Monange

Rememorando o exercício da sétima aula da Oficina Literária de José Castello:

No exercício de hoje, não se trata de buscar o avesso, mas de suportar a convivência de aspectos antagônicos e, na aparência, inconciliáveis. Escrevam um relato de no máximo 3 mil caracteres em que os clichês do Bem e do Mal convivam sem se excluir. Em vez disso, que eles se confundam, se misturem, se interpenetrem e até troquem de lugar. O objetivo é chegar a um relato em que, no fim da leitura, o leitor se sinta incapaz de tomar partido, ou de tirar lição. Em que termine tão intrigado e cheio de dúvidas como no início de sua leitura.

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Jonildo alimentava a sua porca com pedaços de palma e um pouco de milho ralado, quando pensou: “É hoje que eu chupo gostoso, minha bichinha” – e, sorridente, deu duas palmadinhas na rechonchuda traseira do animal.

Já pariu? – perguntou um homem que passava.

Ô rapaz, quanto tempo! Que nada, ainda não – disse Jonildo, no mesmo instante em que trancava a portinhola. Mas tá pra nascer. Veja como já tá inchado – e deu mais duas palmadinhas na porca, o que a fez grunhir e correr assustada para longe. Deve sair uns doze, acho. Mas só Deus pra saber – e tirou o chapéu e olhou para céu.

É, pior que é mesmo – disse o homem, ao encostar a saliente barriga na parede baixa do chiqueiro e esticar o pescoço para dentro e escarrar no chão. Só Deus pra saber dessas coisas com certeza. Mas deixe eu ir queu to com pressa; de noite a gente proseia mais – e tomou novamente o seu percurso, até estancar a poucos metros. O homem, então, de cabeça baixa, voltou-se para Jonildo e, em tom de segredo, disse: Ah, já ia me esquecendo: Vai ter filme hoje?

Olhe a cara de puta pidona dele Houhouhouhouhou! Ô se tem! Prepare o melhor perfume e escove os dente, Seu Zé, pois hoje tem mais de uma cabeludinha pra nóis, viu?

E num mandou raspar, não, foi? HIhihihihihhihihihi.

Se precisar, a gente raspa a bichinha na hora! Houhouhouhouhou.

***

Em casa, Seu Zé terminava de comer três ovos e cinco pedaços de carne de boi com farinha. Ele estava impaciente. Coçava fortemente a cabeça; olhava repetidas vezes para o relógio de pulso, que balançava folgado no braço; sentava no banquinho de madeira encostado à estreita porta, mas logo se levantava para se espiar num espelhinho na parede.

Ô tempo que num anda – pensou, e escarrou no chão de terra e foi sentar.

Por fim, o relógio da parede bateu. Ao som do sinal, ele deu um pulo e caminhou apressadamente em direção à dispensa. Lá, atrás de alguns copos encardidos, dentro de um amassado envelope de papel jornal, estavam pequenas pílulas azuis. Seu Zé pegou duas delas e rapidamente depositou-as na boca.

Um pouco de água para descer liso – disse.

***

Em frente ao espelho, Jonildo cortava alguns pêlos que escapuliam do nariz. Terminado o serviço, ele sentou na cadeira e começou a comer um punhado de amendoins com café frio. Três grandes goladas foram suficientes para esvaziar a caneca de alumínio. Aproveitando o ensejo, gargarejou um pouco do liquido preto, para, em seguida, levantar-se e cuspir na pia. Por fim, exclamou:  

Pronto, agora eu quero vê se num meto de um buraco a outro – e bateu a caneca na mesa de madeira e caminhou em direção à porta da frente.

cortando uma, Jonildo? – gritou alguém do lado de fora.

Tomando um cafezinho – disse Jonildo, enquanto tirava as duas tramelas da porta. Senta aí, que eu vou ali pegar um café pra nóis – e virou as costas e retornou à cozinha. Fiz agora, agora…

Precisa não. Acabei de comer – e espantou o gato deitado no sofá e sentou. Tô cheio até a tampa – disse, e bateu a mão na saliente barriga branca.

