Diário de Campanha: Império – 1º Episódio: O Farol Abandonado

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Personagens:

Diven – Guerreiro Humano – Jogador: André

Hiev – Paladino Humano – Jogador: Vinícius

Mirana – Druida Elfa – Jogador: Renata

A vila de Saragona encontra-se em um ponto estratégico para o reino Basterk. Apesar de ter apenas 4.000 habitantes permanentes, ela recebe milhares de visitantes por mês, sendo um grande atrativo para o comércio daquela região do reino. A praça principal da cidade, berço do comércio, onde se encontram as tavernas, estalagens e lojas em geral, estava particularmente movimentada naquele fim de tarde. Três amigos, Hiev, Diven e Mirana, andavam pela rua a procura de uma boa estalagem para pernoitar. Hiev, o Paladino de Heironeus, é um tanto comedido, até demais para um paladino do deus da Justiça; sempre pensa bastante, planejando cada nuance, cada possibilidade de seu campo de ação. Diven, o Guerreiro do grupo, é o mais impulsivo; tem paixão pela batalha, sempre fazendo a frente do grupo e muitas vezes esquecendo-se de ser silencioso. Mirana, a Elfa druida, porta-se como a líder do grupo, um meio termo entre a falta de “praticidade” de Hiev, e a falta de controle de Diven.

Hiev, com sua calma e seus planos metódicos, estava tentando convencer Diven de como seria de grande valia obedecer aos planos milimetricamente planejados por ele e Mirana. Esse, com sua voz explosiva e retumbante, e suas maneiras graves, peculiares à sua pouca idade, simplesmente começou a cantarolar músicas de campanha, épicos sobre guerras antigas, e volta e meia apertava um pouco o passo para comprar uma fruta, olhar uma armadura exposta e coisas do gênero. Mirana buscava aos poucos acalmar as emoções, conciliando seus amigos.

– Parem de discutir, acabamos de chegar a uma nova cidade. Se encontrarmos um desses guardas corruptos mal encarados poderemos encontrar problemas. E não é esse tipo de atenção que buscamos. Olhe lá na frente, tem uma estalagem que parece aconchegante, Pardal Azul. Vamos lá.

– Só estava tentando, mais uma vez, explicar a esse cabeça de pedra como seria mais frutífero, e menos mortífero, andarmos juntos e de acordo com o planejado. Afinal, que adianta planejar se não seguiremos o plano?

– Você chegou ao ponto certo VIVI – gritou Diven para Hiev – pra que perder tempo planejando se nunca seguimos nada? É melhor partir logo pra ação!

– Calados os dois! – falou Mirana decidida – Olhem o que está acontecendo ali daquele lado.

Três homens altos de tez escura espancavam um homem de meia idade. Os três que batiam vestiam corseletes leves de um couro liso e bonito, com um desenho de um martelo nas costas. O que apanhava parecia ser estrangeiro. Usava vestes longas, o que sugeria ser um mago, seu cabelo era ralo, mas tinha uma barba espessa e olhos puxados. Hiev cochichou para os amigos que deveriam proteger aquele pobre senhor; enquanto isso Diven deu três passos rápidos para frente, já sacando sua espada, mas Mirana puxou-lhe pela armadura, e pediu que esperasse. Aproximou-se de um dos brutamontes e indagou-o sobre o motivo daquela briga, se é que assim poderia ser chamado aquele espancamento.

O homem não se virou, simplesmente deu um safanão com o braço direito, que por pouco não lhe acertou o rosto. “Vá embora antes que eu veja seu rosto, pois se quando eu me virar ainda estiver aí, não haverá perdão.”

– Eu não vou embora. Não enquanto você não me der uma boa razão para este homem merecer tamanho castigo.

Os três homens pararam o linchamento. “Você sabe com quem está falando Elfa?” – gritou um deles, o mais distante – “nós somos a irmandade do martelo, é melhor vocês darem o fora daqui antes que me irrite mais!”

Diven tomou a frente da amiga: “Vocês não devem ser muita coisa, por que esse seu amigo – apontou o primeiro com o dedo – acabou de dizer que se visse o rosto dela não haveria escapatória.”

O homem deu um grito enquanto levantava maça. Diven foi mais rápido, dando um empurrão em Mirana, que a fez recuar quase dois metros, e aparou o golpe do gigante com sua própria espada. Hiev já estava a postos e acertou o segundo com seu martelo. Mirana conjurou várias plantas na área de batalha: simples palavras fizeram germinar vários tipos de arbustos vivos sob os pés dos gigantes, e dois deles tiveram suas pernas aprisionadas, caindo sem equilíbrio. Hiev e Diven aproveitaram a situação e deram cada um dois chutes nos homens caídos, para que ficassem desacordados.

A batalha durou pouco mais que cinco segundos, mas atraiu a atenção de dezenas de curiosos. Hiev correu em direção ao velho estrangeiro, que estava desmaiado, e curou alguns de seus ferimentos com um toque iluminado. Alguns segundos e o homem voltou a si, tateando um pouco no chão. “O que aconteceu?”

