Nadir

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Apesar de não haver nuvens no céu e o sol estar no zênite, naquele dia não era o calor – normalmente angustiante – que mais chamava a atenção de Lucas, mas o brilho, que se refletia alegre nas folhas do milho jovem, ainda à espera de mais chuva para que deixasse de ser promessa; também aparecia o reflexo nas jaqueiras, mangueiras e jabuticabeiras, distribuídas erraticamente nos pastos e nas roças de milho, feijão e abóbora.

Em sua bicicleta, o menino perdia-se contemplando aquelas paragens. Tinha certeza de que já passara do horário; àquela altura já estariam almoçando e quando chegasse ouviria mais um daqueles longos sermões da sua mãe. Mas férias, só uma vez por ano, pensou. Vale a pena. E colocou mais força nos pedais. Após uma pequena subida e uma curva à esquerda, a via estreitou-se ainda mais. De um lado, um verde e pequeno pasto com algumas cabeças de gado desfilando languidamente; do outro, os pés de milho formando oficiosas filas, dançando vivazes, hipnotizando o jovem ciclista.

Mais adiante, uma casa sem reboco e de portas abertas e um homem agachado, do lado de fora, mexendo na terra. Enquanto acelerava, Lucas acompanhava as ações daquele homem, que já levantara e rapidamente se afastava do local outrora ocupado. As pernas do menino colocavam ainda mais força a cada pedalada. O homem agora observava o buraco, de onde começava a sair fumaça. Lucas, curioso, não perdia um detalhe, e agora estava já bastante próximo da casa. Viu o homem levar as mãos aos ouvidos e eis que um grande clarão saiu daquele buraco, acompanhado de um estrondo monstruoso. O susto fez Lucas desviar um pouco a direção da bicicleta, o suficiente para que o pneu dianteiro batesse em uma raiz que invadia o caminho e, por conta da alta velocidade alcançada, desencadeasse uma série de pequenos acontecimentos que culminaram com Lucas estirado no chão, algumas lágrimas e escoriações para marcar seus últimos dias de férias.

O homem acudiu imediatamente o menino, levantou-o, perguntou se estava bem e obteve como resposta um “aham” meio envergonhado.

Oxe, menino, cê vinha virado com essa geringonça!”. O homem sentia-se culpado pela queda do garoto e queria distraí-lo.

O que aconteceu ali?”, perguntou Lucas.

O homem parou, observou o menino.

Como cê chama? Cê é daqui não, né?”, desconversou.

Lucas. Estou só passando as férias. Estou na casa da minha avó, Maria de João de Zito, conhece?”

Se conheço? Minha finada mãe, que Deus a tenha, era afilhada da irmã da sua avó.”

E o homem abriu um largo sorriso, mostrando dentes meio amarelados. Só então Lucas reparou como ele era jovem. O chapéu de palha na cabeça, uma velha camisa estampada abotoada até a metade, a calça bege, os sapatos marrons ainda mais gastos vestiam um homem baixo e magro, com a pele escurecida pelo sol, as costas arqueadas, que passavam a impressão que ele só conhecera o trabalho no campo.

E qual o seu nome, senhor?”

Antonio José Silva Santos, mas todo mundo me chama de Toinho mesmo.”

O que aconteceu ali, seu Antonio?”

Como uma compensação pelo acidente que provocara, o reservado Toinho resolveu mostrar algumas de suas faladas – mas nunca reveladas – invenções.

Venha ver, menino. Faço umas coisas curiosas aqui em casa quando não tenho o que fazer.”

