O Som e a Fúria – William Faulkner

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

A vida é só um vulto, um pobre ator, que se pavoneia e choraminga num momento, sobre o palco, e depois não é mais ouvido. É uma fábula, contada por um idiota, cheia de som e de fúria, significando nada“.

Esse é o trecho inspirador, retirado da peça Macbeth, de William Shakespeare, que move a narrativa Faulkniana em O Som e a Fúria. A obra é composta por cinco partes distintas. As três primeiras são narradas em primeira pessoa pelos três personagens principais: Benjamin, o idiota de trinta e três anos; Quentin, estudante em Harvard, apaixonado pela irmã, Candace; e Jason, o indômito, racista e último descendente da enxovalhada família Compson, que teve como única herança o ódio e o nome do falecido pai. A quarta parte, agora em terceira pessoa, e, juntamente com a terceira, muito mais tragável, focaliza a velha empregada “preta”, Dilsey. E, finalmente, o livro se encerra com um genial e necessário apêndice (graças!!!), no qual a genealogia dos Compson é descrita de forma concisa.

Tentemos pensar as personagens a partir das suas falas ou de suas ações e somente isso:

Benjamin: “Então pôs-se a berrar. Berrava mais e mais, a voz cada vez mais alta, quase sem pausas para respirar. Havia mais que espanto naquele grito, havia horror; choque; uma agonia sem olhos e sem língua; pro som …” (p.310)

Quentin: “As mulheres são assim elas não adquirem conhecimento sobre as como nós elas nascem com uma fertilidade pratica de desconfiança que gera frutos de vez em quando normalmente com motivo elas têm uma afinidade pelo mal dão ao mal o que lhe falta puxa o mal para junto delas de modo instintivo como quem puxa as cobertas ao adormecer fertilizada a mente para o mal até ele cumprir se objetivo tenha este existido o não” (p.93)

Jason: “O que a senhora pretende fazer?” pergunto, empurrando a carta para ela.

“Sei que você se ressente do que eu dou a ele, ela dia…”

“O dinheiro é seu”, eu digo. Se você quiser dar todo pros pássaros, não é da minha conta.

“Ele é meu irmão”, a mãe diz. “É o último dos Bascomb. Depois que nós dois morrermos, não vai restar nenhum”.

“Vai ser terrível pra alguém, imagino” (p.218)

Não podemos esquecer da outra família que acompanha e modifica os Compson diretamente no decorrer do romance: os empregados “pretos” – Luster e T.P -, cuja matriarca, Dilsey, é testemunha ocular da degradação dos brancos. Como ela diz no final: “Vi o começo e agora vejo o fim”.

O Som e a Fúria é um livro que requer certa predisposição do leitor. Aviso logo: você não encontrará, definitivamente, leitura fácil. A narrativa, por exemplo, não é linear. A primeira parte do romance, narrada pelo “retardado”, e a segunda, pelo “incestuoso” Compson, são pensadas e desenhadas a partir do complexo “fluxo de consciência”, no qual Faulkner é mestre (e Virginia Woolf, James Joyce, Samuel Beckett, Clarice Lispector e Guimarães Rosa). Você, caro leitor, precisará, nesse momento, trabalhar como um detetive: apanhe pistas, junte fragmentos (aparentemente inúteis), monte os puzzles. Não deixe passar nada. Releia – se for preciso (e será preciso!).

Predisposição e paciência. Leiam e entendam.

P.S.: Ah, mais uma coisinha: se você for apaixonado por “finais fechados”, não leia esse livro.

P.S.: Ah, outra coisa: Obrigado Leonardo, Eduardo e Cosacnaify pelo presente

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11 Respostas para “O Som e a Fúria – William Faulkner

  1. Eu que não duvido duma linha do que tu escreveste…
    ENQUANTO AGONIZO é tão alinear e prazenteiro quanto tu descreveste aqui…
    Este homem é um gênio, ponto!

    WPC>

  2. Quando eu acabar Crime e Castigo quero que você me empreste esse, parece ser bem interessante.
    Bom texto velho!

    • O SOM E A FÙRIA…é um dos meus prediletos…complexo e “quase’ TANGÍVELna sua natureza,,,,
      É o único que li e confesso…Vou reler!!!!!
      Valeu, bju e Bom dia!!!!!

      • Muito agradecido e feliz pela sua visita, Vanessa. Espero que continue a nos dar o ar da sua graça e que possa comentar mais e mais vezes aqui no nosso “urmide” blog.

        Obrigado.

  3. Não terminei de ler, mas vim procurar algumas explicações sobre…está bem complexo. Mas gratificante ao mesmo tempo.

    • Isso define bem o que é ler Faulkner, Cristiano: complexo, mas gratificante. Termine a leitura e volte sempre ao blog!

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