Exercício da Nona Aula – Oficina Literária

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Rememorando o exercício da nona aula da Oficina Literária de José Castello:

EXERCÍCIO DAS SINCRONIAS

Relate, em no máximo 2 mil caracteres, uma situação surpreendente que tenha vivido. Ou que alguém tenha vivido e depois lhe tenha relatado. Em seguida, escreva um conto, de no máximo 2 mil caracteres também, que tenha essa experiência como ponto de partida. Não se trata de reproduzi-la, de solucioná-la, de explicá-la. Mas, sim, de tomá-la como ponto de partida, como trampolim para a ficção que vai escrever, para que entre as duas reste, de modo quase secreto (e quanto mais secreto, melhor), alguma sincronia.

 

RELATO:

Há alguns anos, convidei alguns irmãos da comunidade católica da qual faço parte, a Canção Nova, para irmos ao cinema após um final de semana inteiro de evento religioso.

Era um domingo à noite, e, apesar do cansaço, todos se alegraram com o convite, pois ir ao cinema era uma oportunidade muito rara para todos eles. Ora, dentre esses irmãos da Canção Nova, um deles estava passando por uma situação difícil: sua mãe, que morava no Mato Grosso, estava bastante doente, e, por conta especialmente do evento do qual participamos, ele não conseguira entrar em contato com a família com a frequência que desejava naquele final de semana. Ele estava bastante tenso, de sorte que aceitou o convite também como uma forma de distrair um pouco a mente. Como eu apreciava muito a sétima arte e eles confiavam no meu gosto, me incumbiram de escolher a qual filme assistir.

A escolha já estava feita em minha cabeça: Assistiríamos a Oliver Twist, de Roman Polanski, por três motivos principais: inicialmente, eu gosto muito do diretor polonês, e vê-lo diretamente no cinema constituía uma chance imperdível; em segundo lugar, gosto muito de literatura, e, a despeito de não ter lido o livro, a história do garotinho órfão sempre me atraíra; por último, o filme se encaixava bem no tipo de película que meus irmãos buscavam usualmente: o filme “de formação”, com uma mensagem moral que pudesse ser convertida em espiritual. Assim, estaríamos todos satisfeitos ao final da sessão, imaginava eu.

Compramos pipoca e víamos o filme quando, por volta da primeira meia hora de projeção meu celular vibra. Depois da terceira ou quarta tentativa saí para atender. Era alguém da comunidade, informando que a mãe daquele meu irmão havia falecido.

Completamente sem saber como proceder, entrei novamente na sala, sentei no lugar onde estava e discretamente pedi a todos que me acompanhassem.

Do lado de fora, com todos me observando, curiosos, dei a notícia.

Após o choque inicial, enquanto caminhávamos no estacionamento, rumo ao carro, aquele meu irmão, muito espirituoso, ainda com o coração muito dolorido, me diz, num sorriso tristonho: engraçado, no dia em que me torno órfão de pai e mãe, venho ao cinema justamente para ver a história de um outro órfão.

Não terminamos de ver o filme naquele dia, e eu nunca consegui vê-lo na íntegra até hoje.

 

UM MILAGRE

 Um milagre.

Era o que diziam, olhando o pequeno, que parecia alheio. Aquele curativo no cotovelo não revelava o que se passara. Uma quedinha de bicicleta, no máximo, parecia dizer a expressão um pouco culpada do menino, como quem ouvira uma ordem clara – tome cuidado! – e desobedecera.

Sentado numa cama branca e limpa, os pés balançando, a cabeça baixa, a criança aguardava. Ao seu lado, duas enfermeiras lhe ofereciam mais um pouquinho de suco, um brigadeiro, o controle remoto.

Em frente à porta, um jovem médico parecia não mais aguentar. Seus pés não paravam quietos, suas unhas estavam sendo comidas muito rapidamente, sua respiração era pesada. Ele olhava a porta, se aproximava, recuava, olhava o teto, lembrava que não tinha um Deus a quem rezar e parava o olhar no chão, hirto por alguns infinitos instantes. Seus olhos ardiam.

Um toque em seu ombro o despertou desse estado de desordem mental. Era a auxiliar, que informava que não conseguiram entrar em contato com ninguém.

– Quer que eu vá, doutor?

– Não. Estou acostumado.

Não estava. Tinha medo de entrar na sala e não conseguir falar nada, não dar as respostas.

É só um menino de dez anos, pensou, afinal. Que de pior poderia acontecer?

Por fim, com a mão levemente tremulante abriu a porta. Com um olhar pediu para as enfermeiras saírem.

Talvez o cavanhaque ou a altura do médico tivessem intimidado o menino, talvez algum augúrio, pois manteve o olhar baixo. O homem sentou-se numa cadeira próxima à cama. Ficaram um tempo em silêncio. Na TV, muda, um gato e um rato pregavam peças um no outro. O ar condicionado emitia um som grave, vibrante. O menino engoliu saliva, acomodou-se à cama. Levantou a cabeça, encarou o médico.

É agora, pensou o homem, em agonia.

– Você sabe dizer se alguém guardou minha mochila?

Desconcertado, o médico demorou uns instantes para voltar a realidade. Aquela pergunta afastava-o por enquanto da difícil obrigação, mas ele preferiria que tudo tivesse acontecido de supetão, resolvendo logo todas as pendências. Lembrou-se da mochila. Retirou-a do armário e entregou-a ao menino, que de imediato localizou a caixa dos seus óculos.

– É que eu estava dormindo, aí mamãe sempre diz pra eu guardar os óculos pra não entortar a armação.

Abriu um outro compartimento da mochila e de lá retirou um livro. Um volume grande para um menino daquela idade, pensou o médico, que, aliás, nunca havia sido um grande leitor.

– Eu vou demorar muito tempo aqui? Se for, posso terminar de ler meu livro?

O médico olhou longamente o título da obra, até que algum mecanismo em seu cérebro fê-lo, num impulso inarredável, sair correndo da sala, com as mãos nos olhos, deixando o garoto só.

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Uma resposta para “Exercício da Nona Aula – Oficina Literária

  1. Sim, é possível entender a história sem o relato acima.
    Ficou muito bem escrito e sutil essa sua pequena narrativa. Triste, muito triste. Mais triste ainda, quando associamo-la ao primeiro texto. Ela, realmente, ganha um novo sentido (mesmo continuando com o mesmo kkkkk)
    Um órfão que não sabe ainda que o é.

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