mas antes de seguir o caminho seria bom ir à privada, não acha? Ou vai fazer no mato mesmo?). “Deixa pra lá, eu faço no mato”.

– Bee! Meh, Meh, Meh! Bee, Bee, Beee!

– Pare de berrar suas ‘porra’! Num tá vendo que o cocho ‘tá’ cheio?

– Bee! Meh, Meh, Meh! Bee, Bee, Beee!

Eu acho que elas não vão calar.

– Pare de berrar ‘caraio’! Pessste dos infernos, fiquem ‘quetas’ porra!

Pare você de ficar gritando, e abra logo esse colchete. “Por falar nisso, está na hora de consertá-lo. Também se não for eu, ninguém mais faz”. Você é único, conforme-se.

– Pise no meu pé novamente que eu arranco a sua cabeça!

Tenha paciência com os seus animaizinhos homem.

– Anda logo ‘caraio’, que eu ‘tô’ com pressa!

Comece a contar. Um, dois, três,… “Vinte e sete”. Estaria tudo certo se não fosse aquele ali com barriga d’agua. “Não tem remédio que dê jeito, já tentei de tudo. Faz uns quinze dias que essa porra ‘tá’ assim”. Por que não dá logo um fim nisso? “Estava pensando em ligar antes para um veterinário”. Leve-o até o pasto, e nesse ínterim você vai pensando no que fazer com ele.

E então, está pensando? Já estamos quase chegando…

Abra a porteira e deixe os animais entrarem. Deixe que se espalhem, mas não permita que o doente vá para muito longe. “Acho que vou ligar para o doutor mesmo”. Você está com o número? “Maria tem”. Vai voltar com esse bicho quase morrendo só para pedir um número idiota? “É menos uma criação”. É humilhante. “É minha mulher”. Não importa. Você estará pedindo do mesmo jeito. Você não cansa disso?

Naquele momento eu ainda não tinha notado, mas tinha acabado de conhecer o instante que ia me levar ao ponto final de um tempo: os ponteiros pareciam estar finalmente ajustados. Foi então que olhei para a minha mão direita e notei que carregava um pedaço de pau. Direcionei-me ao pequeno carneiro – ele estava a dez metros de mim, comendo alguns arbustos. O bicho olhou em minha direção, e esperou; e como se já soubesse o que lhe aguardava, deu princípio aos bramidos com bravatas e arremetidas.

-Verdade, é ser muito frouxo!

O pedaço de madeira seguiu uma trajetória precisa e foi direto na cabeça do carneiro. Ouvi um agudo gemido do animal. O bicho cambaleou, e caiu. Da sua boca entreaberta, saiu um pouco de sangue. Estuporado, ele ficou ali: atônito e trêmulo. Tudo parecia ter chegado ao fim, se não fosse uma súbita e irresistível vontade de bater mais uma vez no animal: foram sete pancadas no total. No final, sua cabeça estava totalmente aberta, e dela escorriam rios de sangue. Por fim, afastei-me do carneiro – para não sujar os pés de sangue -, e fui para casa.

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4 Respostas para “O homem, a mulher e o carneiro

  1. É o tipo de personagem (real) com o qual eu crio antipatia, mas, no plano narrativo, a gente aprende a entender os motivos e razões para ele ser como ele é… Por extensão, no plano real, a gente entende também… A arte ajudando o Humanismo!

    WPC>

  2. Gostei do conto. Bem escrito, um estilo interessantíssimo, repleto de significados. O objetivo do exercicio era contar uma história enquanto mostrava outra. Acho que voce foi bem sucedido. Arrisco um palpite em relação à história oculta, mas não estou certo dele. E acredito que isso seja um bom sinal…

  3. É um típico brasieiro influenciável, que deixa-se levar por aquilo que é dito por aquele(s) que considera, entretanto num momento decide tomar as decisões por si próprio. Um ótimo conto cheio de significados ocultos.

    Fox.

  4. Me identifiquei muito com o conto, fantasticamente o melhor que ja li no blog até hoje, para entende-lo não prescisei ler muitas vezes pois é bem claro o que se diz, mas todas as vezes em que “EU” estiver prescisando de auto-ajuda procurarei ler esse conto, pois a intensão do autor não sei qual foi mas pode crer as minhas ideologias mudaram completamente diante do “O homem, a mulher e o carneiro”.

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