Oficina de Contos – José Castello – Quarta Aula

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A quarta aula de José Castello traz o rigor e a secura da “poesia de pedra” de João Cabral de Melo Neto para ajudar o contista a livrar-se dos clichês. Marianne Moore e Milan Kundera também vêm ao auxílio dos alunos.
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Venho tratar hoje não de um contista, mas de um poeta. Eu sei: parece estranho falar de um poeta em uma oficina de contos. Mas, tenho certeza, isso nos será muito útil. Ocorre-me aqui uma sentença célebre de Gustave Flaubert, o autor de Madame Bovary, um romance-chave na literatura no século 19. Frase que, no meu entender, serve não só ao romancista, mas também ao contista e ao poeta: “Sempre me esforcei para adentrar a alma das coisas”. É claro: romances, contos, poemas, cada gênero tem sua história. Histórias que fundam tradições, hábitos, certezas – ainda que precárias certezas. Mas existe alguma coisa que, para além dos gêneros e da história, funda aquilo que chamamos de literatura. Talvez se possa pensar nesse “adentrar a alma” de que Flaubert nos fala.

Lembro de outro grande romancista, o checo Milan Kundera, para quem o romance não é “só mais um gênero literário, um galho entre os galhos de uma só árvore”. Com essa afirmação, Kundera luta para afirmar a particularidade do romance – gênero que, a seu ver, não se confunde com qualquer outro. As particularidades do conto e da poesia também podem (e devem) ser afirmadas por contistas e poetas. Nada disso, porém, apaga o lastro comum em que os escritores, de qualquer gênero, trafegam. Escrever, dizia Flaubert, é lutar para penetrar na alma (nos segredos) do mundo. E, para se arriscar a isso, cada escritor deve traçar seu próprio método, escavar seu próprio caminho.

Feitas essas ressalvas, volto a João Cabral de Melo Neto, um poeta numa oficina de contistas. Embora nunca tenha escrito contos, o poeta João Cabral de Melo Neto, com sua estética da secura, do corte e do rigor, pode nos ajudar muito a pensá-los. Poetas, como contistas, são artesãos da palavra, o que já os deixa muito próximos. Além disso, Cabral não foi um poeta qualquer. Foi, antes de tudo, um poeta que lutava para não “fazer poesia”, como se diz dos românticos e dos líricos. Queria, em vez disso, e em suas próprias palavras, “despoetizar a poesia”. Fazer uma poesia sem poesia – projeto que até hoje, em alguns poetas, provoca grande mal-estar.

Uma “poesia sem poesia”: isto é, uma poesia livre de todos os clichês que, por hábito e preguiça, atribuímos à poesia e ao poético. Uma poesia sem adornos, sem exageros, livre dos enfeites e de metáforas, distante o mais possível da retórica. Poesia de pedra, poesia de osso – “poesia de cabra”, dela dizia o lírico Vinicius de Moraes –, poesia concreta. Uma poesia dos substantivos e não dos adjetivos. Um duro projeto, que torna a arte do poeta ainda mais difícil mas, também, ainda mais potente. Por que não pensar, roubando a idéia de Cabral, de um “conto sem conto”? Isto é: um conto liberto de todos os clichês, todos os hábitos, todos os vícios normalmente a eles atribuídos.

João Cabral reclamou, muitas vezes, da preguiça e do convencionalismo que a seu ver, em seu tempo (e não hoje?), vigoravam entre os poetas. Todo mundo, de fato, acha que pode escrever poesia, nem que seja um “poema de amor”, ou um “poema de homenagem”, ou “de despedida”. Até nos cartões postais, nos telegramas de aniversário, nas lápides de cemitério, nos apelos da publicidade, nos bolos de casamento identificamos muitas vezes algo que, apressadamente, chamamos de “poesia”. Pensa-se, em geral, que basta uma lágrima, ou uma dor de cotovelo, ou a expressão mais forte de um sentimento, para que a poesia, como num passe de mágica, apareça. “O brasileiro em geral não é muito de trabalho”, Cabral se lamentava.

