Oficina de Contos – José Castello – Sétima Aula

 Na sétima aula de sua Oficina Literária, José Castello parte de dois dos mais importantes contos da literatura brasileira para tratar de qualidades essenciais ao escritor: estabelecer e dominar ambigüidades.

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Parto hoje de dois dos contos mais importantes da literatura brasileira na segunda metade do século 20. Falo de “Feliz ano novo”, de José Rubem Fonseca, que está no livro homônimo de 1975. Relato atordoante que, para bem e para o mal, marcou um grande número dos contistas surgidos a partir dos anos 70. E de “Feliz aniversário”, conto de Clarice Lispector incluído em Laços de família, livro de 1960. Um dos mais brutais e perturbadores relatos escritos por Clarice.

Dois contos geniais, duas visões divergentes a respeito da felicidade. E duas visões antagônicas, mas igualmente radicais, a respeito da arte do conto e da própria literatura. Duas provas indiscutíveis de que, em literatura, quanto mais se diverge da norma, quanto mais o escritor se desvia e “erra”, mais forte a escrita é. A contraposição entre eles, que venho experimentar nesta aula, abre uma fenda pela qual podemos vislumbrar uma infinidade de caminhos. Quebra nossas certezas a respeito do que é o literário, lança-nos no terreno da dúvida e da suspeita – instaura, enfim, a literatura.

Rubem Fonseca escreveu “Feliz ano novo” nos anos mais tortuosos da ditadura militar e do espectro, por ela criado, de um Brasil Grande. Seu conto tem uma estrutura fotográfica, senão cinematográfica, do submundo carioca. É duro, grosseiro, brutal, desagradável, mal escrito até – e é desses elementos difíceis, supostamente negativos, que a grandeza do relato surge.

Noite de reveillon, as famílias se reúnem para a festa, vestem suas melhores roupas, empanturram-se de assados e doces, dançam uma alegria que se avizinha à hipocrisia e também à depressão. “Travestem-se” com roupas que estão, provavelmente, acima de suas posses e de sua realidade. Fantasiam-se. O Ano Novo, na verdade uma simples mudança no calendário, não passa de uma das mais fortes fantasias modernas a respeito da felicidade.

No Brasil da ditadura, país dividido entre o Bem e o Mal, os que se deliciam com a riqueza nada querem saber a respeito dos que resistem na miséria. Dois mundos, dois Brasis. Ignorando esse abismo, ultrapassando-o, Rubem Fonseca transporta para a literatura os marginais, assaltantes, desviantes, homens que nada têm a perder, porque nada ganharam do milagre brasileiro.

“Feliz ano novo” é narrado de modo seco, realista, direto. Diálogos sem meias palavras, frases rápidas e mal estruturadas, clichês, palavrões, desespero – a linguagem chula e inculta dos derrotados. A ação é veloz, as decisões impulsivas, os atos impensados. Os parágrafos curtos indicam um tipo de respiração quase animal, da qual o pensamento parece excluído. As respostas e idéias surgem, sempre, sob a pressão do imediato. Não existem vôos, meditações, reflexões, mediações. Tudo é muito duro e objetivo. E a leitura nos atinge como um soco.

Até que, em um carro roubado, os marginais chegam a São Conrado, um bairro de grandes mansões. Mascarados, com meias femininas enfiadas no rosto, eles invadem uma festa. A partir daí, Rubem Fonseca se detém no relato quase cirúrgico da violência. E nos transporta para o interior do mal. Não só violência física, mas psicológica, moral, sexual. O relato do assalto à mansão é feito em palavras secas. Ação, pura ação, sem nada de muito sensacional, a não ser a força atordoante das pequenas violências. Sim, há morte, brutal, mas tudo se iguala, de certo modo, aos rituais de um teatro pragmático – tão pragmático quanto o dos homens que jogam na Bolsa, ou negociam nas agências bancárias.

Os assaltantes têm tudo o que querem. Felizes, retornam ao morro. Bebida e comida roubadas são dispostas sobre uma mesa. O conto termina no momento em que eles, imitando suas vítimas, brindam um “feliz ano novo”. Em que experimentam uma felicidade roubada. Sem divagações, sem o desejo de dar lições, Rubem Fonseca retrata uma felicidade que é ambígua e confusa. Felicidade que carrega a morte e, também, a infelicidade.