Naquele dia o menino descobriu que Toinho era um homem que sabia muitas coisas. Sabia fazer um remédio para machucado feito de ervas colhidas ali mesmo, no seu quintal, misturadas a um pouco de cachaça e alguns outros ingredientes que ele manteve em segredo. Sabia fazer aparelhos de rádio que funcionavam sem pilhas, apenas com restos de materiais, ferragens e uma porção de coisas que Lucas nem sabia o que era. Mas a especialidade de Toinho mesmo era fazer bombas como aquela que causara seu acidente. O mais interessante, todavia, não era a bomba em si, mas o jeito como Toinho as fazia explodir. Havia as bombas-relógios, que demoravam desde alguns minutos até vários dias para explodir; havia as bombas acionadas pela chuva, pelo calor e aquela na qual Toinho estava ainda trabalhando: uma bomba que explodia quando em contato com a luz do sol.

Como fazia tudo isso? O homem não revelava, apenas sorria desconfiado, dizendo que um menino como Lucas, criado nas escolas da capital, iria aprender aquilo muito rapidamente.

As horas voaram rápidas e tanto Toinho quanto Lucas surpreenderam-se ao perceber que a noite já caía. Meio sem jeito, Lucas esboçou um aperto de mão e olhou demoradamente para um amigo cuja amizade duraria tão pouco tempo. Foi embora pedalando sua bicicleta – que também havia sido consertada por Toinho – enquanto a noite terminava de cobrir aquelas roças, aqueles pastos, aquela casa simples.

Muitas noites e muitos dias se passaram desde aquele encontro, mas aquele lugar permanecia quase imune às mudanças temporais. Numa noite como aquela em que Lucas e Toinho se despediram, lá continuavam as velhas cercas, os pastos – com outro gado, também cansado –, pés de milho, agora crescidos, secos, repletos de espigas à espera da colheita, a mesma via estreita, a mesma raiz, agora mais intrusa, atravessando o caminho e contra a qual, mais uma vez um pneu se chocou com violência. Dessa vez, todavia, havia um motor entre aqueles dois pneus, e a velocidade, portanto, era muito maior. Também nessa noite caiu um homem, e quem viria socorrê-lo seria um velho, de chapéu de palha na cabeça, camisa abotoada até a metade do peito, saído da mesma casa sem reboco e de parca iluminação.

A noite era escura. O barulho do acidente despertou Toinho de um sono modorrento. Lentamente levantou da cama, pegou o candeeiro, driblou os objetos que enchiam o pequeno corredor e a sala, tirou a trava da porta, puxou o ferrolho, girou a chave, abriu a porta e ficou ali parado, tentando acostumar seus olhos ao breu que tomava tudo. Apurou o ouvido e conseguiu distinguir o som do pneu da moto girando lentamente e um gemido humano. Arriscou alguns passos. Os dois sons vinham de lugares diferentes. A queda arremessou o motoqueiro longe, pensou. Seguiu os gemidos. Encontrou o homem estirado por cima das macambiras e dos arames que outrora compunham uma cerca. Com um vigor que desmentia a sua idade, arrastou com todo o cuidado que pôde o homem até a sua cama. Voltou, deu uma olhada na moto e viu que não estava obstruindo a estrada. Ao menos não provocará um novo acidente, pensou.

Toda essa ação acontecera em pouquíssimo tempo e Toinho ainda estava fechando a porta da frente para ir cuidar do ferido quando ouviu o barulho das outras motos se aproximando. Teve um pressentimento ruim. Apressou-se em fechar a porta e foi até seu quarto ver o homem, que parecia ter desmaiado. Voltou até a porta cuidadosamente, deixando o candeeiro no quarto.

As motos pararam. Conseguia perceber algumas vozes, mas não distinguia quantos havia nem o que diziam. Vão vir pra cá, pensou. E, quase correndo, foi conferir as trancas, travas e ferrolhos das duas janelas – uma na sala, outra na cozinha, no fundo da casa – e da outra porta, na cozinha, ao lado do seu quarto.

