O Vendedor de Passados – José Eduardo Agualusa

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei… em 2008.

Remexendo nos arquivos do meu PC, encontrei essa pequena resenha que eu fiz há pouco mais de três anos. Espero que gostem.

Certa vez, Fernando Pessoa disse:

“O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto”.

E se pudéssemos reverter a sua primeira afirmação, gênio lisboeta?

José Eduardo Agualusa tentou.

Publicado em 2004, “O Vendedor de Passados” é uma sátira social e política. O livro, construído em prosa, com muito humor, imaginação e sensibilidade, consegue abordar temas difíceis, como o período colonial e da guerra civil angolana, e as variadas conseqüências na formação da identidade desse povo sob o jugo português. Metaforicamente, Agualusa, supino conhecedor da história angolana, constrói uma narrativa que perpassa as questões da formação da identidade em um país marcado pela predominância de uma cultura estrangeira e da fabricação de um passado de honra para uma classe emergente.

O romance, que mistura ficção à realidade, é narrado por uma osga (lagartixa), de nome Eulálio, que conta o dia-a-dia de Félix Ventura, um albino, que vende passados dignos a pessoas que desejam se livrar de uma historia indigna (de violência, guerras, corrupção e mentiras). Os contratadores de seus serviços? Empresários, generais, políticos e burgueses angolanos, que possuem, na sua história, um presente de orgulho, mas um passado desonrado.

Nesse finíssimo livreto, Eulálio conta como um negro albino, Félix, cria passados para seus clientes. Certa noite, um estrangeiro bate em sua porta a procura de seus serviços. O homem diz ser fotógrafo de guerra, e quer uma identidade nova. No primeiro momento, o vendedor reluta; todavia, no instante em que o estrangeiro lhe apresenta uma mala atulhada de dinheiro, as coisas começam a mudar, e ele aceita realizar o mais novo trabalho.

O estranho quer uma identidade – de preferência angolana. Após o término da nova árvore-genealógica, o comprador passa a ser José Buchmann. Este tem como principal peculiaridade, buscar, insistentemente, convencer-se de que é o outro que acabou de comprar – de afirmar-se como José Buchmann e sua fictícia origem angolana.

A respeito dessa aberração, a lagartixa refletiu:

“Venho estudando desde há semanas José Buchmann. Observo-o a mudar. Não é o mesmo homem que entrou desta casa, seis, sete meses atrás. (…) Em primeiro lugar está a mudar de sotaque. Perdeu, vem perdendo, aquela pronúncia entre eslava e brasileira, meio doce, meio sibilante (…) Serve-se agora de um ritmo luandense (…)”.

Além do passado de Buchmann, Félix cria, para um novo cliente, um livro de memórias no qual este passa a ser um importante Ministro. Esse indivíduo estava na rua como mendigo e é trazido por Buchmann para que Félix possa ajudá-lo. O seu nome: Edmundo Barata dos Reis. Um ex-agente, comunista, e que tem, no decorrer da trama, um papel crucial na vida de todas as outras personagens.  Temos também o relacionamento amoroso entre Félix Ventura e Ângela Lúcia. Nessa parte da obra é possível perceber que o autor sofreu uma leve influência de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, pois a manutenção literária desse caso prejudica, em muitos trechos, o desenrolar da obra e o seu foco.

O Vendedor de Passados é rico na originalidade, contudo é fraco na construção da maioria das figurinhas centrais. Não obstante essa fragilidade, tudo, na minha humilde opinião, é sanado com a figura de Eulálio. Durante todo o romance essa criatura singular faz inúmeras perguntas relacionadas à sua capacidade crítica, sua inteligência, a respeito das pessoas que procuram Félix e sobre a sua reencarnação no corpo de uma lagartixa.

Sobre o seu passado, ela afirma:

“A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável. Está sempre lá, belo ou terrível, e lá ficará para sempre”.

Ou ainda:

“Um nome pode ser uma condenação. Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, ilumem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum. Recordo sem prazer, sem dor também, o meu nome humano. Não lhe sinto a falta. Não era eu.”

Esse livro consegue manter o suspense até as últimas páginas, e é, sem dúvida nenhuma, recomendado a qualquer pessoa interessada, não somente às questões da identidade, história e memória, mas em romances como um todo.

Procuremos mais livros desse autor angolano. 

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