Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Li, de uma só vez, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, graças a uma viagem a trabalho hoje, para São Francisco, e a um atraso de uns quarenta minutos para o início da reunião da qual participei. Ouvi falar desse livro há muito pouco tempo e na primeira oportunidade fui à Escariz e, surpresa!, lá estava um exemplar, esperando por mim. O tema me conquistou – uma distopia, acompanhando obras como Admirável Mundo Novo e 1984, mas com um diferencial decisivo: neste mundo se queimam livros.

O ponto de partida do livro, o próprio autor revela na Coda, é o politicamente correto que tentam impor diversas minorias – e ele deixa claro que essas minorias podem ser mulheres, marcianos, fumantes, não fumantes, negros, gays, héteros, vegetarianos, católicos, budistas, enfim, qualquer grupo que queira retalhar um livro porque se sentiu ofendido por essa ou aquela frase. E ele cita exemplos de situações pelas quais ele próprio passou.

No livro, Guy Montag, personagem principal, é um bombeiro, cuja atribuição é queimar livros. Após uma conversa com uma adolescente, Clarisse, ele começa a rever tudo que fez e faz. Diversas outras situações fazem-no questionar sua vida e suscitam uma curiosidade quase irreprimível pelos livros, por saber exatamente o que eles contêm para que sejam considerados tão perigosos.

Em determinado ponto da narrativa, Beatty, o seu chefe, um homem que acredita na sua profissão, mas que é capaz de citar Shakespeare com a mesma facilidade com que fuma um cachimbo, lhe esclarece algumas coisas:

“Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem.”

 “Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum.”

Montag acaba conhecendo o professor Faber, que o esclarece acerca do potencial dos livros assim se pronunciando:

 “Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas.”

 Gostei bastante do livro. Além da temática, trata-se de um romance bem articulado, bem escrito, com passagens belas, como a seguinte:

“Agora, inalando toda noite para dentro de sua boca aberta e exalando-a pálida, com todo o negror que lhe restava pesado dentro de si mesmo, retomou um passo regular de caminhada.”

O depoimento do autor, ao final, coroa esse belo livrinho. E finalmente entendi quando Reinaldo se referiu ao livro que ele guardaria na cabeça. Agora só me falta assistir ao filme e ler muitos livros – e guardá-los – para o caso de esta distopia vir a se tornar realidade.

 “Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo.”

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4 Respostas para “Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

  1. O final do filme/livro, para aqueles que realmente são amantes da literatura, é fascinante e tentador. Guardar um livro com você… Ou melhor, você SER um livro. Ser aquele que narrará a história; monopolizará o texto; modificará (se quiser, claro; e essa não é a ideia) o texto ao seu bel-prazer… Realmente, muito tentador. E o filme, dirigido por François Truffaut, de 1966, demonstra perfeitamente isso. No primeiro momento, a aversão sem motivo à literatura; em seguida, o fascínio e o poder que ela exerce na nossa vida. Conheci esse filme graças a Wesley (claro), e lembro-me, claramente, do quanto fiquei feliz. Sem dúvida nenhuma, duas obras indispensáveis.

  2. Não li o livro ainda (espero que tu me emprestes – risos), mas a versão fílmica do Truffaut é perfeita! Um dos filmes que, definitivamente, mais marcaram a minha adolescência, de uma época em que eu tinha certeza de que, por não ser “igual”, eu feria a democracia… Ai, ai, como padeci nesta época, pela culpa da diferença… Ser apaixonado pela Literatura (e pelo Cinema) num local em que chegar aos 30 anos sem ser obcecado pelo Gugu ou pela pornografia reles das Brasileirinhas ou pelas canções da Calcinha Preta era um ideal temerário de vida que tentavam tirar de mim a qualquer custo… Talvez não tenham conseguido, tomara que não…

    E, de fato, seria-me deveras difícil escolher apenas um – mas creio que já seja por demais evidente qual eu escolheria.

    Preciso ler este manifesto! Deixa lá no DAA algum dia, por alguns dias… Ou me diz onde devo buscar (heheheheheh)

    WPC>

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