Maria José

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

 O sol ainda não havia aparecido completamente e já o aroma do queijo, do cuscuz, café, bolo de cenoura e pão francês preenchiam a cozinha, a sala, os quartos, o banheiro, despertando a fome do homem que ali se barbeia.

Mãos ágeis espalham talheres e louças sobre a mesa, arrumam um canto da toalha que se dobrou, colocam os ovos fritos em um prato, tiram o leite da geladeira, abrem o pote de iogurte. Enquanto executa todas essas tarefas com maestria reforça o chamado diário:

– Olha a hora!

Quase imediatamente dois rostos sonolentos, acompanhados de corpos com movimentos canhestros aparecem. As mesmas mãos que segundos antes arrumaram a mesa, agora, com ainda mais talento, consertam uma gola de camisa, um cabelo mal penteado, fecham uma mochila, tiram a remela de um olho.

Como um maestro, a mãe vai servindo cada filho. Iogurte para o menor, cuscuz para o maior, um pão com geleia, uma admoestação para os pequenos comerem, pois precisam ficar fortes, alguns passos até o banheiro, para entregar a toalha ao esposo, que já a chama impaciente. Uma pequena pausa para admirar o corpo nu do seu homem, o rápido regresso à cozinha, onde um acidente interrompeu a refeição apressada das crianças.

Dois pratos no chão, a toalha manchada, iogurte derramado sobre a mesa e o pequeno Lucas com cara de assustado, meio corpo em cima da mesa, numa tentativa fracassada de pegar mais um pouco de iogurte. A farda toda suja.

A mãe para. Respira fundo e não titubeia.

– Calma, meu doce. Tudo bem. Mamãe vai pegar outra farda. Venha ao banheiro para eu limpar você.

Alguns minutos e o silêncio. Em todo aquele apartamento só um barulho aos poucos começa a ganhar forma, um barulho líquido, a água que corre pelas mãos da mulher. Água e mãos que lavam pratos, panelas, talheres, calcinhas, cuecas, camisas, banheiro, sandálias, tênis. Mãos que coçam a testa, que sua. Suor que chega à boca, que canta uma música que fala de um milagre, de ouvir a voz do pastor. E seus ouvidos captam o som do telefone.

Pela primeira vez no dia seu semblante se tornou carregado, sua calma desvaneceu. Sabia quem era.

Deixou tocar até desligar. E assim outra vez e outra e outra e por quinze minutos mais. Quando já se encontrava no limite da raiva – ela havia deixado tocar todo aquele tempo exatamente com esse propósito – resolveu atender:

– Oi.

– Como está, filha? – a voz no outro lado era resignada, frágil, como se saísse a muito custo.

– O que você quer? – o tom frio contrastava de tal forma com a outra voz que parecia pertencer a outro diálogo.

Do outro lado, uma sucessão de justificativas e desculpas, uma história contada e recontada, cada vez ganhando mais detalhes atenuantes. Perdoe-me, desculpe-me, releve, reconsidere, sou sua mãe, não mereço, tudo isso acompanhado de lembranças de infância, de tempos difíceis mas felizes, de nove meses de gestação, e de palavras que, de tanto utilizadas, perderam todo o sentido, ao menos para os ouvidos do outro lado da linha. Por fim, já cansada e se sentindo derrotada,

terminou o diálogo:

– Eu sou sua mãe. Acredito que você vai me perdoar e voltar a me ver.

O telefone foi colocado no gancho e não tardou para que água e mãos voltassem a se encontrar, diligentes, tendo como fundo musical a mesma canção sobre ouvir milagres.

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3 Respostas para “Maria José

  1. No âmbito formal, o que mais apreciei neste texto foi como a progressão emociona do mesmo é construir a partir de elipses descritivas, que é algo que particularmente me encanta. Costumo escrever assim de vez em quando…

    No âmbito conteudústico, achei peculiar o fato de a protagonista ser a mãe, de ela ser a personagem que mais apoiamos, de quem estamos ao lado, mas o homem que se barbeia e cujo corpo nu é contemplado por ela rouba a atenção espectatorial de uma forma que revela muito mais sobre como ainda são divididos os papéis sociais (com base no sexo das pessoas) hoje em dia. Fiquei pensando nisso hoje de manhã, coincidentemente, enquanto minha mãe se desculpava comigo por não ter feito o chá de hortelã que eu pedi e ter posto suco de jenipapo no lugar. Quase que tive que gritar: “Rosane, tu és minha mãe, não minha serva ou escrava”. Ela riu, como se tivesse compreendido, mas ainda se desculpava, como se tivesse feito algo errado… E eu, emocionado. Minha mãe, minha mãe…

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  2. Uma das lições dessa oficina fala da arte do engano que é a literatura. Esconder, ocultar, mostrar pouco, “enganar” o leitor, conduzi-lo por uma via enquanto ele pensa estar seguindo outra.
    Estou praticando, praticando mesmo.

  3. Esse exercício da oficina foi, até agora, um dos mais interessantes. A personagem principal, e seus coadjuvantes, nos trazem algumas recordações, vários momentos e pessoas. Orgulho, ódio, rancor, inveja, ressentimento (um dos mais perigosos)… sentimentos que são semeados com um certo “prazer”, mas que só nos deixam enxergar a realidade tarde de mais… quando não há mais volta.

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