Foi caçar esses dias, Manoel – perguntou Jonildo, e pegou dois copos na dispensa e colocou café até a metade.

Rapaz, fui não. Ando meio doente esses dias. E depois que inventaram essa de desarmamento, eu quase não caço mais. É uma safadeza esse nosso governo. Tira as arma dos homem de bem, pra dá pros bandido.  

Açúca ou adoçante – perguntou Jonildo.

Rapaz, já que perguntou, pode ser com adoçante… por favor. Tô tirando doce da minha vida. Doce agora, só se for dos beiço de uma morena Hehehehehehe.

Isso daí é pra dizer que gosta Houhouhouhouhou – disse Jonildo, da cozinha.

Saí daí, Papai Noel feio do cabrunco – disse Manoel, e, levantando-se, caminhou até uma estante à sua frente. Tem coisa melhor que mulher nesse mundo – perguntou. Se tiver, Deus ficou pra ele Hehehehehehe.

Jonildo adentrou na sala e viu Manoel a malinar em umas mídias que estavam na estante ao lado do aparelho de DVD.

Tá vendo se tem Júlio Nascimento – interrogou Jonildo.

Não, não, eu tô vendo é esse Monange aqui… Rapaz! O senhor um homem de bem e dando pra viado depois de véio. Faça isso não…

Deixe minhas coisa aí. Num tá vendo que eu uso na minha pele que é ressecada. Trabalho o dia inteiro no sol, coisa que você nunca fez na vida – retrucou e tomou violentamente o frasco da mão de Manoel e colocou sobre a mesa, que ficava encostada próximo à porta da cozinha.   

Calma, calma, vai me morder?! Hehehehehehe

Ô de dentro – gritou uma voz do lado de fora. Abra essa porta queu tô me arrombando nessa chuva.

Já vai, já vai – disse Jonildo. Você é feito de açúca?

Não, mas meu cacete é – retrucou Seu Zé.

Jonildo fechou a porta nas costas do mais novo visitante; depois, em tom de chacota, disse:

Tá cheroso – e passou a mão nos cabelos molhados de Seu Zé. Que porra é essa, óleo de peroba?!

Ô, e você quer o quê – disse Seu Zé, ajeitando o colarinho da camisa verde de botão. Boa noite, Manoel – e apertou com muita força a mão do amigo e puxou um banquinho de madeira e sentou ao lado do sofá. Veio cedo, em? Chaninho, chaninho… Mas também, faz quanto tempo que não vê uma cabeludinha? Três meses? Quatro?

Na verdade, vai fazer um mês – respondeu Manoel, sorvendo o café aos goles. Comi uma mulatinha na feira e…

“Mulatinha”… – disse Seu Zé, fechando o olho direito com força, como se estivesse a puxar algo pela memória. Você tá falando de Soraya, mão de fogo – perguntou, e fez um movimento de pilar com a mão direita.

Não, não, essa é a do cu doce. Mão de fogo é a Xayane, aquela que tem um pinguelo do tamanho da minha mão.

Peraí, peraí… Você encontrou essa tal “Mulatinha” ali perto da feira-do-paraguai – perguntou Jenildo com os olhos arregalados.

Foi bem ali mesmo – confirmou Manoel.

É uma que tem uma mancha no rosto e… Você num fez isso – intrometeu-se Seu Zé, surpreso. 

Por que essa cara – inqueriu Manoel já irritado. Tá rindo do quê, com essa cara de puta pidona?!

Ela… na verdade… é Ele HIhihihihihhihihihi.

O cabrunco que é! – gritou, levantando-se do sofá. Voceis acha que eu num sei diferencia um Pau de uma Priquita, não? Pra casa do cabrunco voceis dois…

HIhihihihiihhhihihihi. Se arrombar! Um usa Monange e o outro gosta de pegar em cacete HIhihihihihihhihihihi.