Foi até o pequeno armário na cozinha, misturou rapidamente alguns ingredientes, dentre eles um pouco de cachaça, e voltou até o homem. Examinou com o candeeiro os machucados e viu que eram muitos. Havia um braço aparentemente quebrado, muitos arranhões, um rasgão na perna provocado pelo arame e o mais preocupante: um corte bastante profundo acima da testa, que Toinho acreditava ter sido provocado por uma pancada na parte mais dura do solo. Habilmente aplicou seu unguento nos ferimentos, mantendo-se atento à ação do lado de fora. Os homens se aproximavam.

Ô de casa!”, gritou um.

Arrombe a porta logo!”, disse um, não tão baixo como desejaria.

Cala a boca”, respondeu imediatamente o outro.

O velho permaneceu em silêncio, olhando o homem, que acordou soltando um longo gemido de dor, alto o suficiente para ser ouvido por quem estivesse do lado de fora.

O homem que caiu da moto está aí dentro? Abra a porta que queremos ter uma conversa com ele.”

O homem na cama abriu os olhos e tentou dizer algo, não compreendido pelo velho.

“… aqui…”

Toinho aproximou o ouvido. A cada nova tentativa o homem parecia recobrar parte das suas forças.

Diga que não estou aqui…”

O velho, que sempre se julgara sério demais para mentir, aproximou-se cautelosamente da porta da frente, de onde vinham as vozes. Com o olhar baixo, falou, resoluto:

O homem aqui tá muito ferido, quase morre da queda. Vão pra casa. Amanhã cedo ele sai daqui direto pro hospital.”

O velho compreendera desde o princípio que a intenção daqueles homens não era nada amistosa. O acidentado fugia daquele jeito por algum bom motivo.

Abra logo a porta!”, gritou alguém.

Abra a porta ou vamos derrubar!”

Nosso problema é só com ele. Abra essa porta!”

As ameaças aumentavam do lado de fora, e o velho voltou até o homem. Sentou na cama e o fitava, como se esperasse alguma resposta. O outro ficou em silêncio.

Um baque surdo na porta. Tentavam derrubá-la. O homem ficou aterrorizado. Olhou para o velho, suplicante, mas a sua voz não saía. Percebeu, contudo, que ele permanecera calmo. Outra tentativa, igualmente infrutífera, mas a porta era resistente. Agora o velho levantara e saíra do quarto. O homem o ouviu mexer em algo de metal. Talvez procurasse alguma arma. Mas nada poderia contra eles, pensou.

Do lado de fora os homens conversavam, talvez preparassem uma nova investida.

O velho levara o candeeiro, e Lucas estava no escuro quase total. Tentava contar os caibros, as ripas, as telhas, qualquer coisa que o distraísse e fizesse esquecer por alguns segundos da enrascada em que se enfiara. Agora estou nas mãos de um velho, pensou.

Tentou se levantar. Lá fora continuava o burburinho; dentro, nem ouvia mais o velho. Então o susto, a explosão ensurdecedora. E voltaram à sua memória a bicicleta, a casa sem reboco, a tarde brilhante que passara com um jovem inventor tantos e tantos anos atrás. Era ele mesmo! Como tanta coincidência era possível?

Acho que agora eles vão embora”, disse baixinho o velho, enquanto entrava no quarto.

Lucas aproveitou a oportunidade para observá-lo. À luz bruxuleante do candeeiro, seu rosto ora trazia as marcas indeléveis da velhice sadia, ora, semioculto nas sombras, revelavam traços inconfundíveis daquele homem de pele morena que quarenta anos antes encantara um menino que ao longo da vida percorrera caminhos bem mais acidentados que aquele que os unira.

Quer assustar a gente com esse truque, infeliz da peste?”, e atiraram por três vezes na porta, que resistiu.

Assustado, Lucas sentou-se esbaforido na cama, apenas para torcer-se de dor logo em seguida. Após os tiros, os homens arremeteram com ainda mais vigor contra a porta, que começou a ceder. Ao mesmo tempo atiravam pedras e pedaços de pau nas janelas e telhas. Lucas temeu entrar em pânico. Sabia qual seria o seu destino quando eles conseguissem arrombar a porta, ferido do jeito que estava. E principiou a lamentar por ter, inconscientemente, metido o velho naquela confusão.

