Oficina de Contos – José Castello – Oitava Aula

Disponível em http://www.portalliteral.com.br/oficina/oficina-de-contos

Na oitava aula da Oficina de Contos vemos que a literatura é feita mais de perguntas do que de certezas. José Castello recorre a ensaios de Ernesto Sabato para mostrar as vantagens de um caminho “inseguro” para o escritor.
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Volto aos argentinos – sempre a eles. Temos no Brasil, é claro, escritores estupendos. Mas, afora uma minoria, a maior parte deles, por uma tradição algo misteriosa, se esquiva de pensar abertamente a literatura que pratica. Existem, é evidente, as grandes exceções. Escritores como Raimundo Carrero, Autran Dourado, Silviano Santiago, João Gilberto Noll, Bernardo Carvalho, Sérgio Sant’Anna e Fernando Monteiro estão sempre a pensar, e a falar abertamente a respeito do que pensam. Tenho certeza de que esqueço de outros, e lhes devo desculpas por isso. Entre os mortos, Osman Lins, o grande romancista de Avalovara, enfrentou de frente, sempre, esse desafio. Um poeta como João Cabral nunca dele se esquivou.

A maioria, no entanto, por certo faz suas reflexões na intimidade, protegidos pelo silêncio dos escritórios e da meia-luz, em sua luta diária com a página em branco. Sem pensar sobre o que escreve ninguém consegue escrever. Mas domina entre os escritores, em geral, a idéia – incômoda – de que não devem falar a respeito do que fazem. Seria como quebrar a magia, como um mágico que revela seus truques. Essa tarefa caberia aos críticos, aos leitores especializados, aos jornalistas literários, jamais a eles. “Escritores escrevem. O que pensam, ou deixam de pensar, está em seus livros”, ouvimos com muita freqüência dizerem.

Abdicam, assim, de seu direito de interferir no debate literário. Roubam do leitor, ainda, a possibilidade de compartilhar suas reflexões. Mesmo assim, quando são entrevistados, exibem, muitas vezes, idéias fortes e originais. Contudo, em livros, ou de forma mais sistematizada, arriscam-se menos, ou quase nunca. Em seus próprios escritos literários conservam essas reflexões latentes, ou submersas. Fingem que elas não existem, que não estão ali. Só acredita nisso quem quer.

Todo romance, livro de contos, de poemas, traz em seu interior um conjunto de idéias a respeito da literatura. Todo livro é uma tomada de posição a respeito da literatura e também do mundo. Escrever é fazer escolhas e correr riscos. Daí a prática da literatura envolver perigo e, em conseqüência, despertar medo. E a verdade é que, desde o século 20, os argentinos se arriscam bem mais. Ou, pelo menos, têm menos pudor em expor e compartilhar os riscos que correm e as ameaças que enfrentam.

Entre eles, destaco o nome de Ernesto Sabato. Suas idéias estão espalhadas em muitos livros – entre eles Homens e engrenagens, lançado entre nós pela Papirus em 1993; O escritor e seus fantasmas, traduzido pela Companhia das Letras em 2003; e Antes do fim, que a mesma editora lançou em 2000. E ainda em A resistência, livro que ela planeja lançar em 2008. Mas o que mais me impressiona entre eles é Heterodoxia, ensaio de 1953, que a Papirus traduziu no Brasil em 1993.

É simples: o ensaio de Sabato é uma enfática defesa do pluralismo, da divergência, da surpresa, do anti-dogmatismo e todos esses fatores imprevistos que são decisivos no trabalho do ficcionista, seja ele romancista, ou contista. Nascido em 1911, em Buenos Aires, Ernesto Sabato fez um caminho incomum até a literatura: antes de se tornar escritor, cursou um doutorado em Física, na Universidade de La Plata. Em 1938, viajou para Paris, para trabalhar, como físico, no Laboratório Curie. Cinco anos depois, aos 34 anos de idade, tomou uma decisão súbita e grave: abandonou a ciência para se dedicar exclusivamente à literatura. Seu primeiro livro, Uno y el Universo, que marca sua estréia de escritor, é de 1945.

Cinco anos antes de publicar Heterodoxia, Sabato lançou aquele que é, até hoje, seu romance mais importante, O túnel, também já traduzido no Brasil. Heterodoxia é um livro de fragmentos. Uma coleção de notas dispersas e comentários anotados ao sabor das circunstâncias, capítulos de não mais que meia dúzia de parágrafos cada uma, que tratam de temas tão distantes quanto a bissexualidade, o medo do caos, as ansiedades, o pessimismo, a importância da simplicidade e a tradição dos romances policiais.

Aprecio, antes de tudo, a disposição de Sabato para pensar com liberdade, desordenadamente, o modo como se permite flutuar sobre as idéias, a coragem com que convoca temas difíceis e perturbadores e os enfrenta com uma postura desarmada e criativa, o espírito errático e nebuloso com que escreve seus livros. Coragem que caracteriza, em geral, o trabalho dos escritores, sempre metidos em impasses que não escolheram, lidando com idéias que surgem sem que saibam de onde, seguindo caminhos que não conseguem ver, e nem mesmo nomear.