HAHAHAHAhhahahahah.

Tem alguém em casa – gritou uma voz feminina do lado de fora.

***

Jonildo abriu a porta e permitiu que três mulheres entrassem. Boa noite, disseram. Elas estavam molhadas e enlameadas. Usavam roupas curtíssimas e extravagantes. Grandes brincos e batom vermelho ferrari. A primeira, que aparentava ser a chefe, uma morena de altura mediana, usava havaianas gastas e tinha a barriga flácida e as pernas cabeludas e oxigenadas. A segunda, uma loira quase anoréxica e de seios caídos, que pareciam prontos para despencar como fruta podre, tinha o corpo coberto por manchas arroxeadas e membros acinzentados. A terceira, uma preta, tinha enormes pêlos que saíam do púbis em direção ao umbigo e três tatuagens no formato de coração no tornozelo esquerdo.

Boa noite, meninas – disse Seu Zé, e puxou a loira para o seu colo. Sente aqui com o véinho, sente…

Calma, calma, aí vovô! Tem essa de “sentar” não – disse a chefe, puxando a segunda para junto dela. É melhor a gente acertar os preço e depois a gente “senta” onde voceis quiser.

Ela tem razão. Cê parece que está subindo nas parede. Dê aqui logo voceis dois a parte de cada um, pra gente podê comer logo – disse Jenildo.

As três mulheres sentaram no sofá e esperaram os três homens acertarem as contas. A loira, impaciente, levantou-se e foi malinar no aparelho de DVD. Escolheu um filme e colocou para assistir. “Use sempre camisinha”, dizia a mensagem na televisão assim que ela deu play.

Voceis trouxeram as suas, meninas – questionou enfaticamente a mais velha.

Trouxemos – responderam em uníssono a loira e a preta, e tiraram do sutiã três camisinhas para demonstrar.

Assim que o filme começou, a preta entrou no quarto contíguo à sala da televisão; a loira, por sua vez, irrequieta, adentrou na cozinha e malinou na dispensa a procura de cachaça; ao tempo em que, a morena, sentada no sofá, colocou o bichano no colo e aguardou o término do conluio.

***

Estamos prontos – disse Jonildo. Podemos começar.

Graças a deus – gritou a loira da cozinha.

Bem, como eu sou o dono da casa, eu trepo primeiro. E então, quem vai comigo – perguntou Jonildo, esfregando as mãos.

Euuuuu – gemeu a preta de dentro do quarto. Eu tô proooonta… vem loooogo gostoooso…

Vai lá jegue. Tá vendo que a nega já tá coçando, não?! Deixe só o buraco – disse Seu Zé. Quero ver se essa história de amendoins é verdade mesmo.

Jonildo entrou no quarto e fechou a porta às suas costas.

Concomitantemente aos gemidos provindos do filme, era possível ouvir, do quarto vizinho, as batidas e o chacoalhar do velho e da prostituta na cama. Alguns gritos da preta; outros grunhidos dos e palavrões do velho. Instantes depois, a mulher saiu e escancarou a porta. No chão, um velho de pernas arreganhadas, nu, sujo de lama, suado e tremendo.

HIhihihihiihihhihihihi que véio fraco da peste HIhihihihihihhihihihi – gargalhou Seu Zé.

A puta que saiu do quarto olhou para trás e riu; a anoréxica da cozinha, agora estava no chão, nua e bêbada com um litro de pitú entre os seios; e a chefe, que observava deitada, continuou a brincar com o gato.

Tem algum banheiro aqui nessa casa – perguntou a morena, e atirou o gato pela janela entreaberta.

Tem uma privada. Venha, eu levo você lá – disse Jonildo.

E eles foram.

Seu Zé parou de gargalhar e olhou para a loira bêbada estirada no chão da cozinha. Aproximou-se dela; olhou-a dos pés a cabeça; ajoelhou-se ao seu lado, e, de súbito, enfiou a mão direita em sua vagina. A mulher, semiacordada, apenas sorriu e olhou para o lado, deixando cair um fiozinho de baba pela boca. Ele limpou o escorrimento e esfregou a mão na barriga dela.