Já em “Feliz aniversário”, o conto genial de Clarice, a infelicidade é a matéria secreta que perturba e lateja na felicidade de uma festinha de 89 anos. A família, vinda do subúrbio, mas também de Ipanema, chega aos poucos a Copacabana para a festa de D. Anita, a quase nonagenária. Cadeiras dispostas ao longo das paredes, uma mesa típica de festa de família, guardanapos coloridos, balões, groselhas e alusões ao “Happy Birthday”.

Logo depois do almoço, a aniversariante é encarcerada em seu vestido de festa, com presilha, broche e um odor forte de água de colônia. Em contraste com todas as manifestações de carinho, admiração, afeto que recebe, a velha se conserva em silêncio. Silêncio enigmático e ameaçador. A barulheira de filhos e netos não a perturba. Vista de fora, é só uma velha feliz, que se aproxima dos noventa, ainda inteira, cercada dos descendentes queridos que celebram sua longevidade, protegida entre os seus.

No fundo, a velha despreza os seres opacos, azedos, infelizes que gerou. Sujeitos treinados só para macaquear a felicidade, enquanto sofrem por dentro sem nem mesmo perceber que sofrem. Seres que não suportam o pensamento, que lidam mal com os sentimentos e para quem a vida nada mais é que a sustentação de um script. Até que, para expulsar todo o nojo que carrega dentro de si, num impulso, como um rapazola tolo, a velha cospe com força no chão. Cospe sua indignação, seu ódio, todos os sentimentos que, por cansaço, por tédio, já não transforma mais em palavras. Cospe para, assim, falar. Depois, muito serene, pede um copo de vinho e reage dura aos que argumentam que o álcool pode não ser saudável para uma “vovozinha”.

As reações violentas da velha – como a ação ríspida dos assaltantes no conto de Rubem Fonseca – interrompem antecipadamente a festa. O ritual ainda se estende um pouco mais, os atores insistem e se esforçam para se ater ao script dos aniversários e sustentar uma felicidade que já foi escandalosamente denunciada. Felicidade que – como um bolo mal batido – desandou. Os filhos, que quase nunca se vêem ou se falam, apressam-se nas despedidas. Um deles presenteia a velha com um doloroso e irônico “até o ano que vem”.

Ao contrário do conto de Rubem Fonseca, a festa não foi invadida por marginais, não foi tomada de assalto, ou destruída por forças violentas despachadas desde o exterior. Ao contrário: é de dentro da velha, é de seu interior murcho, de seu universo psicológico rangente e cheio de rugas, que o mal surge. O mal não pode aqui ser atribuído a agentes estrangeiros, não pode ser “sociologizado”, não pode ser explicado por essa ou aquela teoria. Não, a velha, pobre e deprimida velha, ela mesma o carrega. Todos o carregamos, só que o conservamos sob certo controle, disfarçado em educação, em serenidade e, até, em alguma felicidade. Mas, em algum momento, sem que possamos perceber que ele se aproxima e nos ameaça, a máscara se racha e então explode. Explode quase numa reação animal, como a cusparada da velha. E aí não podemos culpar os outros, ou nos apegar a explicações externas, temos que nos ver com nós mesmos.

São duas histórias que tratam do mal. Na primeira, “Feliz ano novo”, o mal vem de fora, é uma agressão externa, que nos invade, saqueia, paralisa, mata. Não é algo que temos, mas algo de que sofremos. Algo que nos contamina. Na segunda história, “Feliz aniversário”, ao contrário, ele vem de dentro, vem de onde menos se espera – do coração piedoso e venerável da velha aniversariante. Vem exatamente de onde não deveria estar.