Toinho já havia se retirado para a sala mais uma vez e voltava novamente, desta vez com algo que parecia um rádio caseiro. Acomodou o objeto no chão e entregou um microfone velho a Lucas. Ligou o rádio, girou alguns botões e disse:

Aqui é como um telefone. Cê vai falar direto com a polícia. Peça socorro.”

Lucas, de início, ficou sem palavras. Aquilo era um telefone? E que ligava direto para a polícia? Esse velho estava maluco? Em seguida, contudo, lembrou-se do que o velho inventava naquele tempo, e, impulsionado pelos gritos e pancadas na porta, cada vez mais violentas, resolveu arriscar.

A.. Alô.”

Nem percebeu que o velho mais uma vez deixara o quarto levando o candeeiro e que estava no escuro novamente. Um grande clarão avermelhado do lado de fora e o barulho de chamas fizeram-no soltar o microfone enquanto tentava explicar à polícia onde estava. Toda a casa fora iluminada e ainda se podia perceber que do lado de fora havia uma espécie de grande fogueira.

Agora eles se assustam de verdade”, disse Toinho, sorridente – o velho vinha da sala quase correndo e pareceu a Lucas que era a primeira vez em muito tempo que o inventor sorria.

Quase imediatamente, entretanto, os ataques voltaram, cada vez mais potentes, seguidos de ameaças e imprecações. Em pouco tempo derrubariam a porta.

O velho olhou enigmaticamente para Lucas, que se perguntou se ele ainda guardava alguma carta na manga. Mais um baque na porta. As dobradiças cediam e já era possível ouvir o barulho da madeira se quebrando. Uma pancada com uma pedra e uma lasca da largura de uma mão de criança voou até o meio da sala. Pela abertura correu uma brisa fria, refrescante, que renovou aquele ar pesado e encheu de inspiração o coração do velho Toinho, que se abaixou e puxou sob a sua cama uma grande caixa branca, que colocou exatamente sob o umbral da porta do quarto.

O vento”, sussurrou, enquanto sentava-se na cama ao lado de Lucas e soprava o candeeiro.

Durante alguns minutos só o que se ouvia era a batida ritmada dos invasores. Não se via nada. Lucas não entendia bem, mas sentia-se seguro ali, prestes a ser executado, no escuro, ao lado de um velho que parecia um bruxo. Fechou os olhos. Ao seu lado, Toinho não compreendia bem o que acontecia. Foi um homem só toda a vida, fugindo de problemas, de confrontos, de relações. Não se casara. Era amigo de todos mas não tinha amigos, vivera em profunda intimidade consigo. Agora tinha a sua segurança ameaçada por um homem que não conhecia e que provavelmente tinha alguma culpa no cartório. Decidira-se por ajudá-lo, apesar de tudo, e não se arrependia. Ali, na escuridão, dedicava sua amizade a alguém que sequer conseguia ver.

O barulho da porta indo ao chão interrompeu as divagações de ambos.

Escuro dos infernos!”, disse um dos invasores.

“Cuidado! Devem estar escondidos por aí armados.”

“Alguém tem luz?”

“Não.”

“Não.”

“Não, só uma caixa de fósforo.”

“Diabo!”

E os homens decidiram avançar, munidos apenas da tênue luz de um fósforo, que toda hora se apagava, e de palavras animosas:

“Se tentar alguma coisa, velho da peste, a gente mata você!”

Pararam na frente do quarto, tentando adivinhar onde poderiam estar. Lucas tentava prender a respiração, mas tinha a impressão de que só fazia mais barulho. Quase conseguia ouvir o bater do coração dos intrusos. O velho levou as mãos aos olhos e rezou. Um dos invasores arriscou o primeiro passo, chutando a caixa branca. Num átimo, a sala, a casa, a roça, o mundo, de negro tornou-se branco, de trevas tornou-se luz. Luz que silenciou tudo, tudo clareou, tudo limpou.