Aprecio, portanto, a coragem que Sabato tem de interrogar, de suspeitar, de colocar em dúvida e de querer saber. Ele não está interessado em criar sistemas, em estabelecer normas ou esquemas, em ordenar ou modificar o mundo, em classificar e discriminar. Tudo isso deixou para os cientistas. Sabe que a literatura é outra coisa, que ela é uma “máquina” que se move segundo outra lógica (se é que podemos chamar de lógica…) e com outras prioridades e sentidos. Sabato luta, ao contrário, para ver o mundo de novas formas, não ortodoxas, formas inclassificáveis, que desloquem certezas, relativizem verdades, e criem mais suspeitas e perguntas que certezas e afirmações. Que tornem a vida mais maleável, mais fluida e mais livre.

“Os sistemas, como dizia Péguy, são sistemas de tranqüilidade, que amamos porque nos sentamos sobre eles”, escreve Sabato no verbete “Terror ao caos”. E prossegue: “É uma forma de vivermos tranqüilos, protegidos dos perigos e ciladas do Caos, da obscuridade, do mistério, do mais além. São bastiões contra a angústia que se instaura, mal assomamos um pouco a cabeça nessa terra pavorosa”. Homens medrosos, ele nos leva a pensar, refugiam-se em sistemas, em igrejas, em grupos políticos ortodoxos, “como crianças nas saias da mãe”. A segurança é, em suma, uma manifestação de covardia.

Daí a necessidade que os escritores têm de optar pela insegurança, o que os leva, muitas vezes, a pagar violento preço pessoal. Mas o que fazer se não for assim? Há, nessa escolha, um forte risco de perder-se, de sofrer, até de enlouquecer. Mas Sabato é taxativo e não recua: “O homem livre, o herético, tem de estar possuído de um valor quase demencial”.

Curioso o modo como Ernesto Sabato associa literatura e heresia. Doutrinas contrárias a que tipos de fé? Ele não pensa só nas crenças religiosas, ou místicas. Pensa em crenças mais “nobres”, que em geral associamos a um saber objetivo e até à ciência, como as idéias de desenvolvimento e de progresso. “A idéia do progresso, nascida do racionalismo do século 17, acostumou-nos à ilusão de que marchávamos rumo a um mundo cada vez melhor e maior: o famoso better and bigger“, escreve em “O progresso na arte”. Mas algumas perguntas, aterrorizantes, nos levam a suspeitar da idéia de progresso. O que é mais terrível, Bin Laden jogando aviões contra edifícios, ou Hitler matando judeus em fornos crematórios? Como medir as coisas abomináveis e como tirar dessas medições uma idéia de progresso?

Perguntas incômodas, de que o escritor, no entanto, não pode fugir, sob pena de não conseguir escrever. Perguntas que são a própria matéria da literatura, sua razão de ser. “Se é fácil provar que uma locomotiva é superior a uma diligência, não é tão fácil provar que nossa pintura é superior à do Renascimento”. Como ordenar a arte? Como impor uma ordem ao que, por princípio, escapa de toda ordem, e só tem força porque quebra expectativas e instala a insegurança?

Mas, adverte Sabato, não se deve confundir a mudança com o progresso. Todo cuidado com as palavras é sempre pouco. Também dos cânones devemos suspeitar. Na ciência, podemos demonstrar a superioridade das teorias de Einstein sobre as teorias de Newton. Mas como afirmar que Picasso é superior a Cézanne?

É preciso, diz Sabato, lutar contra as ilusões “fixistas” – ilusões daqueles que perseguem e valorizam o fixo. Outra coisa é decisiva na literatura: a mobilidade. E a mobilidade, para o artista, é sempre feita de perguntas. Perguntar e perguntar: eis a melhor maneira de escrever. As interrogações são a matéria da ficção – do romance, do conto, do poema.

Nos contos, é claro, elas são mais contidas e costumam ficar mais recalcadas, escondidas sob a “objetividade” da ação. Costumam… mas também isso não é uma regra, ou cânone. Ainda assim, estão sempre lá. Então, sempre que um escritor entra em crise com um escrito, não é porque lhe faltem palavras, mas porque lhe faltam perguntas. Perguntas que movimentem seu escrito, perguntas que o façam avançar, perguntas que expandam seus horizontes. Não existe melhor exercício para um escritor do que formular perguntas, ainda que elas nunca suportem respostas, ainda que permaneçam, como tempestades, a lhe ameaçar. Tempestades de perguntas – eis uma maneira, entre tantas outras, de falar da matéria da literatura.

EXERCÍCIOS DE INTERROGAÇÃO.

Escreva um conto qualquer, que não passe de 3 mil caracteres. Em meio à ação, contudo, um personagem deve tomar a palavra, assumi o papel de entrevistador, “quebrar” o ambiente ficcional e interrogar os personagens a respeito do que estão vivendo. Pode ser um diretor de teatro que interrompe um ensaio, um pai que flagra os filhos em algo proibido, um policial que surge em meio a um assalto, etc. Enfim, um personagem que assume um papel heterodoxo, faz aquilo que não está previsto, aquilo que dele não se espera, e com isso instala a crise em todos os outros personagens e na própria história que é relatada.

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Uma resposta para “Oficina de Contos – José Castello – Oitava Aula

  1. um pai que flagra os filhos em algo proibido,um pai que flagra os filhos em algo proibido, um pai que flagra os filhos em algo proibido, um pai que flagra os filhos em algo proibido…: eis uma situação que muito me interessa particularmente e que, sob teus devaneios morais clássicos, daria muito pano para manga, mas… Exercício calha de ser melhor quando escolhemos o caminho mais aparentemente difícil, né? Então, que venham as interrogações! (risos)

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