Oficina de Contos – José Castello – Nona Aula

Disponível em http://www.portalliteral.com.br/oficina/oficina-de-contos

Feita de fatos incompreensíveis, justaposições assustadoras e eventos enigmáticos, a boa literatura desvia da mera descrição da realidade externa e do narcisismo confessional. Com foco no enigmático Paul Auster e numa experiência pessoal, José Castello dá uma aula emocionante.
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 De onde vêm as ficções? Qual a origem das histórias que lemos com tanto prazer e tanto espanto? Minha referência, nesta Aula 9, é o escritor nova-iorquino Paul Auster. Apoio-me, em particular, em O caderno vermelho, pequeno livro de Auster não traduzido no Brasil, que leio na versão espanhola da Anagrama, com prólogo e tradução do escritor Justo Navarro.

Livro de memórias precoces, em que Paul Auster reflete sobre um tema assombroso: o papel do acaso na criação literária. Não é simples pisar nesse terreno, já que o acaso – conjunto de pequenas causas que se prendem a leis ignoradas, ou pouco conhecidas, que determinam um acontecimento – é, por definição, inacessível a qualquer tipo de reflexão. É, basicamente, aquilo sobre o que não conseguimos pensar.

Eu mesmo tive uma experiência inquietante essa semana. Anteontem, no Rio de Janeiro, onde sempre me hospedo na casa de um grande amigo, Silvio, tinha um encontro importante agendado para as quatro horas da tarde. Pouco antes das três horas, antes de fazer a barba, tomar um banho e pegar um ônibus (pois não dirijo), fui ao escritório de meu amigo para responder alguns emails.

Distraí-me e quando dei por mim, eram quase três horas da tarde. Estava inteiramente envolvido com os emails. Enquanto isso, desde uma semana antes, um amigo querido lutava, em um hospital de Curitiba, contra uma infecção misteriosa (o acaso, de alguma forma, envolve sempre o mistério, quando não é o próprio mistério). Exatamente às três horas da tarde, na hora em que eu planejara interromper os emails para me barbear, me veio a idéia súbita (e sem sentido naquele momento) de telefonar para ele que, em seu leito de hospital, conservava consigo um telefone celular.

Achei que era uma idéia descabida, porque eu iria me atrasar, e a abandonei. Com a toalha no ombro, me dirigi ao banheiro. Já estava com o rosto coberto de espuma quando me veio o pensamento de que, mesmo me atrasando um pouco, eu devia telefonar para meu amigo doente. Era um impulso sem explicação, e talvez tenha sido isso o que me levou a ceder à idéia. Telefonei – e o celular de meu amigo estava desligado. Com o temor de ter discado errado o número (o acaso envolve sempre o medo), liguei novamente, e novamente esbarrei na mensagem do celular desligado. Só então, ainda incomodado, desisti, me barbeei, tomei meu banho e desci para a rua.

Já dentro do ônibus, poucos minutos depois, meu celular tocou – e tive a sensação estranha de que, de alguma forma, eu mesmo era o autor da chamada, de que eu ligara para mim mesmo. O acaso sempre inclui essas quebras de fronteira e também a falta de clareza. Recebi então a notícia de que, meia-hora antes – muito perto do momento em que tentei falar com ele sem nenhum motivo concreto e até contra minha ansiedade para não me atrasar –, meu amigo falecera.

Parece literatura – mas de fato aconteceu. Pois é disso que também Paul Auster trata em O caderno vermelho. Situações distantes que, subitamente, se emparelham e se equivalem. Histórias desconhecidas que, de repente, embaralham e passam a formar uma única história. Coincidências, simultaneidades, a sobreposição em um mesmo espaço, ou em um mesmo momento, de coisas que se dirigiam a direções distintas, ou que transcorriam em tempos diferentes. O escritor, Paul Auster diz, é uma espécie de tradutor dos mistérios do mundo. A literatura é feita de fatos incompreensíveis, de justaposições assustadoras, de eventos enigmáticos. É disso – e não da esperança tola de descrever a realidade externa, ou do desejo narcisista de desabafar e de se confessar – que um escritor deve partir, Auster mostra.

O relato das forças erráticas que o levaram até a literatura é impressionante. Em 1960, ou 1961, relembra Justo Navarro em seu impecável prólogo, o jovem Paul, um rapaz de 13 ou 14 anos (ele nasceu em 03 de fevereiro de 1947, em Newark), participava de um acampamento de verão para garotos no norte do estado de Nova York. Caiu uma tempestade e o céu se encheu de raios, que desabavam como flechas. Assustado, o chefe do acampamento instruiu os meninos que se afastassem do bosque e das árvores, e que se refugiassem em um descampado, onde estariam mais seguros. Para isso, contudo, era preciso rastejar sob uma cerca de arame farpado.

Os meninos iam em duplas, Paul corria pelo descampado lado a lado a seu amigo Ralph. Quando chegaram à cerca, por algum motivo (o acaso novamente), Ralph passou à frente. No exato momento em que rastejava sob a cerca, um raio caiu sobre ela. O rapaz morreu eletrocutado. Foi preciso que o amigo o ultrapassasse, foi preciso que ele morresse para que Paul pudesse sobreviver e se tornar o escritor Paul Auster. Vá se entender a vida. Vá se entender a literatura!

Auster viveu muitos anos em dificuldades financeiras. Num domingo de janeiro de 1979, às oito horas da manhã, ele recebeu pelo telefone a notícia de que seu pai havia morrido. Até ali era apenas um tradutor e poeta desconhecido. O pai, porém, lhe deixou uma pequena herança, que lhe permitiu dedicar-se, por dois ou três anos, apenas à ficção. Abandonou a poesia, para a qual não tinha vocação, e passou a escrever narrativas. Tornou-se o escritor Paul Auster.