Lucas estava cego e surdo. Pensou até estar morto, mas depois de um tempo começou a ouvir e mais um pouco começou a ver um vulto passeando à frente dos seus olhos.

Enquanto recuperava a visão, Lucas pensava em que tipo de homem era Toinho, um velho tão inteligente que nem dava para entender, fazendo coisas que pareciam bruxaria ou milagre. Mas um velho parado no tempo. O mesmo lugar, a mesma casa, ainda sem reboco. Lucas até pensava se não seria ainda a mesma roupa daquele dia, tantos anos antes. Quantas pessoas passaram pela vida daquele velho neste longo hiato? Era tempo suficiente para se perder na vida, refletiu Lucas, pensando em si. Teria o velho permanecido aquele tempo todo ali, oculto, escondendo-se do mundo?

Enquanto ainda viajava nesses pensamentos, começou a distinguir o vulto. Era Toinho, que já tinha amarrado os invasores e agora acendia um lampião a gás, iluminando melhor o ambiente.

Ao longe, começava-se a ouvir o barulho da sirene da polícia. O “rádio-telefone” dera resultado, e Lucas sabia bem qual seria o seu destino agora. Mas estava tranquilo. Sentia-se de novo aquele menino que se deslumbrava com as coisas e para quem o preço do reerguimento era pago com alguns arranhões e umas poucas lágrimas. Estava pronto para se levantar.

Anúncios

8 Respostas para “Nadir

  1. Te influenciaste pelo Herberto Helder em prosa? (risos)
    Texto difícil, com coesão que realmente exige arcabouço literário-simbólico-referencial por parte do leitor… Ficou mais acessível em versão narrada para jovens do Rosa Elze (risos)

    Bem maior que o habitual, aliás, em extensão. Ainda não sei como se posicionar em relação a ele, no plano avaliativo-qualitativo, mas gostei sim, mexeu comigo naquele pronunciamento, ouso dizer. É que tenho “medo” do conceito geral de LUZ… Erro hermenêutico que me persegue há tempos. Como tal, minha interpretação moral difere da tua… Umberto Eco explica (risos)

    Muito bom. Vírgula.

    WPC>

  2. Escrevi esse texto especificamente para aquele retiro lá no Rosa Elze. O meu lado missionário, evangelizador é predominante em mim, e acaba que – você mesmo pode comprovar – tudo que escrevo naturalmente (sem fazer parte de uma oficina de contos com tema e estilo pré-estabelecido) tendo um viés de conto moral. Considerando a mim próprio como munido de algum talento literário (como é difícil avaliar a si mesmo nesse quesito!), penso poder usar como instrumental para a minha missão de evangelizador histórias que escrevo.
    Resolvi, portanto, fazer a experiência neste encontro. O tema ajudava: ser luz no mundo é um tema que me é muito caro, e algo que tento ser com todas (ou quase todas, ninguém é perfeito – ainda) as minhas forças.
    Parti de um personagem real, sobre o qual já dediquei diversas reflexões mudas: um gênio cognominado “Tunino”, que mora ainda em Paripiranga e que inventa coisas tais quais descrevi no conto e que passou toda a vida só. Uma luz de potencial atômico que não brilhou para o mundo. Ao escrever o texto, tentei embuti-lo de diversas significações, algumas óbvias, considerando o público que iria ter acesso ao conto: o brilho da luz na primeira parte e a escuridão na segunda; o cair e o levantar; a salvação da emboscada vindo por meio da explosão de luz; a casa do velho iluminada por um candeeiro (luz suficiente só para ele); a falta de luz por parte dos invasores, e algumas outras. Há também referências menos óbvias: o zênite e seu oposto, o nadir; as manifestações de Deus (o barulho – ou ventania, o fogo e, finalmente, a brisa leve) nas explosões; Toinho enterrando literalmente seus talentos (mais uma passagem bíblica que me é muito, muito cara).
    Confesso que ao final da história não fiquei muito satisfeito com o desenvolvimento, em especial da segunda parte, mas resolvi arriscar e fiz a pregação com o conteúdo da história.
    Confesso que surpreendi-me com seu elogio, Wesley (você que, para mim, é um “Tunino” que, ao invés de esconder sua luz em Paripiranga, o faz no DAA). Mas esse comentário meu é por causa da ética cristã profundamente arraigada em mim que faz com que eu pense que todos temos uma obrigação com o mundo, incluindo aí usar seus talentos, e à qual você pode replicar: que obrigação tenho eu com o mundo? (isso seria assunto para uma conversa deveras interessante, penso eu :D))