Contudo, nenhum dos dois contos nos oferece lições de moral. Nenhum dos dois conclui, ou nos leva a concluir isso ou aquilo. Rubem Fonseca mostra a violência e a fúria dos miseráveis que invadem a festa, mas mostra também a futilidade, a irrealidade, a soberba de suas “vítimas”. De modo que, ao final do relato, quase simpatizamos com os invasores que, em torno da mesa de Dona Candinha, se preparam para devorar sua ceia roubada. Mas também não chegamos a ter simpatia, não aderimos inteiramente a eles, porque o mal-estar causado pela leitura das páginas anteriores, repletas de violência, não permite isso. Em outras palavras: estamos diante de personagens que levam nosso bom senso a fracassar. O bom senso e as soluções prontas já não funcionam, é preciso arriscar-se a pensar e, ainda mais, arriscar-se a suportar os paradoxos.

Também a velha de Clarice Lispector, se desperta nossa simpatia pela coragem e pelo olhar crítico que despeja sobre os sentimentos burocráticos de sua família, e ainda pelo modo como se contém até que, não cabendo mais em si, transforma todas as palavras que lhe entravam na mente numa grosseira cusparada, desperta, também por isso, e pelos sentimentos duros, e pela sua burocracia interior (ao fim do relato, tudo o que se pergunta é se haverá jantar…), nossa repulsa. Ou, pelo menos, provoca em nós, leitores, uma série de sentimentos ambíguos e incompatíveis entre si.

A riqueza dos dois contos está justamente aí: eles não só não oferecerem, mas também não permitem qualquer tipo de solução. Em vez de fecharem o caminho do leitor – com uma moral, uma lição, uma teoria, uma tese – eles a rasgam, a ampliam, a libertam. Histórias breves e de aparência simples, elas nos conduzem a sentimentos paradoxais que, ao fim, só nos resta suportar. É inviável por isso mesmo qualquer tentativa de enquadrar os dois contos no velho estilo do bangue-bangue, hoje encenado em narrativas tão populares como as de Harry Potter, em que o Bem luta contra o Mal. E nas quais, no fim, um lado triunfa, enquanto o outro é esmagado. Não, o Bem não está aqui, e o Mal ali. A moral, as boas lições, as apologias e as condenações sumárias não cabem na literatura. Se nela aparecem, a estragam e a simplificam. Ou bem o escritor pode suportar a ambigüidade e o horizonte que se abre ao fim de um relato, ou é melhor que faça outra coisa.

(HÁ LINKS PARA OS DOIS CONTOS CITADOS NO MENU “CONTOS CITADOS NA OFICINA”. LEIAM PARA MELHOR APRECIAÇÃO)

EXERCÍCIO DOS PARADOXOS

Na Aula 5 propus a vocês o Exercício de Admiração, em que pedia que investissem nos aspectos supostamente “maus” do Bem. No exercício de hoje, não se trata de buscar o avesso, mas de suportar a convivência de aspectos antagônicos e, na aparência, inconciliáveis. Escrevam um relato de no máximo 3 mil caracteres em que os clichês do Bem e do Mal convivam sem se excluir. Em vez disso, que eles se confundam, se misturem, se interpenetrem e até troquem de lugar. O objetivo é chegar a um relato em que, no fim da leitura, o leitor se sinta incapaz de tomar partido, ou de tirar lição. Em que termine tão intrigado e cheio de dúvidas como no início de sua leitura. 

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3 Respostas para “Oficina de Contos – José Castello – Sétima Aula

  1. Neste exercício, Reinaldo se sairá demasiado bem – sempre achei o supracitado conto do Rubem Fonseca – um dos meus autores nacionais favoritos – a cara dele! Já pedi que ele lesse várias vezes, mas…

    O conteúdo que tu retiraste da oficina, Leonardo, está picotado, com vários trechos incompletos, principalmente quando cita a Clarice Lispector. É um ato falho “proposital”? (risos) Aliás, não li o conto dela que é tão reverenciado aqui. Depois eu vou lá e confiro a indicação superior do Menu…

    De resto, que venham os clichês dicotômicos: gosto muito deles!

    WPC>

  2. Já consertei. Aconteceu algo na colagem. Nunca tinha lido nenhum dos dois contos. Li há pouco. Lembrei-me de Festa de Família no caso do “Feliz Aniversário”, mas o conto me impressionou mesmo. Um clichê nas mãos de um gênio é sempre bom!

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