Incidente em Antares – Érico Veríssimo

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Comprei há algum tempo num “sebo andante” em Brasília. Estava comendo pizza e eis que me aborda um sujeito com uma penca de livros velhos, dentre os quais este, em bom estado, e vendido a preço mui aprazível.

Estou ainda no início. Tenho gostado do clima bem-humorado do autor. Eis que me deparo, no capítulo XVI, com uma verdadeira aula de história (será micro-história?), a qual transcrevo, a seguir, em homenagem direta ao meu irmão, que muito em breve estreará como professor dessa tão empolgante disciplina:

“A esta altura da presente narrativa é natural que o leitor esteja inclinado a perguntar se não existiam em Antares homens de bem e de paz, com comportamento e sentimentos cristãos. A pergunta é pertinente e a resposta, sem a menor dúvida, afirmativa. Havia, sim, e muitos. Desgraçadamente seus ditos, feitos e gestos não foram recolhidos pela história oficial. Apenas um poucos deles incorporaram-se à tradição oral da cidade e do município: os restantes perderam-se para sempre no olvido.

Os livros escolares, cujo objetivo é ensinar-nos a história da nossa terra e do nosso povo, são em geral escritos num espírito maniqueísta, seguindo as clássicas antíteses – os bons e os maus, os heróis e os covardes, os santos e os bandidos.

Via de regra, não se empregam nesses compêndios as cores intermediárias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truísmo de que a História não pode ser escrita apenas em preto e branco.

Por motivos puramente de economia de espaço – uma vez que o objetivo dessa narrativa é tecer um sumário pano de fundo histórico contra o qual apresentar oportunamente os macabros eventos daquela sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963 – estas páginas lamentavelmente têm seguido o espírito dos citados livros escolares, focando de preferência as duas grandes oligarquias que em Antares, durante cerca de setenta anos, disputaram o predomínio político, social e econômico. Ficaram, assim na penumbra do segundo, do terceiro e do último plano todos aqueles que – para usar duma expressão de Spengler – não “fazem” mas “sofrem” a História, a saber: estancieiros menores, agricultores de minifúndios, membros das profissões liberais e do magistério e ministério públicos, funcionários do governo, comerciantes, artesãos e por fim essa massamorda humana composta de párias – brancos, caboclos, mulatos, pretos, curibocas, mamelucos – gente sem profissão certa, changadores, índios vagos, mendigos, “gentinha” molambente e descalça, que vivia num plano mais vegetal ou animal do que humano, e cuja situação era em geral aceita pelos privilegiados como parte duma ordem natural, dum ato divino irrevogável.”

 

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3 Respostas para “Incidente em Antares – Érico Veríssimo

  1. Bela citação, belo uso dos verbos…

    Sempre quis ler este livro.
    Lembro que teve uma boa adaptação na TV…

    Li um similar, AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, do José Saramago, mas havia uns direcionamentos de enfoque ainda mais sobrenaturais: a morte entra em greve e a Política urge!

    Ansiando…

    WPC>

  2. Só pelo trecho fiquei com uma grande expectativa, espero lê-lo em breve. Já estou com ele na lista de leitura ha algum tempo, quanto a se parecer com as intermitências da morte, só me faz ter mais vontade de “degustar” esta obra.
    Minha primeira participação no blog, apesar de já observa-lo a algum tempo, parabéns pelo blog, já estava procurando um lugar com tanta informação legal sobre literatura feita por pessoas normais, o que o torna mais precioso.

    • Obrigado, Danilo. Incidente em Antares foi sendo empurrado, empurrado na minha lista, tanto que até hoje não li, mas pretendo, sem dúvida. Confira mais textos no blog e veja os comentários em vídeo. Abraços!

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