Entrevista ao Jornal Rascunho – João Ubaldo Ribeiro

O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro participou, no dia 13 de maio, do Paiol Literário, em Curitiba, promovido pelo jornal literário Rascunho. Na oportunidade, falou de forma franca e simples sobre diversos assuntos. Para quem gosta de literatura, vale a pena conferir os melhores momentos do bate papo, que estão aqui.

É um texto longo, mas muito interessante. Abaixo alguns trechos que destaquei:

“Eu queria ser um bom escritor. Tem uma frase interessante que o Vargas Llosa diz que quando o sujeito senta para escrever, ele resolve se quer ser um bom escritor ou não. É um pouco verdade. Eu resolvi que seria um bom escritor, que seria um escritor sério. Nunca tive nenhuma dúvida sobre isso. Eu escrevo normalmente um Conrad, Joseph Conrad, que escrevia oitocentas palavras por dia. Escrevo de manhã, quando acordo. No dia seguinte, pego o fim do que estava escrevendo no dia anterior para embalar, copio e aí vou seguindo.”

“Não me realizo, não me sinto realizado com a literatura. Acho que ninguém leu. Sempre tenho essa impressão. Talvez seja uma presunção muito grande minha.”

“Tem gente que sabe o nome de todas as ruas de Dublin, sabe passagens do Ulisses de cor. Você encontra essa intimidade com os Beatles e com uma série de coisas. Agora, intimidade com o passado português/brasileiro pouca gente tem. […] Nós não temos respeito por nós mesmos. Nós não nos achamos bons. […] Este é um problema nosso: nós não somos nada. Ou somos uma porção de besteiras: o melhor futebol do mundo, o melhor arquiteto do mundo, o melhor piloto do mundo. É verdade que a ignorância tem contribuído para que a nossa língua se empobreça. Mas nossa língua não é ruim, nossa literatura não é ruim, nós não somos ruins. Nós temos um autodesprezo muito disseminado.”

“Nós não gostamos da nossa língua. Nós detestamos a língua, assassinamos os recursos que a língua tem, achamos que é pernosticismo usar uma mesóclise de vez em quando. Nós não nos suportamos como povo. Nós queríamos ser americanos. A verdade é essa. Ou franceses.”

“Sem a literatura como iria se descrever certos estados de angústias, se o poeta já não tivesse passado lá antes? Certos estados de perplexidade, se o poeta não tivesse passado antes? Não haveria palavra na medicina para distinguir isso. A língua precisa de seus escritores, de seus poetas, de seus compositores para poder se manter como instrumento hábil de expressão e de tradução da alma humana. Mas nós somos um país muito esculhambado. É o que nós somos. Não damos a menor importância. Menor importância é exagero. Falando genericamente, não damos importância a isso. Num país como a Alemanha, moderníssimo, até hoje se faz cópia: copia-se com boa letra um texto em alemão. Hoje, aqui, você é vaiado, posto para fora da escola, se diz “vai todo mundo copiar Sermões de Antonio Vieira com boa letra”. Nós abolimos o latim. Em compensação, instituímos não sei quantas disciplinas estranhíssimas, como Inter-relacionamento não sei das quantas. Agora o básico mesmo, o beabá da língua, o que se estudava ainda no meu tempo, descrição, dissertação, cópia, ditado. Essas coisas são necessárias para que se domine os instrumentos da língua. Mas estão fora da moda, muito chatos, não tem nada de glamuroso e não se faz. Resultado: produzimos universitários analfabetos. De modo geral, acho que estamos ladeira abaixo no Brasil.”

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5 Respostas para “Entrevista ao Jornal Rascunho – João Ubaldo Ribeiro

  1. Não gosto deste autor, mas é impossível não concordar com sua conclusão pessimista e ultra-realista: só acho um exagero achar que isto só acontece no Brasil… Nesse ponto, minha discordância é veemente: o mundo inteiro está ladeira abaixo! A cultura de massa em franquíssima decadência esta aí paar demonstrar!

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  2. Desse autor li somente “Diário do Farol”. Romance muito bem escrito, mas extremamente inútil e estúpido e óbvio.

    Não aconselho, definitivamente, a leitura desse livro.

    Ah, concordo com Wesley.

  3. Não gostei de O Diário do Farol, mas gosto bastante das crônicas que João Ubaldo escreve para o Estadão, especialmente aquelas sobre o cotidiano ea política. Além disso, ele deixou para a literatura brasileira pelo menos um clássico inquestionável: Sargento Getúlio, pequena obra-prima que faz você se sentir na estrada, entre os espinhos e garranchos do sertão nordestino.

  4. Bom, eu tenho A CASA DOS BUDAS DITOSOS aqui em casa, que é ótimo, mas não tanto quanto comemoram por aí…

    Mas temo nutrir uma antipatia pessoal pelo diretor em razão de depoimentos pessoais que vi dele em alguns documentários, como, por exemplo, sua pífia contribuição numa pesquisa sobre Glauber Rocha, em que ele se limitou a dizer que o genial cineasta baiano adorava peidar em, eventos públicos… Mas, deixa queito: lerei SARGENTO GETÚLIO um dia e, quem sabe, apreciarei um pouco mais o tal baiano…

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  5. Li algumas páginas dos “Ditosos” e não gostei. E não foi por causa da pornografia ohhhhhh, claro que não, mas sim devido a personagem. Caramba, posso saber por que ele não criou uma mulher normal? Não, ele precisa criar aquela “CRIATURA” que lê Shakespeare, cita todo tido de autor, e extremamente inteligente… Crir qualquer uma que conte aquela mesma história…
    Bem, é a personagem dele, fazer o quê…

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