VIA IOCUS

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

O jumentinho com cabeça amarela de coelho carregava sobre as suas costas magras o nazareno hihihihihi. À sua frente, duas velhas observavam de esguelha aquela cena. Cada uma, com um ramo verde na mão, aguardava ansiosa a sua vez para arremessá-los sobre o chão cimentado. Elas atiraram, numa sincronia confusa, os pequenos e retorcidos ramalhetes. Viva Jesus!, elas gritaram, e as crianças riram.

Os joelhos do jumentinho já estavam esfolados, e a sua cela macérrima arqueava-se cada vez mais sob o peso do iluminado. O jerico precisava descansar. Jesus disse: Chegamos, e ele desceu e pisou na sua sombra.

O filho do homem andava cabisbaixo levante a cabeça levante a cabeça e em círculos, até deparar-se com um homem cego de nascença. Vai curá-lo, Senhor, perguntou Pedro Pêda Pêda hihihihihihi. Sim, irei, respondeu Jesus. Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode atuar. Jesus então cuspiu no chão e fez lama com a saliva e ungiu os olhos do homem, e disse-lhe: Vai, lava-te na piscina uma poça de lama só se for. O cego foi afff vou fazer isso não, lavou-se e voltou enxergando. Viva!, gritaram as velhas, e as crianças riram novamente.

Jesus mais uma vez andou em círculos fica tonto não levante essa cabeça, até chegar o dia em que se devia imolar a páscoa. O nazareno, então, enviou Pedro e João Joanina, dizendo-lhes: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos fale mais difícil. Onde o Senhor quer que a preparemos, perguntou João já impaciente não comecem não deixe de preguiça. Quando vocês entrarem ali dentro de casa hihihihih na cidade, sair-vos-eis sair-vos-eis hihihihihih ao encontro de um homem, levando um cântaro um balde de água; segui-o até a casa em que ele entrar e batei-vos nele e fiquei-vos com a casa dele é sério por favor direis: O Mestre mandou perguntar-te onde está o aposento em que ele comerá a páscoa com os seus discípulos e se ele não quiser sem condições sem condições mesmo não espere deixe de ser besta é verdade volte a gente para agora é sério Então ele vos mostrará um grande cenáculo mobiliado; e será aí que vocês farão os preparativos. Os discípulos foram, andaram em círculos e voltaram e disseram: Está tudo pronto, Senhor. E Jesus caminhou em direção a uma mesa baixinha, pôs-se à mesa, e com ele os apóstolos, e disse-lhes: Tenho desejado essa páscoa há muito tempo, antes da minha paixão arrumou uma namoradinha foi. Os discípulos silenciaram, assim como as duas velhas e uma senhora gorda que acabara de chegar e estava escorada sob a soleira da porta vermelha. Então, após receber um cálice de Pedro um copo rosa de plástico frescura, deu graças e ergueu os braços, e disse-lhes: Tomai-o, e reparti-o entre vós não bebam não bebam isso é suco de flor. Em seguida, tomou o pão bolachão canela bolachão canela hihihihihi, deu graças, partiu-o, e disse-lhes: Isto é o meu corpo; fazei isto em memória de mim tá bom né tá bom tá quase.

pule pule para a próxima

Judas, o traidor, fez a sua escolha: atirou às feras um homem inocente. Prostrou-se diante de Satanás e deixou-se levar pela avareza, dois ingredientes que, possivelmente, torná-lo-iam arredio. O seu Mestre havia sido condenado. Sentiu-se tragado pelo remorso; chafurdou nas trinta moedas de prata; arrependido, resolveu devolver a importância. Eu pequei, disse ele aos sacerdotes. O que é que nós temos com isso? O problema é seu, retrucou o mais gordo deles. Então Judas jogou o dinheiro no chão e saiu; depois foi e se enforcou num pé de alfazema hihihihihihihi.

A paixão de Cristo se aproximava vagarosamente com a noite. O demônio ria da miséria e da condição humana do filho de Deus pule pule Crucifiquem-no! Crucifiquem-no! gritaram as velhas e a mulher gorda, até que apareceu uma nova senhora: o seu vestido caía anguloso sobre os ombros, que cobriam os seios caídos aparados pelos dois braços fortemente entrelaçados. O seu rosto era multifacetado e alvadio, como o ventre de um peixe. Ela permaneceu parada à porta por um instante, balançando o pé direito, como se estivesse a trabalhar com uma máquina de coser, e em seguida percorreu o ambiente cênico, desviou das cadeiras, desejou bom dia para a senhora gorda e as duas velhas, e disse para Jesus e Judas: Quantas vezes eu vou precisar chamar para comer, em?! Tão me ouvindo, não!!! Vocês terminam essa brincadeira de tarde. Vamos, vamos!

Afff madinha tá terminando madinha é verdade mainha já está acabando nós vamos matar Jesus agora menino tenha respeito pelo Senhor vocês não estão vendo que a sua avó e quinquinha já estão impacientes vamos para casa agora


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4 Respostas para “VIA IOCUS

  1. (FIRST :P)

    Mas rapaz, que gênero de texto é esse cara…kkkkkk
    Está muito interessante. Deu vontade de ler de novo para saber se me identifico mais com a infância de vocês. A leitura desta passagem realmente é algo que marcou muita gente, mas isso não impede que nós expressemos as mais diversificadas e inocentes interpretações e demonstrações artísticas (rsrsrsrs) desse fato presente na nossa religião e na nossa vida.

    Parabéns pelo texto Reinaldo.

  2. Teu irmão sabe que tu escreveste isto?! (risos)
    E agora? haverá espaço para este tipo de (re)invenção literária ou haverá um excomungado na família? (kkkkk)
    Divertido o texto, em alguns momentos, pareceu o tipo de coisa que eu escreveria, mas teu lastro familiar, teus traços de caráter proto-vingativo estão lá…
    Judas é sempre um tema/personagem muito delicado… Me identifico com ele, acho-o injustiçado, sei lá…

    O parágrafo sobre Pedro Pêda pêda também está divertido e polêmico, dado que este é outro personagem delicado com o qual muito me identifico…

    Admita: tu escreveste isto sabendo que eu iria gostar, né?

    WPC>

  3. Gostei demais do texto. Reinaldo conseguiu dar uma abordagem originalíssima dentro do exercício proposto, brincando ainda com “piadas internas”.
    O uso da influência de Faulkner – as inserções em itálico – foi primoroso. Deu um toque especialíssimo ao texto. O sucesso na reconstrução/criação do episódio foi tal, que é impossível tachar o texto de ofensivo religiosamente, o que demonstra o poder da literatura.
    As “velhinhas” legitimam a brincadeira, dando um quê de oficioso ao teatro dos meninos, que sequer reconhecem a sacralidade do que estão representando. Como um comentário adicional, a fusão entre o estilo garboso de Reinaldo – com seus “alvadios” e suas mesóclises quase certeiras – e as inserções das crianças (“fale mais difícil, fale mais difícil” :D) ficou espetacular.
    Gostei muito, muito mesmo.

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