Cinquenta

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Sumiram cinquenta reais da minha carteira, disse o homem.
A esposa silenciou, não queria ser cúmplice do que aquela frase tanto repetida queria dizer. Ele se irrita, não gosta de perder dinheiro, tem boa memória, já reconstruiu todo o trajeto desde o último saque, de duzentos reais, até o momento em que percebeu que só havia cem onde deveria haver cento e cinquenta. Começou a observar a empregada, que chegara há pouco tempo. No primeiro dia ela oferecera a bolsa para ser revistada na saída. Ele dissera que não precisava, ali se confiava nas pessoas. Ela fizera de propósito, pensou.
Depois de um mês sem que nada acontecesse, nenhum dinheiro voltasse a sumir, passou a colocar iscas. Esquecia dinheiro no bolso da calça, atrás do sofá, em gavetas que seriam limpas por ela. Jamais nada de errado voltou a acontecer. Persistia, contudo, irracional, a dúvida. Deveria demiti-la, pensou. Mas o coração mole falou mais alto. Sabia que tinha três filhos pequenos, que o marido bebia, que faxinava nos dias de folga pra ganhar mais um trocado.
A mulher avisou-lhe que ia mandá-la embora, que o serviço andava porco ultimamente. Protestou. Dá uma chance, é precisada, disse. A mulher ficou com raiva, mas ouviu.
Achou que a empregada passou a olhar pra ele com indiferença depois disso.
Quem essa ladra pensa que é, perguntou-se. E criou ódio dela. Reacenderam-se as dúvidas, mas não podia dar o braço a torcer para a mulher depois da briga.
Maltratava a empregada agora, humilhava-a na frente das visitas, e ela sempre quieta. Era precisada. A mulher questionava-o. Nao quer demitir e trata a pobre assim. Tem três filhos, ele rebatia.
Se algum dia me agradecer pelo emprego, por ter evitado que ela fosse mandada embora naquela época (todos os dias ele fazia questão de lembrá-la disso) ele pararia com tudo.
Um dia ele a apanhou chorando enquanto torcia umas roupas. Perguntou o que era. Insistiu. Pediu por favor, até que teve que ameaçar mandá-la embora se não contasse.
Era o filho mais novo, que tinha se desencaminhado. Estava roubando. E agora tinha ficado de maior e ela temia que ele ficasse preso de verdade e morresse na cadeia.
Seu filho mais novo não era um molequinho chorão que não largava a chupeta e que você trouxe pra cá um dia desses, perguntou ele.
Dissera que sim, e que o tempo passa, e agora ele era metido a homem valente. Ela pediu o resto do dia de folga pra fazer um exame de lâminas. Ele negou, ofendido. Só porque ele parou para ouvi-la ela tinha que se aproveitar assim, perguntou-se.
Foi jogar tênis e se arrependeu, pensou em ligar pra casa e desculpar-se com ela, mas já estava quase na hora de ela sair. Pensou que iria tratá-la melhor dali por diante. Quem sabe dar dois dias de folga na semana seguinte, que iria viajar.
Voltando pra casa já tarde, passa no sinal verde e vê algo que o deixa intrigado. Resolve manobrar no próximo quarteirão e passar pelo mesmo local novamente para tirar aquela dúvida a limpo. Desacelera o carro, quer parar no sinal vermelho. Uma senhora se aproxima, bate no vidro, pede esmola.
Tá fazendo o que aqui, Joelma, pergunta.
Ela se atrapalha ao ver o patrão. Ele se assusta quando sente o cano frio no pescoço. Não viu o moleque chegar. A empregada dá dois passos para trás, começa a chorar.
Seu Robério… Seu Robério, balbucia, descrente.
O moleque muda a expressão, parece já conhecê-lo há muito tempo.
Vai dizer alguma coisa, um xingamento.
O sangue que espicha na sua cara interrompe a palavra pela metade.

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7 Respostas para “Cinquenta

  1. Morria de medo que este tipo de situação acontecesse comigo na infância… Minha mãe era empregada doméstica e levava a gente para dormir no emprego dela quando ficava muito tempo sem vir para casa… Um dia, meu irmão mais novo foi lá e quebrou uma privada, sem querer… Minha mãe pensou que seria despedida por causa disso… Assustamo-nos deveras, à época, mas a patroa dela entendeu…

    É isso: alguns textos mexem demais com memórias íntimas. Este é um caso!

    WPC>

  2. Recordou-me de uma forma diferente a personagem de Eça no muito bom Primo Basílio: a empregada, Juliana, e a sua terrível mania – justificada? – de perseguição. O mais interessante é que aqui as características da Juliana estão “desmontadas” na outras personagens do conto. Gostei em especial do final. E gostei também porque ficou a dúvida… E gostei ainda mais porque você foi feliz no exercício proposto. Bons e Maus…Maus e bons.

  3. O texto não me lembra nenhum momento de minha vida em especial, menos ainda me remete a ideia de algum outro romance mas me mostra uma lição de vida cuja muitas vezes ouvimos de pessoas proximas mas so com demostrações aparentemente “reais”, conseguimos entender; Respeitar o proximo e suas dificuldades de cada um seria mais que um Dever de cidadão .

  4. Para ser sincero, não gostei. Mas é pq não gosto desse tipo de enredo, muito menos do final. Abraços.

  5. Pingback: Melhores Momentos – 2011 « Catálise Crítica

  6. Final de Tarantino, meio Gregório de Matos, narrativa intrigante, instigante, linha do tempo bem articulada. Gostei. Pode ter continuação.

    • Que bom que gostou, Vinícius. 😀

      Volta e meia me arrisco nos contos, mas dei uma parada ultimamente. Muitos livros para ler e pouca disposição para parar e produzir.

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