Uma criatura dócil – Dostoievski

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Estava na Livraria Cultura, no Shopping Iguatemi, em Brasília, procurando um livro para meu irmão, Reinaldo, que aniversariava justamente naquele dia. Já havia comprado outro livro de presente, mas queria comprar outro. E queria Dostoievski. Ele queria “Os Possessos”, mas este está fora de catálogo, segundo me informou o vendedor.

Vi alguns livros mais conhecidos e acabei deparando-me com este “Uma Criatura Dócil”. Comprei-o por um motivo, eu confesso: é da Cosac Naify.

O fato de eu ter comprado Os Miseráveis, de Victor Hugo e três livros de Faulkner (O Som e a Fúria, para Reinaldo, presente meu e de Eduardo, Luz em Agosto e A Árvore dos Desejos) me deram a conhecer a excelência da qualidade dessa editora. “Reinaldo merece um Cosac Naify”, pensei, o que não deixa de ser uma metonímia que insulta bastante Dostoievski.

Eu nunca havia ouvido falar dessa novela do russo, e como estava com bastante tempo, li ali mesmo, antes de comprar. Já falei algumas vezes que, para mim, a literatura definitiva está toda contida em O Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoievski. É um conto perfeito, que resume tudo que eu espero das letras. Enquanto lia Uma Criatura Dócil, uma luzinha acendeu na minha mente, especialmente quando li o seguinte:

“Sou mestre na arte de falar em silêncio, passei minha vida toda conversando em silêncio e em silêncio acabei vivendo tragédias inteiras comigo mesmo.”

O livro fala muito sobre mim, sobre como eu sou naturalmente: amigo do silêncio, sem que isso signifique necessariamente uma coisa boa. Lembro que no começo do meu casamento, quando brigava com a minha esposa, eu simplesmente ficava calado, parecendo o protagonista da história, esperando que ela compreendesse tudo por ela mesma. Como eu ficava calado, eu nunca falava o que não devia, mas também não falava o que devia. E isso era uma crueldade com a minha esposa, essa sim, falante, que esperava por minhas respostas. Com o tempo, fui amadurecendo – é natural do cristão querer ser melhor, superar seus defeitos – e hoje já não pareço tanto assim com o narrador da novela.

Mas como fala forte em mim aquela citação!

P.S.: Ah!, sim! Não falo mais do enredo porque meu irmão ainda vai ler o presente.

P.P.S.: Outra coisa: a qualidade da Cosac Naify mais uma vez se comprova nesta brilhante edição.

Anúncios

6 Respostas para “Uma criatura dócil – Dostoievski

  1. Vou assumir de cara: li O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO depois que li uma resenha antiga tua, mui pessoal como eu gosto, e, caramba! Como amei este conto! Magistral, com todo o fulgor religioso/altruísta íntimo que me punge…

    O que me faz entender porque o Robert Bresson insiste tanto em filmar este gênio: além desta preciosidade que teu irmão receberá, diversas outras obras dele foram baseadas em Dostoievsky, incluindo QUATRO NOITES DE UM SONHADOR, sublime, baseado em NOITES BRANCAS. tenho filme e livro aqui comigo e re-consumo-os sempre que posso…

    WPC>

  2. Agradeci pessoalmente. Agora, agradecerei em “público”: Obrigado pelo excelente presente!
    Foram três leituras num intervalo curtíssimo de tempo. Queria fazê-lo antes de fazer algum comentário. Não esperem nada de grandioso, nem uma análise da obra, muito menos um texto sobre o enredo desse pequeno livreto. Venho apenas para escrever sobre o quanto esse livro é importante.
    A primeira palavra que pensei após fazer a leitura do conto e, consecutivamente, ler o post do Léo, foi: Mansuetude. Em seguida, uma palavra e um nome me vieram à mente: Mainha e Leonardo. Duas pessoas para mim que sintetizam esse conto de uma forma diferente.
    Leonardo colocou no comentário dele: “eu ficava calado, eu nunca falava o que não devia, mas também não falava o que devia”. Sempre acreditei – em alguns momentos – que, tanto Leonardo quanto Mainha, silenciavam em demasia. Em muitas situações eu ficava ansioso para ouvi-los fazer algum comentário a respeito da discussão instalada, da conversa sobre X tema, da “fofoca” (não gostei dessa “fofoca”) etc. Queria ouvir, apenas isso. E o melhor disso tudo – desse silêncio -, eles estavam amadurecendo. Quantos da nossa família – ou de outras – vieram para pedir alguma opinião a eles? Muitas. E como elas ficaram depois do encontro? Satisfeitas e melhores.
    Almejo ser assim. Não necessariamente um sábio; mas, no mínimo, saber falar e saber ouvir no momento certo. Aprender a ter discernimento.

  3. Sou vítima. Acho que me configuro como uma dessas pessoas que sentem a necessidade de sempre estar conversando/interagindo com alguém. E em demasia, essa atitude faz com que eu, infelizmente, acabe falando mais do que devo a certas companhias.

    Por isso que, o mais importante, como foi supracitado por Reinaldo, é nós adquirirmos esse discernimento de saber falar e ouvir no momento correto. Principalmente quando estamos interagindo com pessoas que amamos: nossos familiares, amigos, esposas ou namoradas, que muitas vezes vem até nós na esperança de ouvir um conselho, e acabamos nos silenciando.

    Para a adolescente do livro, que nem nome tem, a necessidade de interagir e conviver com o seu marido era tão grande que, mesmo com este ter acabado de declarar seu amor reprimido, acaba se suicidando, preferindo morrer do que suportar a dúvida sobre se este sentimento era realmente verdadeiro ou, a qualquer momento, tudo voltaria a como era antes: silêncio.

  4. Acabo de ler essa novela e lembro-me que seus efeitos intrigantes já tinham surtido antes mesmo de chegar ao desfecho dessa obra ímpar na literatura de Dostoiévski.
    É difícil achar personagens de personalidade altruísta nas obras de Dostoiévski, me parece que Aliócha e Míchkin são as raras exceções e esta narrativa segue nos provando isso, pois a personagem principal de A Dócil várias vezes no decorrer do texto nos deixa claro sobre a sua necessidade de companhia mesmo antes, durante e depois de um casamento.
    Não é difícil adivinhar que o casamento não daria certo, acabando por frustrar a personagem, pois o seu caráter individualista sempre esteve presente, porque sempre visou satisfazer seus desejos antes mesmo de amar a sua “companheira”, não se preocupando em momento algum com o outro que está ao seu lado.
    Acredito que a mensagem principal da obra não está no suicídio da adolescente,
    que mesmo sendo o clímax da história não nos revela mais do que o erro do narrador em confundir e não saber conciliar o amor com a necessidade de deixar a solidão em que se encontra, logo que ele começa e termina a história com as seguintes perguntas: “Como é que vou ficar sozinho?” e “Não, é sério, quando amanhã a levarem embora, o que é que vai ser de mim?” Ainda nos mostrando que se preocupa mais com o seu medo do que com o fato de sua “amada” estar morta a sua frente.
    Como diria Nietzsche: Cometemos um grande erro no amor quando amamos mais o desejo do que o desejado.

    • Relendo a minha “resenha” depois de tanto tempo, Gleuber, vejo como ela é inadequada, já que nada fala dessa brilhante novela que é Uma criatura dócil. Seu comentário me reacendeu a vontade de relê-la. O egoísmo do narrador é mesmo incrível: “Como é que vou ficar sozinho?”
      Que frase cruel!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s