    • (risos)

      O pior é que eu já estou ficando sem argumentação quando me falam sobre este “esconderijo luminoso” do DAA – risos – cobrança por minhas supostas melhoras de vida que vem se tornando cada vez mais freqüente e repetente por parte de outrem, o que me faz largar a confissão: juro que me identifiquei com “o velho que não mudou quase nada em mais de quarenta anos” e, ao contrário do que tu pregavas, eu não achei ruim esta imobilidade. Foi aí que eu desviei a interpretação “pretendida” ou “indicada”: creio que esteja me tornando francamente conformado à medida que os anos passam… E, dentro de minhas perspectivas desesperançosas de vida, não consigo achar isto ruim… Ainda! Temo me arrepender no futuro, mas, comumente, já disse, não consigo crer sequer num futuro… É complicado!

      Voltando ao plano da construção retórica, por que mantenho meu elogio: o supracitado Umberto Eco compôs um maravilhoso adágio em “Interpretação e Superintrepretação”, um dos livros que mais dizem respeito aos meus exageros hermenêuticos e pessoalistas acerca do mundo ao meu redor (risos): “além da intenção do autor e da atenção do leitor, existe algo ainda mais importante, que é a intenção do texto”. Não lembro da citação correta, mas, parafrasticamente, é isso mesmo. Ou seja, fico particularmente impressionado e satisfeito que um texto escrito com intentos bem direcionados (uma pregação juvenil) possua vida própria e, como disseste, fundamentos biográficos que emociona-nos/te/me particularmente em razão de uma dúvida/interpretação moral conflitante sobre os traços personalísticos de alguém que realmente vive e respira nalgum lugar do mundo e que vive sua vida de maneira recôndita, “escondendo a luz”, mas mostrando-se inequivocamente quando a vida urge, pois a vida urge, ah, sim, ela urge… Sem estabelecer-me aqui como previsivelmente presunçoso e/ou imodesto, tenho certeza de que escreverão algo semelhante sobre mim depois que eu não mais estiver aqui (risos melancólicos )…

      Por isso, tudo me soou tão (positivamente) pessoal: este teu texto sacia aquela clicherosa necessidade de catarse que busco em (quase?) tudo o que leio…

      WPC>

  3. Se me permite insistir no assunto, sim, meu caro, o debate rende uma excelente e mui necessária conversa para mim… Penso ainda que, se dispusermos de tempo, estenderemo-nos num diálogo mui demorado algum dia, porque, sim, penso que este seja um dos momentos que urge… Sem querer deixar entrever nada além do que a própria frase diz, penso que sim, tu me faças bem – bem religioso, dizendo mais a fundo.