O primeiro romance de Auster, Cidade de cristal, que abre sua célebre Trilogia de Nova Iorque, surgiu de uma experiência real com o acaso. Uma noite, alguém ligou para o apartamento de Auster perguntando pela agência de detetives Pinkerton. Auster explicou que era um engano. Na noite seguinte, o telefonema se repetiu. A insistência levou Auster a se perguntar o que teria acontecido se tivesse que respondido que sim, que falava de uma agência de detetives, que era o detetive Paul Auster.

Em Cidade de cristal, um homem chamado Quinn recebe um telefonema de alguém que deseja falar com o “detetive Paul Auster”. Ocorre que, pouco tempo antes, outro desconhecido telefonara, de fato, para a casa de Paul Auster pedindo para falar com o Sr. Quinn. De um engano – de uma situação irreal e sem explicação, e invertendo situações e juntando elementos imprevistos, Auster escreveu seu primeiro livro.

O caderno vermelho é um livro (um delicado livro) que aparentemente nada ensina. Mas ensina sim, ainda que trate de algo que não suporta qualquer transmissão ou exemplo. Ensina que não é do conhecido e do cálculo que surgem as grandes narrativas; ao contrário, é do imprevisto e do inesperado, é daquilo que pega o escritor de surpresa e que ele, suportando o tranco, se arrisca a “traduzir” que a literatura vem. A literatura não explica. Traduzir não é explicar, é apenas transpor de uma língua para outra, e isso não soluciona, ou fecha, nada. Quando cria uma ficção, um escritor não decifra o acaso, não o captura, nem o resolve; tudo o que ele faz é perder o medo do acaso, enfrentá-lo para dele tirar, ainda que às cegas, alguma outra coisa – um conto, um romance, uma crônica, um poema.

O acaso e suas surpresas dominam não só a escrita de um autor, mas sua vida. Paul Auster nos mostra como esses dois aspectos, que a crítica literária de hoje costuma desligar (como se fossem duas coisas intraduzíveis, que habitam mundos diferentes, desprovidas de qualquer vínculo), mostra como eles se conectam, sim, e mais que isso: se alimentam.

Auster recorda que, no ano de 1973, quando ainda era “só” um tradutor, lhe ofereceram o trabalho de vigia em uma granja no sul da França. Vivendo em Paris, ele e sua companheira andavam bem mal das finanças, e resolveram aceitar a oferta. Julgavam que, além de ganhar algum dinheiro, teriam tempo (e atmosfera) para se dedicar a traduções, e assim completar seu orçamento.

Mudaram-se para um casarão de pedra do século 18, fronteiriço a uma região de vinhas e a um parque nacional. Mas as traduções não chegavam, e o dinheiro era cada vez mais escasso. Por acaso – de novo o acaso – receberam um dia a visita de um fotógrafo, James Sugar, da National Geographic, que viajava a trabalho pela região. Em troca de algum dinheiro, o casal o hospedou por alguns dias. Sugar logo continuou sua viagem mas, como voltava sempre àquela região, sempre se hospedava com Auster, e lhe salvava a vida com o pagamento de suas “diárias”.

Houve um dia em que sequer tinham o que comer, além de um pastel que, por distração, por levar tempo demais no forno, se convertera em um punhado de cinzas. Foi o pior dia da temporada de Auster no sul. Sugar não aparecia há muito tempo, e tinham certeza de que voltara para os Estados Unidos. Do nada, o fotógrafo ressurgiu. Levou-os a um restaurante, comeram e tomaram muitos vinhos, e tudo parecia um milagre. Era o acaso, que mais uma vez salvava Paul Auster e que, assim, o empurrava para a literatura.

Eventos da vida real, que não só o empurraram para ela, mas que se tornaram elementos cruciais da magnífica literatura de Paul Auster. Em seus livros, ele não fala de si, não se confessa, não desabafa. Ainda assim, é sempre de si que parte, de alguma forma é a si mesmo, e à sua vida, que reescreve (que traduz) quando escreve uma ficção.

Não se tira nenhuma lição de seus relatos. O acaso para Auster é uma coisa, para cada outro escritor é outra coisa, bem diferente. O que ele nos mostra de mais importante é que um escritor precisa não só saber ouvir o mundo, saber ver o mundo, saber sentir o mundo, mas precisa também saber traduzi-lo. Não se trata de reproduzir a vida real, nem de resolvê-la. Trata-se, em vez disso, de sincronizar com ela, de aproveitar seus sustos, suas incoerências e suas “loucuras” como pontos de partida, e não como pontos de chegada.

Auster não domestica o acaso. Ao contrário: faz do acaso inquietação. Quando se põe a traduzir o mundo, não é na esperança de decifrá-lo, mas a de aceitá-lo um pouco mais, que escreve. Busca sincronias, e não repetições. Ensina (se é que isso se ensina) que a literatura não tem fórmulas, que ela é apenas uma maneira de aceitar os mistérios do mundo.

EXERCÍCIO DAS SINCRONIAS

Relate, em no máximo 2 mil caracteres, uma situação surpreendente que tenha vivido. Ou que alguém tenha vivido e depois lhe tenha relatado. Em seguida, escreva um conto, de no máximo 2 mil caracteres também, que tenha essa experiência como ponto de partida. Não se trata de reproduzi-la, de solucioná-la, de explicá-la. Mas, sim, de tomá-la como ponto de partida, como trampolim para a ficção que vai escrever, para que entre as duas reste, de modo quase secreto (e quanto mais secreto, melhor), alguma sincronia.

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