Em família

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

A cena era de tal modo deprimente que um desavisado que tivesse a oportunidade de observar aquele quadro estático pensaria se tratar de uma peça de teatro. No centro da sala, um caixão envernizado, sem a parte superior, expunha o corpo esquálido de um jovem que jamais fora bonito, e cuja expressão de indiferença demonstrava que ali não havia consciência do sofrimento que ele infligia ao seu velho pai, que já sofrera demais na vida e que merecia tudo, menos que ele, logo ele morresse.

Amontoavam-se, desajeitados, em volta do caixão, o pai e a mãe – ambos debruçados sobre o corpo do filho, os rostos escondidos entre os cotovelos –, o irmão mais velho – sentado no chão, abraçando os joelhos, num balançar insistente e inútil que marcava o ritmo da sua vida –, a irmã, numa cadeira aos pés do caixão, de costas para o irmão defunto – seus olhos estavam secos, mas ela cria sofrer mais que os outros – e, destoando do resto da família, Tiago, o caçula, que brincava com os dedos dos próprios pés, enquanto sussurrava alguma melodia inventada. Aquele quadro pouco ou nada se alterou por longos minutos, como se pairasse no ar alguma ameaça contra qualquer ação física que não respirar moderadamente.

Do lado de fora da casa, dedos silenciosos desfiavam rosários, enquanto dezenas de bocas velhas aguardavam ansiosas o momento em que poderiam voltar a entoar as ladainhas e orações que trariam algum conforto àquela desgraçada família.

O primeiro sinal de que começava a se dissipar o que quer que mantinha aquela família em torpor veio com uma coceira irresistível nas costas arqueadas do pai. Enquanto pôde, ele permaneceu imóvel, mas como é próprio de tudo o que é irresistível, sua vontade logo cedeu e ele levantou a cabeça e coçou-se com violência, aproveitando para examinar o ambiente. Fora sua a idéia daquele momento em família, e justo ele não conseguira vigiar por um instante, para poder despedir-se de seu filho como ele merecia: com oração e silêncio. Olhou o rosto do morto. Imaginou se àquela altura estaria no céu ou sua alma ainda o vigiava ali, junto ao corpo. Pediu um sinal. Esperou mesmo que se esboçasse um sorriso ou um movimento de sobrancelha. Envergonhou-se, pois não queria estar louco, apesar de não pensar ser loucura pedir um milagre. Ainda pensava no filho quando olhou cada um dos outros que lhe restaram e envergonhou-se mais uma vez, abaixando a cabeça.

A irmã ainda apanhou o olhar do pai, e teve um calafrio. Ainda não tinha coragem de contar. Aguardaria, pra ver quem iria puxar conversa. Alguém haveria pigarrear, dizer uma frase bonita, pronta. Seria suficiente. Fechou os olhos e a imagem do seu irmão morto, estirado no caixão se instalou de maneira exclusiva em sua mente. Ela preferia vê-lo em pensamento a ter que se virar e sentir aquele cheiro que emana dos mortos, aquele frio, aquele esbranquiçar da pele. Amava seu irmão, tinha certeza disso, mesmo não tendo ainda conseguido chorar. Olhou de soslaio o caixão tão de mau gosto que seu pai escolhera. Foi a gota d’água. Seu irmão merecia mais do que economia numa hora dessas. Ninguém protestara. Sua mãe não queria enfrentar o marido. Já seus irmãos, esses se importavam pouco. E ela não conseguia dialogar com mais ninguém que não fosse seu irmão, aquele mesmo que agora ela se recusava a olhar. A luz daquela casa se apagara. Só lhe restava ir embora, pra longe daquele povo. Mas ainda não conseguia dizer.

Ir-me embora dessa casa, construir outra, pensou a mãe. Nem que alugassem do outro lado da rua, mas ali não moraria mais. Dali por diante, não importa quantos anos de sofrimento Deus ainda lhe desse, nunca mais deixaria de enxergar o seu tesouro ali na sala, pronto pra ser enterrado. Toda comida que fizesse naquela cozinha velha seria pro seu filho, toda vez que arrumasse a cama iria procurar a sandália dele pra desvirar, pois nunca tinha visto um menino tão danado pra deixar sandália virada, não sabe que faz mal? O burburinho lá fora a incomodava. Queria que tudo terminasse logo, não queria ver ninguém. Levantou o olhar, sobressaltada com o barulho que seu marido fazia enquanto se coçava e teve um ímpeto de cólera, por pouco não avançou sobre ele. Não havia lhe sobrado nada. Ao olhar Tiago, que parecia se divertir, odiou-o também. Por que eles tinham que ser tão parecidos? A cada dia teria que se contentar com uma caricatura infantilizada, com uma marionete que jamais teria o seu titereiro. Levantou-se e todos a olharam. Sentiu ruborizar-se a face. Andou até a porta e seu filho passou uma centena de vezes, ora voltando da escola, ora do trabalho, muitas e muitas vezes da Igreja, do mercadinho, do futebol, da casa daquela namoradinha metida que ele arranjou uma vez, mas que logo terminou, graças a Deus. Nunca mais entraria por aquela porta, tinha certeza. Só a abriria mais uma vez, pro adeus definitivo.

