Nazarin – Luis Bunuel

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Meu primeiro Buñuel. Soube por intermédio de um grande conhecedor do cinema que foi ele quem cunhou a expressão exaustivamente repetida “Ateu, graças a Deus!”. E justamente ele participou do roteiro e dirigiu esta película de 1958, que se baseia no livro de mesmo nome, escrito pelo espanhol Benito Pérez Galdós, que conta a história do Padre Nazário, que vive numa vila pobre no México, rodeado por prostitutas e por gente que depende/abusa da sua bondade. Ele é roubado o tempo todo, mas não se importa. Também não se importa de pedir comida. É um homem que reza, um homem que oferece a outra face mas que não deixa de dizer a verdade, mesmo quando sob risco físico. É um homem que aceita a difamação e até a prisão sem reclamar.

Demora muito pouco para que algumas mulheres desesperadas comecem a vê-lo como um santo, um taumaturgo, principalmente depois que a sobrinha de Beatriz, uma daquelas que se tornariam suas “discípulas” é curada após a oração do padre.

A outra seguidora é a prostituta Andara, que havia sido acolhida pelo padre depois de ter assassinado uma outra prostituta em uma briga.

Algo que me chamou a atenção no filme é um traço meio surreal. Apesar de a película aparentar contar a história de maneira trivial, aqui e ali transparecem momentos inquietadores, como o Cristo que sorri, os surtos de Beatriz e, especialmente, o momento da oração pela menina. Além disso, os personagens que cercam o padre são todos meio desequilibrados, desde Andara, que provoca o incêndio da pensão de forma tresloucada, até Beatriz, assombrada pelos erros cometidos, culminando na figura de um anão que se apaixona por Andara e promete-lhe amor eterno, mesmo tachando-a de feia.

O filme tem um ritmo (ou não-sei-o-quê) que torna o ato de assistir pesado. Não sei se é pela temática, por esses absurdos, por algumas cenas meio teatrais (o encontro quixotesco do padre com um coronel e outro padre, por exemplo), mas imagino que deva ser uma característica de Buñuel. Preciso ver outros filmes dele.

Indo para o lado pessoal, já afirmei em muitos textos e comentários do blog que o tema do martírio me é muito caro, e isso, somado à minha religiosidade fizeram com que eu assistisse ao filme de maneira totalmente parcial: não consegui evitar que, ao ver o filme, ali eu buscasse alguma “formação religiosa” para mim, de sorte que a apreciação da película enquanto obra de arte ficou um tanto prejudicada. Vou rever o filme para sanar isto.

Tenho que ressaltar, todavia, que se revelou imensamente positivo para mim o fato de que o padre Nazário é retratado como um homem integral. É uma “tentação” ao se abordar o hábito nos filmes, utilizar-se de estereótipos – o padre mulherengo, o padre orgulhoso, o padre ganancioso, o padre frustrado, o padre homossexual. Neste filme o padre é mostrado como alguém que não é estúpido, mas que escolheu, conscientemente, um caminho de fé e que vai até as últimas consequências por conta dessa escolha. Ele não é alienado, não é tolo, não é frustrado. É feliz, sabe quando dizer não, quando dizer sim, compraz-se em Deus.

Por fim, agradeço a Wesley pela indicação do filme e assevero que assistir ao filme foi uma experiência deveras proveitosa. Obrigado!

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Uma resposta para “Nazarin – Luis Bunuel

  1. De fato, começar a investigar a obra buñueliana através de sua fase mexicana (muito complexa em sua aparente trivialidade corriqueira de fatos) é árdua tarefa e, como tal, fico orgulhoso que tenhas buscado mais a “formação religiosa” que aqui confessaste do que arte em si. Era isso mesmo o que eu queria quando te passei o filme! Vindo de um ateu confesso e insistente, a dignidade extremada que o diretor confere ao personagem (como não se encantar e se entusiasmar religiosamente – no sentido mais franciscano do termo – com aquela magnífica seqüência final?), em minha opinião, supera as boas intenções que religiosos confessos e bem menos talentosos tentam imprimir em obras que, aí sim, contribuem para a retroalimentação dos estereótipos que tu destacaste. Definitivamente, NAZARÍN não é o melhor filme do diretor, mas… Enquanto estudo de personagem, de vocação, de entrega a uma crença religiosa, ele é primoroso e, como tal, todo o surrealismo discreto é bem-vindo (o porquê da discrição: acredite ou não, mas os filmes mexicanos do diretor são realizados com intuitos plenamente comerciais, popularescos mesmos. Por isso, é exemplar o que ele faz com as sutilezas do vanguardismo que ajudou a erigir na década de 1920. Simplesmente genial!)

    Transmiti um pouco de ter reassitido a este filme recentemente – por causa de ti – aqui: http://www.fotolog.com.br/pseudokane3/68330168

    E, admito, desta terceira vez que o vi, o relacionamento entre o anão (marca personalística coadjuvante registrada do diretor) e a mulher que ele tacha de feia me encantou, me seduziu, me inebriou… Ah, se fosse eu (risos)…

    Aliás, o filme só reitera a minha súplica: pegue a edição dos PENSAMENTOS do Blaise Pascal que deixei com teu irmão e veja por que eu sou tão aficcionado a este filósofo. Seu tipo de fervor religioso tem muito a ver com o que o protagonista do filme aplica neste filme. E sim, sim, tens mesmo que ver mais petardos do Luís Buñuel. Ele ativa a discussão, ele nos faz sentir mais inteligentes (risos)… Não é um polemista gratuito, é um apaixonado pela Graça, ainda que irritado com suas vertentes eclesiásticas mais institucionais. Ainda assim, porém, nada impediu que NAZARÍN recebesse um prêmio máximo do Vaticano na época em que foi lançado. Somente antecipando a excomunhão violenta que perseguiu o cineasta depois que ele realizou sua obra-prima, VIRIDIANA, este sim, pesado, mas eu deixo para te passar depois, bem depois… (risos)

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