Barulho interno

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Um homem dirige um automóvel preto. Ao seu lado, pensativa, uma mulher.
Esse silêncio já está durando tempo demais. Nada adianta eu vencer essa disputa inútil, chegar à minha casa, descer do carro e não ter mais a oportunidade de saber dele… Ele corre bastante. Essa pressa… Numa avenida movimentada dessas. Eu bem que podia estar ali, deitada, pegando um bronzeado. Mas vai faltar coragem para voltar aqui depois. De ônibus. Estou toda quebrada. Não dormi quase nada. Ele se mexe muito dormindo. E aquela cama não foi feita para dormir. Qual o nome dele mesmo? É um nome inventado… Rivaldo… Não. Rinaldo. Rinaldo. Isso é nome? Como eu o apresentaria? Esse é meu namorado, o Rinaldo. Rima pobre. Nome de nordestino. Ele parece nem se importar com o nome, com esse carrão automático, essas roupas caras, esses óculos Victor Hugo. Devem custar uma fortuna. E ele é bonito. Um gato, para ser sincera. Essa barba assim, por fazer, dá a ele um aspecto de macho, meio canalha. Só não gosto desse colar. Esse osso, ou o que quer que isso seja, é muito brega. Não, não vou perguntar nada.
Uma freada brusca interrompeu seus pensamentos. O motorista, após a parada, acelerou, baixou o vidro, xingou alguém.
Ele está nervoso. Tenso. Terá se arrependido? Não precisávamos ter dormido lá. Ele quem propôs. Melhor não perguntar nada agora. Mas esperar até quando? Mais um pouco e estou em casa. E vou ficar assim, sem conclusão, como uma pergunta filosófica qualquer. Ontem ele estava tão atencioso… Mas é assim mesmo, isso é evidente.
– Está mal-humorado? – A voz saiu trêmula, sem força, insegura, como se ela falasse pela primeira vez na vida.
Droga! Passo esse tempo todo para falar e pergunto uma besteira dessas? Se ele não estiver de mau humor, vai se perguntar o motivo dessa asneira que eu falei. Caso contrário, vai ficar ainda mais mal-humorado.
– Oi? – o homem virou levemente o rosto, sem olhar a jovem.
Olha isso. Ele não quer conversar mesmo. Estou a meio metro dele, falei até alto, é impossível ele não ter me ouvido. Esse “oi”, assim, indolente, meio chateado até, é para eu me tocar e ficar calada até chegarmos.
– Perguntei se você gosta de praia.
Uma pequena pausa. O homem olha ao redor (mas não para ela), como se só agora percebesse onde estava, como se avistasse aquela praia pela primeira vez em sua vida.
– Gosto. Só não gosto muito da areia e do sol. – e sorri, discretamente, de sua própria piada, para o para-brisa.
– Você é daqui do Rio mesmo?
– Não. Sou da Bahia. Passei num concurso público e moro aqui há dois anos.
– Eu faço Administração, estou no sétimo período.
– …
– Gosto mesmo é da área de publicidade. Tenho jeito pra coisa.
– …
– São que horas agora? O calor lá fora está de rachar.
– Nove da manhã – Ele responde ao mesmo tempo em que aponta o relógio digital no painel do carro.
A jovem olha-o, desanimada. Com os óculos escuros ele parece ainda mais distante.
– Posso ver seus olhos? Ontem à noite tive a impressão de que eles eram negros.
– Esse sol forte, preciso usar os óculos – mesmo assim ele mostra os olhos rapidamente. Pareceram-lhe algo entre o castanho-escuro e o negro.
Ao menos ele olhou para mim. Mas que ilusão. Ele não me quer. Não mais.
O carro para no sinal. Muitos banhistas atravessam a avenida. A jovem tenta reanimar a conversa, mas é interrompida por umas batidas leves no vidro. Um grito de susto, o medo de morrer, alguma coisa pronunciada do lado de fora do carro, a mão, instintivamente buscando a bolsa, o medo de morrer de novo.
– Ele quer a bolsa, não quer? Baixe o vidro! Baixe o vidro. Ele vai atirar! Baixe o vidro!– A jovem está histérica, as lágrimas, instantâneas, escorrem pela sua face.
– Calma! Calma! – O homem levanta a voz e segura com alguma firmeza o braço da garota. Enquanto isso, faz sinal para o menino, que, do outro lado, parece tão assustado quanto ela. Baixa o vidro do lado do motorista.
– Oi, garoto. Tudo bem? – A jovem o observa, atônita.
– Você havia falado alguma coisa e não consegui ouvir por causa do barulho aqui dentro.
O garoto mostra-se surpreso. Fica em silêncio, como se não pudesse acreditar ser capaz de entabular uma conversa com alguém a quem tivesse pedido dinheiro.
– O que você falou, menino? – O homem examina o rosto daquela criança – O que você tem que não responde? Usou drogas hoje?
– Eu pedi uma “ajudinha”, porque não como tem dois dias.
– Você estuda? Qual o seu nome?
O garoto parecia não saber se aquelas perguntas deveriam mesmo ser respondidas.
– Marquinhos. Marcos, apressou-se em corrigir.
– Não é culpa sua. A culpa é de tanta gente por aí que não ajuda – dizia isso enquanto tirava da carteira uma nota de dez reais. E continuou:
– Você é uma criança, mas a situação anda tão complicada que a sua figura, frágil, inofensiva, indefesa até, causa estranheza, pavor, pânico. Não vemos mais uma criança, vemos um monstro – enquanto falava isso, olhava de soslaio para a mulher, que agora sentia-se envergonhada do papelão que julgava ter feito. O menino só ouvia e olhava, ora para o homem, ora para a mulher.
Distraídos que estavam, não perceberam o sinal abrir. As buzinas, vorazes, preenchem todos os espaços possíveis, interrompem as palavras, as reações, a angústia, a ilusão. O carro arranca, assustando o menino, que pula para trás, sendo quase apanhado por outro motorista ainda mais apressado. Uma dança improvisada e perigosa tem início. Implacáveis, aquelas máquinas de ferro não parecem reconhecer aquele corpo pequeno e mirrado como portador de vida. Avançam, inexoráveis. Enquanto isso, o automóvel preto mais à frente acelera, fechando o vidro, rumo a uma resolução.