Com algumas palavras Hiev explicou o que ocorrera. O homem olhou para seus algozes caídos e desmaiados. “Pelo que pude entender esses homens fazem parte de uma irmandade poderosa daqui da cidade. Agora que entramos em confronto com eles o melhor que fazemos é sair daqui o mais rápido possível; comprei uma casa na colina depois do bosque dos coelhos. Vamos para lá, para que eu possa agradecer melhor a ajuda que me prestaram.”

Hiev queria pensar na melhor das opções, mas Mirana decidiu pelo grupo. Logo a polícia iria chegar, e como eles não são da cidade iria sobrar para eles, além, é claro, de já terem conseguido um inimigo de poder desconhecido, a Irmandade do Martelo. Diven, como sempre, tomou a dianteira, e começou a fazer algumas perguntas ao desconhecido: “De onde você é? Você viaja sozinho? Chegou à cidade a quanto tempo?”. O mago, que se dizia chamar Mohat, respondia, mas bem vagamente. “Um reino longínquo lá para o leste… A missão que me fez viajar para tão longe não me dava opção para pedir ajuda, ou por outras pessoas em risco… Estou aqui já há tempo de mais…” Hiev e Mirana iam atrás discutindo sobre o quão perigoso era fazer aquele caminho com um desconhecido, e temiam pelo que  lhes poderia ser revelado.

Nesse ritmo caminharam por quase duas horas; passaram pelo bosque dos coelhos e chegaram a uma clareira com algumas bananeiras e uma choupana velha, caindo aos pedaços. Entraram. Hiev se sentou, escorado em uma coluna de madeira, Mirana ficou da porta e começou a dar assovios agudos, parecendo uivos, e logo depois um lobo de barriga branca, e costas cinzentas chegou. Diven correu às bananeiras e trouxe alguns cachos para a mesa, que quase desmontou com o peso das frutas. O mago assistiu o grupo enquanto eles se acomodavam, depois puxou um banco carcomido, e começou a falar.

– Sou de um país distante chamado Handívia. Sou professor em uma escola, estudo Astrologia, e através desse estudo consigo canalizar energia suficiente para fazer o que vocês chamam de magia. Apesar de não ser um grande mágico, minhas pesquisas avançaram por caminhos antes estreitos e sem explicação, o que me deu certa notoriedade em minha cidade. Este sou eu. Lavari Mohat. Vim a esse país em uma missão muito especial; fui incumbido de trazer para certa pessoa um artefato poderoso, sem o qual muitas coisas malignas iram se concretizar. Quando o artefato foi a mim entregue (eu na verdade não sei bem o que é realmente esse artefato, visto que eu recebi apenas um baú vermelho selado magicamente), eu decidi que era muito perigoso andar com tal item pelas ruas, desertos e florestas; claro que não temia por minha saúde, mas pela realização da missão. Por isso resolvi encaixotá-lo, escondendo-o de forma a parecer uma mercadoria sem nada de especial, e mandei para cá em um navio mercante de um velho conhecido. É aí que começa o meu drama, e a causa de minha total infelicidade: o navio não chegou. Já era para ter ancorado em Saragona há dois dias. Algo aconteceu com ele e com minha preciosa carga. Por isso que os trouxe aqui. Quero contratá-los para fazer o caminho reverso do barco e conseguir notícias suas e da minha mercadoria… Esse – apontou para o teto e paredes da barraca – é o ponto escolhido para que eu entregue o artefato, e isso será amanhã à noite, por isso não posso ir com vocês; Se por algum motivo o campeão, a quem é destinado o item, chegar aqui e não me encontrar, tudo poderá está perdido. Conto com vocês…

Hiev, Mirana e Diven se olharam. Cada um experimentou um tipo diferente de emoção naquele momento. Hiev, apesar de, logicamente, não sentir medo ou coisa assim, achou toda essa missão muito rápida e desesperada. Não teriam tempo de planejar, na verdade não teriam nem como tentar, pois de fato não sabiam onde o navio se encontrava. Mirana olhou para Lavari; Toda a história estava muito bonita e bem contada para um homem que deveria estar tão desesperado. Ele com certeza lhes estava escondendo algo. Diven sentiu seus olhos brilharem. Até que enfim uma aventura lhes era oferecida, o motivo de todas as suas viagens por hora estava dando resultados.

– E qual é o preço que você estará pagando para que cumpramos a missão? – Perguntou a Druida.

– Infelizmente grande parte dos meus recursos já foi gasta, ou roubada, no meu percurso, pois essa não foi a primeira vez que tive problemas quanto à minha missão; muitos são os que querem o artefato… Então só posso pagar 100 moedas de ouro para cada um. Claro, depois que o artefato já estiver aqui.

– Bem, mas queremos parte do dinheiro agora – disse Hiev – para que possamos custear nossa viagem.

– Infelizmente não posso pagar, já que assim fico sem garantias de que vocês vão mesmo solucionar meu problema, ou vão simplesmente fugir com o pagamento, são estrangeiros, logo não teria como encontrá-los caso decidissem ir embora.

