Na verdade

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Uma noite dessas a gente estava conversando sobre nada, sabe? Falando da vida dos outros, a roupa que fulaninha não sabia escolher, o jeito que sicrano educava os filhos, o ator que disse que era gay. Ríamos até. Ela estava linda, sempre a achei linda. Ela tem um jeito de olhar pra baixo e levantar o olhar, meio risonha, e depois desviar, olhando para longe, e depois voltar o olhar para você e para baixo. É um sestro, ela não percebe, mas é uma das coisas que eu mais acho bonito nela. Não sei se é insegurança, acho que não.

Ah! Voltando ao que eu estava contando, conversávamos amigavelmente, ríamos, ela bateu a mão na minha perna, e aquilo mexeu comigo. A gente já havia jantado, as crianças dormiam e a televisão estava na novela, mas nem prestávamos atenção. A mão dela em minha perna, nós dois no sofá, eu me senti como quando ainda namorávamos: sem saber o que poderia fazer a partir dali. Porque ela é previsível. Arrisquei-me e toquei a sua coxa, avançando em direção a… você sabe.

Ela estremeceu, mas não de um jeito bom, como quem espera algo, mas como quem temia. Afastou a minha mão disfarçando delicadeza. Vamos conversar, ela disse, sorrindo pra baixo. Quebrou o ciclo e evitou o meu olhar, perdeu-se na parede branca, na mancha de giz de cera perto do interruptor.

Levantou-se. A conversa havia acabado com um “vou dormir, estou cansada” e eu, abobado, furioso mesmo, olhando a última trapaça do horário nobre.

A cada dia caminhamos no sentido inverso e nos tornamos menos íntimos. Se não a visse saindo do banho a cada dia, podia jurar que não lembrava como era seu corpo nu. E não é por falta de esforço meu. Inúmeras vezes chego com rosas e sorrisos, mesmo cansado depois de um dia de labuta. Ela parece que se cabe inteira nos meninos, que há muito pouco dela e que não me sobra nada. A mãe engoliu a esposa.

Nem em palavras ela me encontra, sabe? Só me chama pelo nome, eu que só me dirijo a ela como “meu doce”, “minha flor”, “meu amor”, e ela, mesmo gotejando ternura só diz Pedro, Pedro, Pedro.

 

– Você quer com toda essa ladainha justificar o seu adultério?

 

Como se atingido por uma pedra de bodoque na garganta o homem se afasta, engasga, se ajeita no banco. Atônito, pigarreia, pensa no que responder e principia a abrir a boca, mas é interrompido.

 

– Você acha que ela já não sabe? Eu, que não sou um gênio, entendi tudo de primeira, imagine ela, que tem que suportar suas pantomimas, seu carinho com cara de troco de supermercado, seus placebos em forma de flores e sorrisos treinados. Quem você julga ser? O que veio fazer aqui? Traz algum arrependimento aí dentro ou tem a esperança de convencer a si mesmo de que tem razão, que a culpa é toda dela?

 

O homem se levanta, sem palavras. Tenta lançar um olhar de ódio através da grade, mas percebe inútil: seu interlocutor permanece impassível. Sai, de assalto. Ainda ouve algo sobre não procrastinar a mudança que dele se espera. Dois minutos se passam. Já de volta, o tom de sua fala é mais suave, contrito:

 

– Padre, perdão porque pequei e me arrependo.

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4 Respostas para “Na verdade

  1. É como se a instância narrativa do texto dissesse diretamente a mim: “Wesley, sei que este é teu tema favorito: esbalde-se!”. E eu o faço: esbaldo-me! Como eu aprecio estas sagas íntimas de pecado e arrependimento, de desejo explosivo e desejo julgado. Eis como sou por dentro, caro Leonardo: culpado! Eternamente culpado!

    Interessante no comportamento pretensamente justificativo do adúltero é que, em minha opinião, o que ele argumenta é justamente o que menos convence! A cada dia que passa, as tais “trapaças do horário nobre” obrigam-me a defender-me mais e mais enquanto um moralista consciente. É incrível como se vem legitimando abominações morais sob estes falsos pretextos defensivos… E como já imaginei esta mesma situação muitas vezes: mães ‘engolindo’ mulheres, amigos ‘engolindo’ amantes, colegas ‘engolindo’ amigos, etc., etc.. E como são espúrios estes supostos engolimentos. Como são falsos!

    Resta a minha capacidade de auto-profilaxia neste tipo de situação: literariamente, portanto, agradeço pelas preciosas dicas!

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