Oficina de Contos – José Castello – Quinta Aula

Disponível em: http://portalliteral.com.br/oficina/oficina-de-contos

Luigi Pirandello, E.M. Cioran e Franz Kafka são trazidos por José Castello à quinta aula para ensinar sobre a dança de máscaras da literatura. O desafio proposto pelo mestre nesta semana trabalha paradoxos, mais uma vez, para fugir dos clichês.
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Ainda a pista preciosa que nos foi dada não por um contista, mas por um grande poeta, João Cabral de Melo Neto: escrever (poemas, contos, romances) é “dar a ver”. É aprender a ver, podemos modificar um pouco a idéia. É apurar o olhar, refiná-lo, de modo que se acostume a ver o que em geral não vê. A ver a instabilidade (a vida) e não a estabilidade (a morte). E não se limitar a ver “como todos vêem”. Não ver o que já esperamos encontrar, ver para confirmar, mas ver de novas maneiras, de novos ângulos, novas perspectivas, ver para levar um susto. Procura-se uma coisa, e encontra-se outra – e se suporte isso, e se faça algo não a partir do Mesmo perdido, mas a partir do Outro que se encontrou.

Palavra da moda, Outro, que está no jargão de psicanalistas, de antropólogos, de sociólogos. Palavra – conceito – que existe para abrir portas, mas que, às vezes, as fecha. O perigo das palavras! Uma afilhada querida, Rita Lemgruber, sempre me diz que, incomodada com a camisa de força (e não com a força!) dos jargões, prefere chamar o Outro de Fulaninho. Sua “tradução” não podia ser mais certeira! O dicionário define Fulano como a “designação vaga de pessoa incerta, ou de alguém que não se quer nomear”. Fulaninho, o diminutivo, carrega, ainda, uma dose de mau-humor, de desdém, de ironia. O Outro é isso: uma maneira insuficiente de nomear alguém, ou uma maneira de chamar algo a que, enfim, não conseguimos dar nome algum.

Escrever, em conseqüência, é livrar-se das máscaras – sociais, culturais, protocolares, de etiqueta, de boas maneiras – que vestimos para existir. Para enfrentar a vida. Dos óculos habituais que usamos para ver e que nos levam aos mesmos enquadramentos e aos mesmos pontos de vista. Arrancar as máscaras, para encontrar não o que já conhecemos, mas o que desconhecemos. Encontrar o Outro – ou o Fulaninho, como Rita me sugere. Aquele que mal suporta o peso de um nome! E o que acontece quando despimos essas máscaras? A ilusão realista leva a crer que, sob a máscara nefasta, encontraremos – desenterraremos! – homens de carne e osso. Homens “verdadeiros”, a verdade nua e crua. E a máscara ficaria, então, do lado da mentira, da falsificação, do medo, da fuga, da chantagem.

Um escritor genial – dramaturgo, mas também contista e ainda romancista – como o italiano Luigi Pirandello (1867-1936) já nos mostrou, contudo, que tal verdade secreta e perfeita, que se guardaria sob as máscaras, simplesmente não existe. A vida, ele pensava, é um desfile de máscaras e a questão não é se livrar delas, já que são as máscaras que nos elevam ao nível da linguagem e que, portanto, nos tornam humanos. A questão, bem diferente, e bem mais complexa, é saber lidar com elas. E não vacilar à espera do rosto “verdadeiro”, que não conseguiremos ver. Esse é o grande engano dos escritores realistas – erro brutal daqueles que pretendem fazer da literatura um veículo de acesso à verdade ou, pelo menos, de desmascaramento da verdade. Tiramos uma máscara, e outra, e mais outra – e nesse arrancar sem fim, o que nos surge não se parece nem um pouco com a verdade. Se a verdade é alguma coisa, ela é apenas esse arrancar interminável de máscaras.