O que o poeta desejava afirmar? Que a poesia, ao contrário dos que crêem em Musas, em anjos, ou no poder da inspiração, ou ainda em manifestos estéticos e palavras de ordem que devem ser cumpridos ao pé da letra, é, sempre, o resultado de um imenso esforço e de muita disciplina intelectual. E, sobretudo, de uma arriscada e solitária viagem pessoal. O poeta não “incorpora” a poesia, como um médium. Ela, ao contrário, se faz passo a passo, peça a peça, como um edifício (Cabral sempre se interessou pela arquitetura e pelos arquitetos), ou como uma cadeira. Muito mais que ao médium, ou ao mágico, pensava Cabral, a poesia é obra do artesão.

Mas disciplinar-se não significa, ele dizia, submeter-se a regras alheias. Ao contrário: “Cada pessoa deve encontrar a sua forma rígida para a sua maneira de ser e depois segui-la”, disse numa longa conversa com André Pestana. Cada poeta (cada contista, podemos experimentar a troca) deve criar seus próprios limites, sua própria armadura, sua própria estrada, e a eles se aferrar com toda a força. A partir daí, não deve mais abrir mão do caminho que escolheu, por mais difícil que ele venha a ser. Criar suas próprias proibições, seus próprios tabus, seus próprios riscos e depois a eles se submeter com o máximo de rigidez e sem recuar: eis a estratégia do poeta. Mas não basta ser radical, não basta “desejar romper”. Cabral – que sempre foi considerado um grande inovador, e a quem as vanguardas literárias, até hoje, estão sempre a citar como um grande mestre – deixou claro, numa entrevista a O Globo, a distância que o separava dos vanguardistas. Resumiu assim: “Aceito a inovação caso ela venha a ser funcional e não como um meio de ser diferente”.

Inovar, para Cabral, não era “fazer o novo”, mas encontrar um caminho próprio, o mais adequado e mais eficaz, para chegar a um objetivo pessoal. O caráter funcional da inovação – que precisa “funcionar” para de fato ser nova – lhe tira, assim, o verniz glamouroso e escandaloso que tantos atribuem. E lhe confere um caráter mais problemático, que inclui a idéia de eficiência e que tem em vista, sempre, um destino. Claro, a poesia (e a literatura) não serve para nada, então não estamos falando aqui de um caráter utilitário, ou de uma função social. O funcional se refere mais às idéias, aos projetos, e, sobretudo, aos objetivos que cada artista fixa para si. Chegar a si: eis o objetivo, no fim, de todo escritor, poeta, contista, ou romancista.

Lições sábias, penso, também para um contista: decidir aonde quer chegar e depois seguir, com firmeza, por esse caminho, sem arredar o pé, sem ceder ao cansaço ou desânimo, por mais difíceis que sejam os desafios que escolheu para si. Volto aqui à definição de Mario de Andrade que citei em outra aula: “Conto é tudo o que chamamos de conto”. O importante não é saber o que é um conto, mas se, uma vez resolvido o que ele é, e cada contista resolve isso a seu modo, cumprir o que se prometeu. Numa antiga entrevista que deu ainda nos anos 60 em Lisboa, Cabral falava de seu descontentamento com o Pégaso, o cavalo que voa, que é considerado o símbolo da poesia. Ao crítico José Carlos de Vasconcelos, do Diário de Lisboa, ele sugeriu: “Nós deveríamos ter como símbolo da poesia não o Pégaso, mas a galinha, ou peru, que são aves que não voam. Para o poeta, o difícil é não voar e o esforço que ele deve fazer é esse”.

A galinha: uma ave que cisca e que, em vez de cobiçar grandes vôos, trabalha com a atenção voltada para o chão, para o imediato, para as miudezas, em busca de seu alimento. Contem-se e contenta-se com o menor. Ela é uma boa imagem também para o contista. Vôos exagerados podem levá-lo a perder o rumo e a se dispersar. Mais seguro é se deter no caminho que traçou para si e ali, como uma galinha concentrada na busca de seus farelos, permanecer firme. Mais uma vez Cabral repete: conter-se, conservar-se firmemente agarrado ao chão, endurecer, restringir-se. Nada de vôos inúteis, de divagações tortuosas, de experiências “sublimes”, de exageros, de excessos. Nada de grandes elevações, nenhuma nobreza, nenhuma grandiosidade. A poesia (o conto) é um trabalho duro, em que o escritor precisa sujar as mãos.

