Fahrenheit 451 – François Truffaut

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Escrevi sobre o livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, aqui. De posse do filme, foi-me impossível vê-lo sem comparar ao romance. E aí veio um pouco de decepção. Minha esposa, que viu o filme comigo e não leu o livro, gostou bastante, mas senti falta de dois dos principais personagens: o sabujo, um cão/aranha/robô que realmente seria quase impossível de emular com eficiência nas telas, e o professor que ajuda Montag a ingressar no mundo proibido dos livros. Além disso, o capitão do filme é completamente diferente daquela fascinante personagem do livro, que é muito mais mordaz e agressivo, que provoca, que atiça Montag, e que é capaz de fazer belíssimos discursos citando a literatura que tanto despreza.

Posso adiantar que a escolha da mesma atriz para interpretar a mocinha e a esposa de Montag é bem interessante, mas que prefiro a solução do livro. Além disso, algumas pequenas mudanças (o livro que Montag é, o momento em que ele começa a ler, os encontros no trem e não caminhando, uma determinada companhia que ele encontra ao final do filme)… tudo isso me desagradou um pouco e atrapalhou deveras a experiência fílmica.

Mas o argumento do filme – e do livro, naturalmente – é por demais forte para se deixar abater por esta ou aquela escolha. O filme é muito contudente e consegue com maestria transmitir a mensagem contra a ignorância e o pensamento pré-fabricado.

Mais uma vez: ainda não sei que livro seria. Se pudesse ser só um conto, não tenho dúvidas de que eu seria um homem ridículo.

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4 Respostas para “Fahrenheit 451 – François Truffaut

  1. Então…

    Comigo aconteceu o percurso inverso, como já tive a oportunidade de te relatar em diversas oportunidades: perdi a conta de quantas vezes revi o filme desde a minha adolescência e, somente agora, tivesse acesso ao livro. Comprando-o ao filme, não senti muita falta do Sabujo não, ao passo que, sim, admito que a unilateralidade persecutória do capitão Beatty perdeu muito da genialidade compositiva do mesmo personagem no livro, mas… Prefiro o filme! E não é só porque vi antes não (risos)

    Se, de fato, achei o livro superior em seus primeiros 2/3, desgostei um pouquinho das soluções tomadas a partir da fuga do personagem: acho-o mais “motivado” no filme, o que se deve bastante à apreciação mui pessoal da extrema coerência temática do diretor François Truffaut, que embute tudo o que toca com sua obsessão pelo “amor difícil”, no sentido mais geral de ambos os termos. Não somente gostei muito da duplicação feminina em vieses opostos como os toques de gênio na adaptação me surpreenderam: o elogio temeroso aos sistemas de transporte, a abertura falada (e NÃO escrita) durante os créditos, a inclusão de textos dúbios (como o “Minha Luta”, de Adolf Hitler) entre as obras que os amantes dos livros tentam impedir que sejam queimadas, a adoção de jargões da Nouvelle Vague e dos Cahiers Du Cinèma entre os motes defensivos dos personagens… Tudo isso contribui para que o filme me fira com ainda mais pujança!

    No plano contextual-descritivo, porém, o livro se supera. Sendo assim, prefiro não compará-los muito: são tão autônomos e geniais que cada um deles tem vida própria: Bradbury é Bradbury (como bem demonstrou no Posfácio e na Coda) e Truffaut é meu Truffautizinho querido, meu xodó cinematográfico. Amo ambos!

    Wesley PC>

  2. Ler um livro depois de ter assistido um filme que nele se baseou (ainda mais no seu caso, que assistiu e re-assistiu a exaustão) é uma coisa que não recomendo para ninguém. Quando a caracterização dos personagens e do narrador, enfim da história, no filme é totalmente fiel ao que o autor original propunha (como em No country for old men) não há uma perda imaginativa tão grande. Mas em casos em que há verdadeiras adaptações (às vezes essa palavra assusta quando empregada em uma obra pela qual você tem apreço), é frustrante. Não há como se libertar das comparações, ou de imaginar o personagem do livro como ele o é nas telas…

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