Entre os aforismos de Luigi Pirandello, reunidos por Gino Ruozzi a partir da leitura de suas peças e narrativas, existe um que me interessa em particular. Aqui o traduzo precariamente, com meu italiano vacilante (apenas máscara do italiano!). Diz Pirandello: “O absurdo da vida não tem necessidade de parecer verossímil, porque é verdadeiro”. Oh frase! Volto ao dicionário: verossímil é aquilo que é “semelhante à verdade”, “que parece verdadeiro”. É a verdade provável, mas sob a qual resta sempre uma larga margem de dúvida, de inconsistência, de suspeita. O que nos diz Pirandello? Que a verdade não precisa “parecer verdadeira”, porque verdade já é. Em outras palavras: que a verdade, em geral, não se parece com a verdade!! Ela não tem as características – estabilidade, certeza, clareza – que em geral atribuímos à verdade. Ela é estranha, e provoca suspeita.

Logo: a verdade não se deixa pegar, não se deixa fotografar, não se deixa definir. Cada vez que arrancamos uma máscara, nós apenas nos aproximamos um pouco mais dela, o que é bem diferente de chegar até ela. Isso, é claro, é coisa que nem sempre suportamos. Queremos sempre, desde meninos, uma verdade serena, previsível, que combine com nossas expectativas e que nos deixe à vontade e seguros. Aquela verdade que, na primeira infância, numa falsificação indispensável, nos é dada pela figura poderosa da mãe. Pirandello trata disso em um belo conto, “Retorno”, que está em O marido de minha mulher, coletânea de doze narrativas breves que estão chegando ao mercado brasileiro em tradução de Jacob Penteado, pela Odisséia Editorial. Há outra bela reunião de contos do escritor italiano, Kaos e outros contos sicilianos, em tradução de Fulvia Moretto, publicada pela Nova Alexandria em 2001. Os dois livros oferecem exemplos notáveis da arte do conto. E da dança louca de máscaras que sustenta toda literatura.

Mas vamos ficar em “Retorno”. A leitura do conto me faz lembrar o comentário de Maurice Blanchot a respeito de Franz Kafka: “Kafka queria destruir sua obra porque acreditava que ela estava destinada a reafirmar e engrandecer o mal-entendido universal”. Foi o sonho de escapar da perfeição – de escapar da verdade irretocável – que o levou a pedir ao amigo Max Brod, pouco antes de morrer, que queimasse tudo o que escreveu. Kafka temia ser santificado. Temia que seus escritos viessem a ser lidos como lições luminosas e verdadeiras. Felizmente, Brod não o atendeu.

“Retorno”, o conto de Pirandello, se dá em torno de um mal-entendido. Eles ameaçam os escritores, como Kafka – mas, ao mesmo tempo, são a matéria prima de seus escritos. Vamos ao conto. Depois de muitos anos, Paulo Marra volta ao “triste povoado ao alto da montanha” em que nasceu. Vai direto até sua casa de infância, que encontra em ruínas. Ao reencontrar seu passado, em vez de sentir felicidade, Marra sente “mágoa e náusea”. Mágoa, desgosto, porque tem a sensação de que seu passado lhe foi roubado. Náusea, repugnância, porque não pode aceitar a casa desolada e semi-destruída que vê.

Algumas mulheres conversam sentadas em pedras que rodeiam a casa. Sua vontade é expulsá-las (mas a casa não lhe pertence mais!) e precisa controlar esse sentimento. Marra sente que a presença daqueles estranhos lhe rouba o direito de experimentar o desencanto e a mágoa que dominam suas recordações. Mágoa de quê? De não ver o que esperava ver. Não só de que não corresponda ao que esperava, mas até mesmo desminta o que acreditava que ia ver – motivo, afinal, de seu retorno à aldeia. Passado carregado de duras recordações, como as violências que o pai praticava contra a mãe que, frágil, morreu depois de um espancamento.

