Infância – Maksim Górki

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

Esse é o primeiro volume da trilogia autobiográfica de Maksim Górki (Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades), escritor russo que narra a vida de Aleksiei, órfão de pai, criado pelos avós analfabetos após ser “abandonado” pela sua mãe doente.

O livro acompanha o celeumático cotidiano desse pequeno garoto, num ambiente opressivo e sujo, mas, ao mesmo tempo, atulhado de afeto. O narrador personagem autor nos conta a história através dos olhos de uma criança, que, às vezes, não consegue compreender o que se passa ao seu redor. As cenas que ele assiste perpassam desde as escaramuças familiares – pela herança de parcas terras -, aos momentos íntimos, carinhosos e educativos com a sua sabia avó (sem dúvida nenhuma a personagem mais rica do livro, que cativa o garoto com sua mansuetude, religiosidade pagã e canções populares russa).

Claro que o livro não se resume a avó e seu buliçoso netinho. A narrativa do autor – com seu estilo seco e refinado – nos apresenta todo um emaranhado de personagens e suas perigosas e difíceis relações (como os dois grandes amigos de Aleksiei: o expansivo Ciganinho e o sorumbático Coisa Boa, entre outros).

Não obstante toda a riqueza que existe na obra – relacionada à construção da narrativa e da interação entre as suas personagens -, o que mais me chamou a atenção foram os momentos em que o autor, já adulto, reflete sobre a sua intimidade. Vide exemplo nos trechos abaixo, nos quais Maksim Górki (pseudônimo do autor, é bom que se frise) reflete sobre um dos vários instantes de solidão e de monotonia; ou ainda, como ele interpretava aqueles que os cercavam e como estes enriqueciam a sua vida de formas diferenciadas:

“Na monotonia interminável dos dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num rosto vazio, até um arranhão é um enfeite…” (p. 213)

“Eu me vejo na minha infância como uma colméia, aonde várias pessoas simples, insignificantes, vinham, como abelhas, trazer o mel de seu conhecimento e das reflexões sobre a vida, enriquecendo generosamente o meu espírito cada um como podia. Muitas vezes acontecia de esse mel ser sujo e amargo, mas todo conhecimento era, mesmo assim, um mel”. (p. 161)

Se a história Aleksiéi Maksímovitch Piechkóvi foi representada de forma verdadeira e sincera para nós leitores pelo escritor, isso, definitivamente, pouco me importa. O que realmente interessa a mim, por enquanto, é saber que o que foi contado me cativou e me ensinou muito. Uma história de embates, inveja, carinho, sortilégios, surras, canções e contos.

Ah, sim. E de muita sinceridade e frieza:

“- Bem Aleksiei, você não é medalhão para focar pendurado no meu pescoço, aqui não tem lugar para você, então vá ganhar o seu pão e ser gente…

E eu fui ser gente”. (p.294)

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4 Respostas para “Infância – Maksim Górki

  1. Imaginar um personagem apelidado como Coisa Boa como sorumbático só valoriza ainda mais o trecho excelente sobre o mel amargo: inclusive, sonhei que extraía mel de um ninho de baratas dia desses – e escrevi uma conclusão parecida em minha agenda pessoal: era mel? Era mel?!

    Li poucas obras russas, mas tenho uma relação pessoal com o Górki, por causa de sua reflexão pioneira sobre o cinema de outrora: ele foi um dos primeiros a se deparar com o cinematógrafo, lá mesmo no século XIX, e irritou-se com as pálidas sombras cinzas que tentaram vendê-lo como “imagens da realidade”. É uma declaração célebre esta dele, tu achas facinho, facinho por aí…

    Muito bom também o recurso de narrar o livro como se fosse uma criança, sem entender o que se passa à volta: apesar de eu particularmente não gostar muito de minha infância e de ter uma relação de inversão nostálgica com esta época de minha vida (do que sinto falta é a pureza midiática que me cercava, mas que eu não compreendia ou assimilava), PRECISO ler este livro, está em minha lista desde já. Quando eu terminar A RELIGIOSA, do Diderot, futucarei a BICEN, para ver se acho algo por lá…

    WPC>

  2. Pingback: Ganhando meu pão – Maksim Górki « Catálise Crítica

  3. Na verdade, ele não escreve como se fosse uma criança.. é uma biografia romanceada da infância do escritor… muito bem escrita! Belíssimo.

    OB.

  4. Estou na página p120/300. já adianto a os que lerem que nunca havia lido uma descrição tão linda de uma história. o livro até aqui é cheio de surpresas. Surpresas que realmente surpreendem pela maneira como foi contada. Parece que estamos lendo e vendo ao nosso lado as cenas que se passam na gélida e “fria”Russia do início do século XX. Quem ler se apaixonará.

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