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6 Respostas para “Barulho interno

  1. Achei os nossos textos bem parecidos. Primeiro porque a “história” das personagens já aconteceu, e nós tivemos apenas a oportunidade de vislumbrar um pedaço das suas vidas; e segundo, porque os textos se passaram quase que inteiramente na mente das personagens, e o decorrer dos fatos “simplesmente” representaram as aflições pelas quais eles estavam passando.
    O “barulho interno” interferiu nas ações das personagens; e ele é, basicamente, aquele pavor de sentir-se sozinho, quando finalmente nos tocamos que viver intensamente as paixões do mundo não valem a pena. As frases “Ontem ele estava tão atencioso… Mas é assim mesmo, isso é evidente” e “Mas que ilusão. Ele não me quer. Não mais” dizem muito sobre o conto. Lembrou-me muito uma propaganda que passou a muito tempo, na qual duas pessoas se conheciam no meio da rua, começavam a se beijar, espalhavam as suas roupas no caminho, e finalmente, quando já estavam na cama, um deles pergunta: qual o seu nome mesmo?

    Acho que foi mais ou menos isso. E se não foi, aprendi com o conto do mesmo jeito.

  2. “Runo a uma resolução”?
    Algo neste desfecho me deixou encasquetado, e não sei se foi de todo um sentimento positivo…
    A situação me fez pensar na famosa canção “Sinal Fechado”, eternizada pelo Paulinho da Viola…
    Estes encontros durante o trânsito…
    Lembro que o quase-xará do tal Rinaldo uma vez me contou sobre um desentendimento que vocês tiveram no interior de um automóvel por causa da interceptação verbal/pedinte/interrogativa de uma destas crianças, que nos levam a questionar o sentido de “portador de vida”. Portador de vida?
    Ai, ai…

    Engraçado (agora sim, positivamente enquanto apreciação individual/sibjetiva) como tu e teu irmão venerado são adeptos deste estilo dialogístico que irrompe em meio aos discursos indiretos… Tendência clássica esta, que o Cormac McCarthy sempre renova… Tendência que vocês usam e abusam… E que, de vez em quando, ei até imito…

    Mas sou muito limitado por reminiscências biográficas em minhas incursões ficcionais…

    Que resolução, meu Deus? (risos)
    Por que logo esta palavra tão polissêmica num momento destes? (kkkk)

    Afora isso, os encontros, os encontros: eis o grande tema de qualquer estória!

    WPC>

    • Senti falta do seu comentário no meu texto referente ao exercício anterior.
      Em relação a esta “resolução”, a influência de Cormac McCarthy é latente.
      Não sei se foi nessa oficina de contos ou no livro “Oficina de Escritores” que li algo como “a literatura não é a arte do que foi dito, mas a arte daquilo que não foi dito”. Mais ou menos isso.
      E sempre que leio algo interessante, vejo como isso é verdade. Faulkner e McCarthy que o digam. Antonio Torres, em Essa Terra, leva isso a um patamar extremado. Estou terminando de reler Os Ratos, clássico de Dyonélio Machado, e ele também se utiliza disso fartamente.
      Dizer deixando nas entrelinhas. Provocar o leitor, instigá-lo a investigar cada palavra. Em minha cabeça, esse conto é narrado em três linhas. Em minha cabeça, essa “resolução” é simples. Mas escrevi com o objetivo de deixar uma névoa que forçasse o leitor a adentrar, refletir. Ao terminar de ler, sentir-se compelido a ler e tentar encontrar o que havia perdido. Como eu jamais poderei avaliar se logrei êxito nessa tentativa, fico a aguardar…

  3. (risos)

    Comento depois o conto anterior…
    Tempo + enxaqueca recente dificultaram algumas de minhas atividades avaliativas recentes…

    E meu problema com o vocábulo “resolução” neste texto é bem setorial: lá no DAA, resolução é um termo bastante objetivado, referente a decisões promulgadas por departamentos da Universidade e congêneres e, por causa deste referencial trabalhista, a minha apreciação pós-texto ficou prejudicada. Mas, insisto: este é um problema mui setorial! (risos)

    No geral, ratifico a comparação com “Sinal Fechado” (hehehehehehe)

    WPC>

  4. Pingback: Melhores Momentos – 2011 « Catálise Crítica

  5. A narração não acaba, apenas uma história atravessada teria o final, que poderia nem ser o fim. Faltou o desfecho. Como disse o leitor acima ‘Que resolução?’, parece-me um caso insolúvel, ou mais um caso apenas.

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