Cabral propunha uma poesia terra a terra, apegada aos problemas concretos e submissa a estratégias inteligentes – desafios brutos e – sem facilidades, que cada poeta deve traçar para si mesmo. Isso quer dizer: antes de escrever, escolher e fixar os limites da escrita. Erguer normas pessoais – inventar essas normas e depois a elas se submeter. Desenhar os limites de seu destino. Desse modo, a liberdade deixa de ser algo de que nos embebedamos, para se tornar a camisa de força que escolhemos, livremente, vestir. Não leva à embriaguez, mas à atenção. Não leva a “qualquer coisa”, mas só à precisão.

Tudo isso vale, e muito, para o contista. Escrever contos não é derramar-se, sem qualquer pudor, no caminho pantanoso das palavras. Não é soltar a imaginação e deixar que ela ferva, que entre em ebulição. Ao contrário: é criar obstáculos e objetivos, rígidos, duros, e fixar com nitidez um destino – ainda que não se chegue a realizá-lo, ainda que nunca se chegue, de fato, até ele. É conter-se. O contista, como o poeta cabralino, precisa saber onde pisa e em que direção caminha. Ainda que essas escolhas se dêem, como em geral acontece, no escuro, e sejam motivadas por razões secretas que lhe escapam, é a elas que o contista deve ser fiel. Apesar de si e apesar da própria ignorância e dos próprios limites, não recuar, não voltar atrás.

Em uma entrevista concedida nos anos 70 à Folha de S. Paulo, João Cabral argumenta: “Se a literatura é problemática é porque ela existe. No dia em que a tivermos burocratizada, com o poeta sentado em uma mesa na função de fazer versos, aí sim a literatura estará morta”. O poeta (o contista) não escreve por encomenda, ou para corresponder a padrões, ou para se adaptar a cânones. Não segue as tendências da moda como, por exemplo, a indústria do automóvel, ou os ateliês de costura. Clarice Lispector dizia: “Eu não coso para fora, eu coso para dentro”. Logo, não existem modismos, não existem manequins, não existem fitas métricas; a medição é interior.

Serão essas, de fato, escolhas que o poeta (o contista) chega a fazer? Ou, em vez disso, são apenas coisas que se impõem e que, uma vez reconhecidas como partes de sua voz, o levam a se submeter? Nesse caso, e para seguir a pista deixada por João Cabral, o contista não se submete a algo de fora, a um cânone, ou uma palavra de ordem, ou a um guru. Submete-se, antes, a si. Em outras palavras: contém-se. E só ali, naquela prisão pessoal (Cabral poderia pensar nos engradados em que se espremem as galinhas…), que ele arrisca alguns vôos. Vôos pequenos, precisos, em direções claras e com o retorno incluído. Os vôos decisivos.

Uma estratégia, sem dúvida, trabalhosa, até porque ela empurra o escritor, qualquer escritor, poeta, contista, romancista, para uma grande solidão intelectual. Em uma entrevista que concedeu nos anos 80, Cabral diz: “Sou um poeta meio marginal, que de certa forma fugiu do lirismo e do romantismo comuns na poesia brasileira”. À margem dos grandes movimentos e das grandes ondas, Cabral se isolou em seu caminho, apegou-se ferozmente a sua voz, suportou todas as conseqüências disso, e só por isso se tornou um grande poeta. A estratégia, insisto, serve também para o contista: é no aferrar-se a sua solidão, quando é fiel a si e a mais ninguém, que um contista se afirma.

Faz parte desse retorno ao essencial o apego de João Cabral não só à Espanha, mas à literatura espanhola. Cabral disse certa vez ao crítico e poeta Antonio Carlos Secchin: “A literatura espanhola usa preponderantemente o concreto e por isso me interessou. As literaturas primitivas me interessam. Parece que a linguagem começou pelas palavras concretas”. Este retorno às “coisas que são”, que Cabral cultivou na árida paisagem espanhola, é uma lição estupenda também para o contista. Também o contista pratica um gênero que tende ao compacto, e que em geral se centra em um só tempo e em uma só ação, que se prende a poucos personagens, que se aferra a uma história com a obstinação de contá-la até o fim – e mais nada. O contista, em geral (mas como é perigoso o geral!), não se interessa pelo adorno, pela divagação, pela meditação. Ele tem uma história a relatar, um relato a resolver, e escreve para resolvê-lo. Cabral recorda as literaturas primitivas – os contos de fadas, as lendas, as gestas, o cancioneiro medieval – em que o objetivo era apenas um: contar uma história. Exemplos que remetem a uma idéia decisiva: a de contenção. Conter-se: este deve ser o principal exercício de um contista. Agarrar seu projeto, ater-se a ele, restringir-se, exigindo de si mesmo nitidez e rigor.

