Danse Macabre

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Os olhos. Naquela escuridão pulsante, repleta de flashes e de erros, cenas interrompidas, expressões paralisadas, os olhos. Ele a observa, do outro lado da invisível ponte. De fato, não é possível, àquela distância, ver fisicamente os olhos. Mas eles estão diante dele, mesmo que não consiga lembrar a cor, mas tão-somente a dor. Eles ora recrudescem, ora o devoram. Não há como fugir. O coro, a voz afetada cantando seus feitos e o perigo a que se exporá, voluntariamente, uma oblação ao amor desprezado. Em suas mãos entrego meu espírito, pensa, herético.

O rito se iniciará. Como uma danse macabre, ou um ritual esquecido de acasalamento não compreendido por uma das partes, ele se arriscará, sob gritos e clarões e música alta e ruim e “oooh’s” e “uuuuhhh’s” e aplausos e o sono de uma ou outra alma cansada demais para apreciar sempre o mesmo número. Nada de novo no front, pensou. Não hoje, não amanhã.

O primeiro salto, a primeira acrobacia. Enquanto gira, uma metáfora óbvia demais para sua vida que teima, insiste em repetir os erros, lembra do sonho. “Eu era você, você era eu.”

O sorriso de desprezo dela, aquele cansaço, aqueles olhos, arrastando-o mais e mais, os passos dela se afastando. “Mas agora você era diferente, fantasmagórica”. Ela se vira. E diz que naquele ponto ele acertara. Ela era diferente. Dele. E ajudou-o a interpretar. “Fantasmagórica, meu bem” – ela fazia questão de chamá-lo “meu bem” apenas para torturá-lo, parecia-lhe – “quer dizer inacessível a você. Você já não pode me tocar. Nem meu corpo nem meu coração.”

Mais um giro no ar. Parece que desta vez não vai alcançar. Uuuuhhh’s e aplausos. Bem a tempo, como sempre. Ao menos eles se divertem. Será só mais uma volta e ela entrará em cena. Seu último giro e está de volta.

Ela não compreende mesmo, pensa, enquanto observa-a, linda, afastar-se do picadeiro. “Todos os dias, todos os dias, meu bem, meu sonho se realiza.”

Ele para, espectador por alguns segundos, uma eternidade de piruetas e malabarismos. E de olhos brilhantes e de movimentos perfeitos. Quando ela gira sobre seu próprio eixo, é o mundo dele que perde o equilíbrio. Ele se segura discretamente no mastro. Tremula ante a proximidade do momento. Ela dá seu último salto, e ele chega a pensar que poderia mesmo ser o último, olhando para o chão, tão distante. Mas foi só um pensamento estúpido de uma parte de si que queria paz.

Prepara-se e agora sim, ambos dançam. Ambos se arriscam. E há milhares de olhos voltados para os dois corpos ágeis que não encontram lugar de pouso. Ambos saltam e trocam de lugar. Sentiu, por uma fração muito pequena de tempo, medo de tocá-la. Os próximos passos são arremedo que por ora revela-se mais do que suficiente. É a sua vingança, pensa. Iniciam uma sequência veloz, perigosa, sensual, estonteante. No escuro, entre brevíssimos momentos de luz, sem qualquer possibilidade de encarar aqueles olhos, entre giros e flexões, perigo e excitação, ele se perde, ela se perde. Nenhum daqueles milhares de olhos que os consomem poderia jurar saber. Nem mesmo o dono daquela voz irritante, com aquele olho de artista que de tudo já viu e toda aquela bazófia poderia garantir. Isso porque no exato momento em que eles se tocam no ar e a luz esvanece, a química onírica se realiza. Ela já não é mais fantasmagórica, já não é mais ela. Um giro rápido, os corpos juntos, cercados de nada, protegidos por sentimentos opostos, num equilíbrio precário, e ele também não é ele. Eles flutuam, beija-flores instantâneos e efêmeros, trocando de lugar. Uma fração de tempo.

Eles já voltam aos seus lugares, ele obsedado pelos aplausos.

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3 Respostas para “Danse Macabre

  1. Apesar da tessitura da escrita ser um tanto mais “fácil” aqui, sem os arroubos e sobressaltos de moralidade positiva que o caracterizam, senti-me particularmente tocados por duas razões: 1 – no plano referencial, este contou lembrou-me bastante de cenas ruins do péssimo curta-metragem SODOMITES (1998, de Gaspar Noé) e de trechos egrégios do magnífico clássico psicodélico-pornográfico ATRÁS DA PORTA VERDE (1972, de Artie & Jim Mitchell); 2 – no plano pessoal, ele reconstitui delírios mui recorrentes, em razão de minha subsunção involuntária (?) e progressiva a uma espetacularização (in)glória de uma sexualidade cambaleante. Até o “meu bem” é um bordão que eu uso com irônica freqüência! ‘Mea culpa’…

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  2. Essa lembrança é meio inglória: o fato de lembrar um péssimo curta-metragem já é ruim; imagine lembrar CENAS RUINS deste curta-metragem…
    Não sei se você viu de que se tratava o exercício desta feita (partir de um trecho de um sonho que Kafka descreveu à sua namorada). Quando li o sonho, veio-me à imagem um trapezista, e cismei qu teria que escrever o exercício a partir dessa imagem. Não sei se desgostei totalmente do resultado final, mas, por se tratar de um exercício, segui adiante.

  3. Exercícios são sempre válidos!
    E lembrar de algo ruim a partir de um texto não é um mau indício: o ambiente é que é similar, apenas isso: a publicização de algo íntimo, a espetacularização desnecessária de um ritual particular , o entrecho é que me perturbou!
    A associação com o sonho do Kafka citado numa postagem rápida anterior, de fato, não me veio à mente, apesar de suspeitar de que fosse o teu estímulo, mas achei este texto muito abaixo do que tu costumas fazer. O que não é um demérito, nem uma acusação, apenas uma mudança de estilo, talvez.

    Insisto que o que me incomodou aqui foi a ausência de teu lastro moral fortemente característico. Uma leve estranheza espectatorial, quiçá.

    E, pela parcialidade de teu comentário, pareces que tu estás com a mesma mania de teu irmão, de só destacar a parte negativa de meu comentário: também lembrei do genial e contestador filme pornográfico supracitado, o mesmo é cinema de primeiríssima qualidade. Cuidado com este foco defensivo (risos)

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