Ao ver a mãe levantar, o irmão mais velho encontrou o impulso que precisava para recobrar as forças. Estivera quase adormecido desde que o corpo do irmão chegara, tomado banho, com a camisa amarela de manga comprida que fora presente seu de aniversário, a calça social que mais utilizava para ir à Missa e aquele terço velho de madeira. Chorara, e chorara e chorara e foram muitos os porquês e nenhuma resposta além do doloroso silêncio. Seu irmão era um santo, um grande santo, todo mundo via. Não havia ninguém melhor que ele nem nessa cidade nem no resto do mundo. E agora estava morto, lascado, ia ser enterrado e o corpo ia apodrecer, feder, os bichos iam comer tudo e depois estava acabado. Não sobrava nada. Tanta Missa, tanto rosário, tanto Pai-Nosso, tanto perdão, tanta bondade… E o irmão mais velho desejou que tivesse sido ele no lugar do outro. Ele, que não cantava como o irmão, não conseguia pregar, nem rezava o terço todo dia. Ele, que guardava raiva do pai e da mãe e do cachorro e do diabo, e seu irmão nem com raiva conseguia ficar. Ele, que só ia pra Missa mesmo por causa do irmão, pra tentar ser bom como ele. Morto. Morto eles seriam iguais, aí sim. Já de pé, contemplou o cadáver e se livrou daquele mau pensamento. Juntou suas mãos às do irmão morto. Arrancou o terço. Aquilo não servira de nada em vida, não haveria de servir na morte. Segurou a cruz do rosário e viu a pequena imagem do Cristo crucificado ali incrustada. O mesmo Cristo que vira ainda no dia anterior na Missa e que nunca mais haveria de ver não podia salvar ninguém. Estava morto também, pensou, enquanto cuspia na cruz.

Ele havia mesmo cuspido na mão ou sou eu que estou ficando doido, perguntou-se o pai. Seu peito doía muito. No sentimento e na carne mesmo. Essa tragédia servira ao menos para mostrar que ele já era um velho. Não dava mais pra certas coisas. Já tinha uma aposentadoria, não tinha por que ficar com barraca em feira, que mal dava um troco. Quando seu filho estava vivo, ainda ajudava, passava lá de vez em quando, mas agora ficaria só, vendo as mesmas pessoas, cortando um queijo aqui, outro ali, se cansando, gastando o restinho de vida que já nem tinha mais. E também era loucura isso de ir pra coral cantar em Missa, um homem da idade dele. Isso é coisa pra mulher e menino novo, não pra quem só está esperando a hora. Ficando em casa ganharia mais.

As conversas do lado de fora já iam animadas, e havia momentos em que se conseguia distinguir uma risada, normalmente seguida de uma reprimenda. Mas era sinal de que estavam todos impacientes, já passava da hora de abrir a porta e deixar fazer a sentinela como todo mundo fazia. Tiago, que vira seus familiares movendo-se, levantou-se e, com dois passos vacilantes, chegou até bem junto do irmão morto, perguntando, especialmente para o pai, mas para qualquer um que quisesse responder:

– Ele está morto mesmo?

Não houve resposta, mas a reação de todos ali era a de quem já havia esquecido como se travavam os diálogos. Olhavam o caçula como se houvesse profanado um templo fazendo uma oração pagã. Com todos os olhares ameaçadores fitos em si, Tiago aproveitou a atenção ultimamente escassa e fez a pergunta que queria fazer desde o dia anterior:

– Posso ficar com os óculos dele?

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3 Respostas para “Em família

  1. Texto muito bom! Ainda bem que o garoto foi sincero e sem fingimento perguntou pelo óculos, talvez na hora errada, mas é sempre melhor ser verdadeiro que falso.

  2. As sentinelas no interior são marcantes. As pessoas sentadas nos bancos do lado de fora falam de tudo abertamente. Bandidos, e seus roubos/assassinatos, plantações, milho, feijão, chuva, mulher que trai marido (mas nunca marido que trai mulher), pessoas que se acidentaram, e os possíveis culpados, ou inocentes, de cada uma das tragédias da vida. As sentinelas servem como uma desculpa para pessoas que nunca mais se viram, se juntarem num lugar comum e baterem papo. 10 minutos de condolências e 5 horas de cafezinho e papo furado. O que se passa na cabeça dos parentes diretos foi retratado de forma bastante peculiar e interessante. A construção ficou interessante, com cada parágrafo dedicado a uma personagem. A fé pouco desenvolvida ficou bem retratada, no jovem que acreditava por obrigação, e só precisa de um empurrão para criar revolta, e nos velhos, cheios de traumas e tristezas, ódios e remorsos guardados há muito.

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