    Se me permites mais um exagero confessional, outro detalhe que particulariza o teu texto (e o discurso de pregação como um todo) como muitíssimo bem-sucedido é que, para além de teus intentos interpretativos direcionados, o texto possui “aberturas” que cada um leva para sua própria vida, o faz analisar onde “erra” pessoalmente no que tange à obediência aos princípios teístas. Como tal, isto me afetou: hesitava em olhar para teu irmão (a quem acho extraordinariamente belo!) durante aquela manhã de sábado, temia mesmo olhar para ele e alimentar algum sentimento que, naquele momento, me pareceu tão errado, tão “desiluminador”… Depois que caminhamos pelo conjunto, percebi de novo que talvez minhas intenções em relação a ele não fossem “más”, mas aquela dúvida que senti me deixou perturbado por um longo tempo… Vide esboço:

    http://paracalmar.blogspot.com/2011/03/todo-e-qualquer-amor-e-bom.html

    Comentei com teu irmão, via celular, e ele brincou: “este é o efeito Leonardo”, referindo-se ao poder de tua pregação. Teimei em desafiar teu evidente poder de afetação discursiva em mim, comentando que, na verdade, tratava-se de um “efeito Reinaldo”, mas… Não cheguei a nenhuma conclusão pessoal. Ainda agora, na quinta-feira pela manhã, sinto-me positivamente perturbado, mas sem possibilidades de respostas imediatas. Há sugestões de ATOS que urgem em mim, mas não respostas definitivas sobre a malevolência ou não do que sinto. Mas creio que isto seja bom… Meus ditames religiosos prezam justamente pela manutenção da dúvida perene, uma dúvida que não impede de ter a certeza da crença. Vide Blaise Pascal, meu filósofo preferido, com quem presenteei teu irmão… Sem más “intenções”, acrescento.

    Quanto à brincadeira antitético-terminológica entre os termos NADIR e ZÊNITE, é algo que me acompanha desde a infância. Antes de saber o que os termos significavam, aliás, já os utilizava oportunamente por causa de um código de justaposição de letras que vazou no colégio em que eu estudava na época… Tive “sorte”, acho… Mais uma das bênçãos teístas que me cobrem, talvez…

    WPC>

  4. E é isso: bem vês que, se eu continuasse aqui a escrever, iria expor muito mais do que já faço em meus ‘blogs’ e confirmaria a tua especulação de que sim, texto e diversas interpretações possíveis sobre o mesmo levar-nos-ão a intensas, apaixonadas (no sentido adverbial) e mui demoradas conversas… Eis o que dá quando se ouve/lê algo com o tal do “coração aberto” que me requisitaste… Eis o que dá! Que bom (para mim), aliás…

    De resto, como costumo dizer justamente a teu irmão, “eu tento, meu querido, juro que tento”… Sim, Leonardo, eu tento! E não sei se sou potencialmente forte ou amplamente fraco ao confessar isso: tento manhã, tarde e noite. TENTO!

    Texto muito bom, mantenho, sobretudo! (e aqui instigo uma “piada interna” que teu irmão, com certeza, reconhecerá – risos)

    WPC>

  5. Parece que a catarse funcionou mesmo 😀
    Toda essa história de luz e de talentos só renderia bem numa conversa pessoal. Não me refiro apenas a um salário maior ou a uma função com mais responsabilidades fora do DAA, mas a utilizar sua capacidade “para além” (para usar o jargão acadêmico em voga) da sua produção textual prolífica e profícua.
    Quanto a o resto, que bom que o Espírito Santo o incomodou. Como falei no dia seguinte, quando utilizei “Um Velho Clichê” na minha pregação, texto que você conhece muito bem, somos todos filhos da perfeição. Tender à perfeição é normal em nós, mas esquecemo-nos disso comumente. É bom querer ser melhor e isso se manifesta por um sentimento de eterna insatisfação.
    Fica com Deus!

  6. Fiquemos com Deus…

    E sim, meu caro, esta “eterna insatisfação” é minha companheira antiga (risos). menos mal… Por isso, sobrevivo!

    Quanto ao resto, sim, sim, eternos “sins”…

    WPC>

  7. Pingback: Melhores Momentos – 2011 « Catálise Crítica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s