O Exercício de Contenção que hoje proponho a você se inspira não só, nas lições de João Cabral de Melo Neto, mas também nos versos de outra grande poeta, que admiro muito, a norte-americana Marianne Moore. Uma poeta que, Cabral declarou mais de uma vez, foi decisiva em sua formação literária. São estes os versos de Marianne, que estão no fecho do poema “Silêncio”, aqui em tradução de José Antonio Arantes: “O sentimento mais profundo sempre se mostra em silêncio; não em silêncio, mas contenção”.

A palavra inglesa aqui traduzida como “contenção”, “restraint”, pode ser traduzida também por restrição, limitação, ou controle – três outras idéias que servem bastante a nosso propósito. Pois são restrição, limitação e controle que ajudam a formar não só um poeta, mas um contista.

EXERCÍCIO DE CONTENÇÃO

Antes de tudo, é bom distinguir “contenção”, ato de contender e de lutar, mas também de conter-se (reprimir-se, refrear-se), de “contensão” (= “com tensão”), isto é, grande esforço, ou grande aplicação intelectual. As duas palavras na verdade se assemelham e não só na grafia. Cabral fala na contenção, com “ç”, que vem do latim “contentione”. Ele pensa no ato de refrear-se, que se associa às idéias de moderação e de privação.

Mas contensão, com “s”, é também uma palavra que nos ajuda a pensar, sobretudo pelo aspecto da aplicação intelectual que envolve. É de esforço e de aplicação que tratamos aqui. De luta também, só que, em nosso caso, de luta consigo mesmo, luta interior, e não luta com um adversário exterior.

O exercício que proponho é simples. Com ele repito, com um pouco mais de espaço, o exercício literário proposto pelo poeta Marcelino Freire em seu Os cem menores contos brasileiros do século, lançado em 2004 pela Ateliê Editorial. Marcelino encomendou a 100 escritores um conto que tivesse no máximo 50 letras – letras, e não palavras! O resultado é espantoso. O exercício se inspira naquele que é considerado o menor conto do mundo, do guatemalteco Augusto Monterroso, relato que tem não 50, mas 37 letras: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

Proponho aqui um exercício um pouco mais generoso: a tarefa é escrever um conto não de 50 letras, mas de no máximo 50 palavras. Um conto, portanto, que terá, no máximo, algo em torno de quatro ou cinco linhas. Enfatizo, para evitar dúvidas, que até mesmo artigos e preposições valem como palavras nesse caso.

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4 Respostas para “Oficina de Contos – José Castello – Quarta Aula

  1. Gostei da menção elogiosa ao Kundera, já que tu não tens boas lembranças dele…

    E este exercício renderá maravilhas, tenho certeza! Aprecio estas narrativas curtas, curtíssimas, embebidas de mistério, que nem no exemplo do dinossauro que ainda estava lá…

    Volta e meia, eu escrevo assim: curtinho, cheio de pontas soltas e escancaradas, no sentido de Umberto Eco para o último adjetivo (risos)

    Ansioso…
    Que venham os petardos em 50 palavras!

    WPC>

      • A minha impressão é que a metáfora funciona EXCLUSIVAMENTE como contraste ao pégaso: a galinha é real, rasteira, enquanto o pégaso, que voa, é mitológico.
        Mas quem ler um conto de Jorge Luis Borges, apenas para citar um exemplo dado pelo próprio José Castello, sabe que de galinha, de rasteiro, nada há ali.

  2. Digo mais, quem já teve galinha no quintal, como eu e tu, sabe bem que as galinhas cobiçam altos vôos sim, tanto que, volta e meia, precisamos cortar as suas asas, para que elas não voem… Aliás, os vôos baixos desta ave são decorrentes de uma limitação natural e, do modo como o autor citou o exemplo, pareceu-me uma ode ao conformismo recebido como vom de nascença… Humpf! Tenho medo de metáforas assim (risos)

    Fora isso, acho o exercício de muitíssimo bom tom.
    Curioso, insisto!

    WPC>

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