Galega, você vai tê que agüentar – disse Seu Zé. Vou ficar sem furar hoje não… – e enfiou novamente a mão na vagina. Priquita seca do cabrunco é essa?! – pensou. Enfiou o cu na areia, minha fia HIhihihihihihihihihi? – disse e riu em voz alta.

Voltando-se para a sala da televisão, ele olhou para o Monange que estava sobre a mesa. Antes de pegá-lo, roçou as duas mãos no casaco. Pegou o frasco e derramou um pouco, e esfregou as duas mãos. Em seguida, caminhou até a anoréxica; deitou sobre ela; arregaçou as suas pernas; enfiou a mão em sua vagina e começou a penetrá-la. Por fim, exclamou:

Agora sim, entrou lisinho.

Do lado de fora, na privada, era possível ouvir o som de duas pessoas gemendo de prazer e um cão a latir.

***

 Jonildo alimentava a sua porca com pedaços de palma e um pouco de milho ralado, quando pensou: “Botei pra fudê com aquela preta, minha bichinha!” – e, gargalhando, deu duas palmadinhas na rechonchuda traseira do animal.

Já pariu HIhihihihihihihihihihi – perguntou um homem que passava. 

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4 Respostas para “Monange

  1. Não gosto desse estilo Bukowski nordestino, chulo. Reconheço o mérito de Reinaldo ao reconstruir uma situação comum em muitos interiores, entre uma parcela da população que vem diminuindo. Nós, que somos do interior, conhecemos várias pessoas assim. Eu até estava no momento em que aconteceu a situação do monange, que, sem dúvida, inspirou o nosso jovem literato. 😀

  2. Li esse texto uma 3 ou 4 vezes antes de ser postado por conta da preocupação do autor com seu tema. “Texto bem escrito – eu lhe disse – mas sem propóstito. Ele não tem objetivo, simplemente é por que é.”
    Bom texto, ótimo exercício. 🙂

  3. Vamos lá…
    Hora dos comentários: enquanto exercício, acho que a “missão” não foi de todo cumprida: por mais realistas e parecidos com gente que nós conhecemos – dignos mais de pena e entendimento contextual do que reprovação – não acho que os tais “clichês do Bem e do Mal tenham se invertido aqui… Tomo partido sim – e tu sabes bem qual é! Não gosto deste tipo de pessoas – e fico contentíssimo que tua Josi te afaste cada vez mais deste rabujo erótico de velhos solitários e embrutecidos – que é o que tu poderias te tornar se… se… Não a tivesse encontrado (risos)

    Talvez eu também desgoste do estilo bukowskiano nordestino destacado pelo Leonardo, mas meus motivos de leve repúdio aqui são outros: achei que o tom elíptico comumente fecundo não ficou bem aqui, visto que a estória é linear, contígua, apesar de bem-vinda circularidade que se manifesta ao final. Tanto é que fiquei a me perguntar: uma trama pode ser linear e circular ao mesmo tempo? (risos) Pelo visto, SIM, pode! E não ser defeituosa por causa disso (risos)

    Pornografia inassumida é algo que me incomoda, tu bem o sabes – e, nesse sentido, estes personagens me incomodaram negativamente, dado que sei que eles existem, que estão perto de mim, e que vão me encher de porrada qualquer dia, se brincar depois de esculhambarem com meu cabaço anal, aproveitando um termo que poderia muito bem ter saído de algum de teus personagens (risos melancólicos)

    Mas, deixa quieto. Por outro lado, as putas me cativaram: gosto delas, me sinto como eles, se bem que essas três me lembraram as narradoras de SALÒ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (risos) – só que bem mais humanizadas (hehehehehehehe).

    Quanto ao DVD do “Monange”, e aí, me emprestas? (kkkkk)

    WPC>

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