– Vamos logo, antes do dia nascer estaremos de volta e com o baú nas mãos – disse Diven, que já estava com a mochila de viagens nas costas recheada com bananas e outros alimentos que encontrou na casa.

O grupo partiu logo depois de ter chegado. A noite já estava para cair, mas eles tinham esperanças de chegar ao farol da cidade, onde pegariam boas informações – ao menos esperavam por isso – e passar a noite por lá. O farol ficava a seis milhas de Saragona, em um ponto da praia de trajeto perigoso para os navios, dada a grande quantidade de recifes.

A viagem, de volta pela cidade, e depois da cidade para o farol, se passou sem acontecimentos dignos de nota. Quando estavam já a menos de duzentos metros do farol Diven começou a andar mais a frente do grupo. Hiev chamou-o algumas vezes, em vão, e, segundos depois, ouviu algo se mexer atrás dos arbustos. Parou um pouco, olhou, e com o pensamento de que deveria ser um animal recomeçou a andar. Não demorou muito para que um assobio agudo cortasse o ar, e Hiev sentisse um forte dor em suas costas. Uma pequena seta de besta lhe acertou. O grupo ficou em alerta, olhos no arbusto, o mesmo que segundos atrás Hiev examinara. Diven percebeu que algo estava acontecendo lá atrás, e voltou correndo para junto dos amigos. Outra seta cortou o ar, agora Mirana foi o alvo. Diven correu por trás do arbusto, Hiev foi pelo outro lado, e Mirana ficou para trás, preparando-se para lançar alguma magia.

Diven deu de cara com dois monstros. Ele nunca vira algo daquele tipo, eram humanóides, com um focinho que lembrava um bico arredondado. Seus longos e finos braços terminavam em duas garras afiadas, e seus pés lembravam os de um rato. Atrás deles estavam quatro homens-sapos, habitantes comuns dos pântanos próximos ao farol, cada um deles armados com uma besta leve.

A batalha foi rápida e não saiu em nenhum momento do controle do grupo; apesar daqueles monstros serem traiçoeiros, Diven derrubou o primeiro com um só golpe, e Hiev o segundo logo depois, com seu martelo de combate. Enquanto isso Mirana correu pelos lados, acertando um dos homens-sapos antes que este fosse capaz de atirar com a besta. Dos três que sobraram, um conseguiu correr, embora tenha sido alvejado por uma bala de funda de Mirana, e os outros dois receberam os castigos da Espada de Diven e do Martelo de Hiev. Nenhum deles carregava qualquer tesouro ou armadura, e suas armas eram enferrujadas e arcaicas. Diven correu atrás do fugitivo, que foi em direção ao farol, fazendo curvas pelos arbustos, tentando, claramente, despistar o guerreiro. A perseguição acabou quando o homem-sapo entrou na torre: um seta de besta, vinda de cima do farol, acertou o braço esquerdo de Diven, rendendo-lhe um ferimento profundo. Ele recuou para perto de Hiev e Mirana.

O farol estava escuro. “Com certeza esta tomado pelos homens-sapos. Devemos planejar com invadir a torre, visto que a família que cuida do farol pode estar em perigo, reféns talvez.” Hiev temia pela segurança do faroleiro e sua família. Diven informou que agora teria ao menos dois homens-sapos com bestas atirando de cima. Mirana dessa vez tomou a dianteira, dando a volta no farol, buscando cobertura nos arbustos e na escuridão da noite, apesar de que ela tinha quase certeza que seus inimigos podiam enxergar no escuro. Hiev e Diven seguiram-na.

Chegando do lado de trás do farol ela recostou-se furtivamente em sua parede de pedra, e fez sinal que eles deveriam se esgueirar desta forma para alcançar a entrada do outro lado. Diven tomou a frente, que era seu lugar por costume, e deu a volta rapidamente. Confiava mais em seus instintos do que no planejamento e no silêncio. Assim que alcançou a porta, entrou com ligeireza, e no primeiro passo que deu para dentro da sala, tropeçou em uma corda que soltou um tronco de madeira amarrado acima da porta, como um pêndulo, que acertou em cheio o seu tórax. Hiev e Mirana correram ao ouvir a pancada, e assim que chegaram à porta viram Diven caído para um lado, e o tronco balançando no meio do salão. Fora o tronco e Diven caído, a única coisa na sala era uma escada vertical, que dava acesso à cobertura, onde ficava a lâmpada de óleo do farol. Mirana fez sinal para que Hiev subisse, que ela cuidaria de Diven.

Hiev se pôs a subir pela escada; os dois homens-sapos tentavam acertá-lo na subida com suas bestas, mas Mirana conjurou uma magia de brilho que ofuscou os atacantes, e Hiev subiu os sete metros de escada, alcançando o teto. Diven bebeu uma poção de cura, e correu para cima, seguido por Mirana. Quando chegaram em cima Hiev já havia derrubado um dos inimigos, estando bastante ferido. Mirana e Diven atacaram ao mesmo tempo matando o último dos homens sapos.

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