“Agora, voltando, depois de tantos anos, à terra natal, não tinha sido reconhecido por ninguém”, Marra constata. É todo um passado, cheio de feridas, que lhe é roubado. E por quê? Por causa da aparência – da máscara – que o tempo colocou sobre seu rosto. “Somente um tal se aproximara, um que ele nem podia imaginar quem pudesse ser”. O que significa dizer: também ele, Marra, roubava, daqueles moradores que persistiram na aldeia, não só seu passado, mas sua identidade. Fazia com eles o mesmo que faziam consigo. Só um homenzinho estranho o reconhece. Marra pensa que o sujeito se parece com o diabo. Isto é, com a pior ameaça. Logo percebe, no entanto, que se deixa vencer pela imaginação. Pergunta-se o que o leva a fraquejar, a ceder a impressões, a deixar que a imaginação se apodere de sua mente. Percebe, então, que é a culpa que o assola, porque deixou o pai – sim, o pai assassino – morrer na miséria, sem nada fazer por ele. A máscara do pai violento, nesse momento, cai. Algo também abala a memória pura que tinha da mãe. Máscaras por todos os lados, eis o que lhe resta. Eis tudo o que temos para amar, ou odiar.

O belo conto de Pirandello põe em cena os aspectos vacilantes e ambíguos daquilo que chamamos de admiração. Também o que chamamos, ao contrário, de repúdio. Não se trata de escolher entre os dois, mas de livrá-los da ilusão de certeza. Nada é bom, ou mau. O bem e o mal se misturam, se confundem, se alternam, e nunca podemos nos decidir, com segurança, onde cada um deles está. Essa é a potência da literatura: lidar com esses paradoxos, sem precisar solucioná-los, sem precisar tomar partido. É o que os contos de Pirandello nos mostram.

O Exercício de Admiração que se segue inspira-se no livro homônimo do filósofo romeno E. M. Cioran (1911-1995). Os Exercícios de admiração de Cioran, traduzidos no Brasil por José Thomaz Brum, reúnem ensaios e prefácios do escritor, e tratam de admirações fortes por Samuel Beckett, por Scott Fitzgerald, por Mircea Eliade. Cioran, o amargo, trabalha suas admirações, porém, com distância e prudência. Primeiro porque admirar não significa idealizar, não significa exagerar. A admiração pode ser, como em Cioran, dura e até cruel. Depois porque, quando admiramos um escritor, nem sempre sabemos por que o fazemos; nem sempre conseguimos dar um nome ao que nos mantém “presos” a ele. Qual é o segredo, qual é o “impasse” (já que escritores não fornecem respostas) que nos puxa? Então, como faz Cioran, transformar escritores em personagens pode nos ajudar a levar, e a eles também, para o terreno pantanoso e fértil da literatura. Incluí-los, em vez de excluí-los, no campo das palavras e das máscaras. Escritores são também, enfim, personagens. São máscaras, que circulam no meio literário, na imprensa literária, na literatura, nas capas (máscaras!) dos livros.

A descoberta, de aparência atordoante, é benéfica. Ela nos dá mais liberdade para escrever. Para, enfim, experimentar a máscara de escritor – sabendo que outras máscaras continuam, ainda, à nossa disposição. Para ser Outro – ou, como me sugere a inspirada Rita, para vestir a máscara de Fulaninho. Para aceitar, enfim, que não existem rostos limpos, corretos e definitivos, só o dos mortos, e mesmo assim a terra os come. Nesse caso, a crítica literária fica por conta dos vermes e dos insetos.

 

EXERCÍCIO DE ADMIRAÇÃO

Crie um personagem digno de admiração e escreva um conto (de, no máximo, 3 mil caracteres com espaços) que seja, de alguma forma, seu retrato. Há, porém, uma exigência: o conto deve revelar não só os aspectos positivos e dignos de admiração do personagem, mas deve obrigatoriamente revelar também aspectos nocivos e repulsivos, que tornem relativa, e até perturbadora, essa admiração. Admiração e repúdio devem andar juntos em seu relato, sem que o paradoxo de sua coexistência num mesmo personagem seja resolvido. Mais ainda: sem que os aspectos negativos ou repulsivos destruam os aspectos positivos, que sustentam essa mesma admiração.

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2 Respostas para “Oficina de Contos – José Castello – Quinta Aula

  1. Isto me soa positivamente familiar…

    Amar ou admirar o “imperfeito” é uma da minhas especialidades recentes (risos)

    Garanto que este exercício eu tiraria de letra (hehehehhehe)

    Caprichem aí!

    WPC>

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