O caminho para a liberdade – Arthur Schnitzler

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

Não foi com muuuuuuuito pesar que finalizei hoje, às 17:30, a leitura desse romance. Ele é bom, mas não o suficiente para ter me conquistado.

Como havia falado no primeiro post, Georg Von Werenthin é um homem que vive no silêncio (e no não compromisso). Músico profissional, os seus conhecidos reconhecem o seu formidável talento, mas também percebem no artista uma característica que lhe é única: o diletantismo. Ele faz somente por paixão, e nunca por objetividade. E assim ele segue na lógica do seu amadurecimento como Homem. E nesse sentido, Shnitzler cria um “antiromance de formação”, pois a sua personagem percorre todos os momentos da obra e, no final, parece não ter crescido nada (procure ler a respeito de Rodion Raskolnikov, caro leitor, e você entenderá o que quero dizer com “crescido”). Perambula nas ruas com a sua bicicleta, vai de praça em praça, de casa em casa, de café em café, nos inúmeros diálogos à mesa com as mais peculiares criaturas (diga-se, por exemplo, Heinrich Bermann, um tipo de Settembrini, de Thomas Mann), para, mesmo assim, garantir sua liberdade e sua leviandade; um herói negativo imune a qualquer desenvolvimento, a qualquer evolução.

Não existe nesse romance, necessariamente, uma trama, mas diálogos (muitos deles, na verdade) e a representação precisa de vários momentos da sociedade burguesa vienense.

No anúncio da editora Fischer para a primeira edição do romance, redigido interessante: “Imagens ricas e movimentadas dos mais diferentes círculos sociais são apresentadas. Conhecemos uma abundância de figuras unidas pela atmosfera peculiar da cidade, pela situação complicada de seu país e pelas relações interpessoais mais variegadas. Muitos dos problemas da época são tocados, sobretudo o destino dos judeus modernos no interior de grupos peculiares da sociedade vienense é investigado mais por seu lado anímico do que pelo aspecto meramente social.” (Posfácio, p.535)

A personagem principal percorre os mais diversos locais a procura de… de… Viver. Ele quer encontra-se, quer compreender. Compreender, por exemplo, a morte do Pai, os porquês do seu estado como músico desempregado, do romance com a amante Anna, da morte do filho recém-nascido ainda no ventre da mãe (no momento mais triste e belo momento da obra). E nesse bojo, além de questionamentos existencialistas, entram em cena, como quem não quer nada, debates sobre o antissemitismo e dos primórdios da social-democracia, representados pela personagem Therese Golowski.

Um texto de fôlego: 500 páginas, com os mais densos debates e as mais secas descrições psicanalistas. Momentos ímpares, como o trecho que se segue: “Georg ficou parado ali, imóvel; continuava de olhos fixos no pequeno ser, e este lhe pareceu como uma imagem de beleza inimaginável. Georg tocou suas faces, os ombros, os braços, as mãos, os dedos. Como aquilo tudo era perfeito, completo. E agora ele jazia ali, morto, sem ter vivido, destinado a passar de uma escuridão a outra através de um nada sem sentido. Ali estava aquele corpo doce e pequeno, pronto para a existência, mas que mesmo assim não podia se mexer (…). Ali se abria, como se estivesse sedenta, uma boca pequena e redonda, à qual não fora permitido sequer tocar o seio de uma mãe e sorver seu leite.” (p. 376). Mas como havia comentado, apesar de bons e ricos momentos, não foi com muuuuuuuito pesar…

Assim que terminei, não me veio o pensamento: “preciso reler o quanto antes” (como aconteceu ao término de Luz em Agosto, Meridiano de Sangue, Hamlet). Na verdade, o que me veio à mente foram as palavras do meu irmão, o Rei da Floresta:

“Mais uma experiência de vida!”

***

13/05/2011 às 16:56

Ainda não terminei…

Lá estava eu, sentado, lendo, aguardando o término do intervalo, quando um aluno sentou ao meu lado e perguntou: “Você só sabe ler esse tal de Dostoievski, é, professor?”. Eu, na minha humilde sapiência e paciência, não muito contente pela abrupta interrupção da leitura do já estimado Uma criatura dócil, fechei os olhos, respirei profundamente, e respondi: “Na verdade, eu nunca fui fieeeel a autor algum; para lhe ser sincero, quando o assunto é literatura, sou muito promíscuo”.

 O aluno arregalou os olhos e fez cara de interrogação.

 Não faz muito tempo, resolvi comprar um livro de um autor que, nunca antes na história desse país, havia lido na vida. Para tanto, precisaria deixar de lado (não por muito tempo) os clássicos autores da minha “urmilde” estante.

 “Quero ler algo diferente, algo novo. Tenho esse direito. Um livrinho só não me deixará com sentimento de culpa com relação aos tantos autores que guardo tamanha estima e que estão lá, coitados, nos seus devidos e reservados lugares, aguardando o seu momento. Voltarei em breve”.

 Apesar de toda essa preocupação a respeito da minha não fidelidade, logo, logo, pensei em outros autores. Veio-me à mente o argentino Jorge Luís Borges; o colombiano Gabriel García Márquez; o português José Saramago; o inglês David Herbert Lawrence; enfim, poderia ser qualquer outro famoso/recente/ou não autor, mas precisaria ser, impreterivelmente, um escritor diferente daqueles facilmente encontrados no meu armário/estante. Não me demorei nas prateleiras, e logo encontrei esse: O caminho para a liberdade, do vienense Arthur Schnitzler. Li a sinopse; vi a editora; folheei e procurei julgar o acabamento do livro; e, sem muito matutar, resolvi comprá-lo.

 Sobre o livro e a sinopse contida no próprio livro:

 “Em O caminho para a liberdade, Schnitzler faz do antissemitismo uma metáfora de todo e qualquer processo de exclusão no interior de uma sociedade, identificando na luta dos judeus o indivíduo moderno em sua tentativa de garantir espaço e liberdade. A obra causou escândalo por apresentar algumas figuras conhecidas da sociedade vienense sob a dura luz da realidade ficcional. A análise da hipocrisia burguesa, do antissemitismo e dos hipócritas padrões morais tornou Schnitzler conhecido e respeitado, mas ao mesmo tempo lhe rendeu críticas ferozes”. (grifo nosso)

 Estou no início do romance. Logo na primeira página, conhecemos aquele que aparenta ser o protagonista, Georg Von Werenthin. Um homem fascinado pela solidão. Não, ele não é triste, e muito menos melancólico, apenas silencioso à sua maneira (tudo bem que há pouco menos de dois meses ele perdeu, repentinamente, e de forma estranha, o seu estimado Pai, mas tirando isso…). Filho de burocratas, amigo de outros burocratas, freqüentador de ambientes “burocratizantes”. Assim é apresentado esse Homem.

 O estilo da escrita não é complicado; todavia, é extremamente atulhado de informações, de memórias, de nomes (complicados), de famílias… O texto, em certa medida, lembra-me àquele visto do Mann na “A Montanha Mágica” (com menos “dialética dos apostos”). Outro ponto imprescindível, diz respeito a análise psicológica do ser humano, pois Schnitzler, que muito influenciou os pensamentos de Freud, adentra de forma incisiva e clara nos pensamentos e emoções e inquietações das suas personagens. É como se o autor dissesse: “Eles são complexos, claro; mas aqui estão as suas vísceras: podem tocar”.

 Bem, por enquanto é só isso. Voltarei em breve – se Deus quiser e assim permitir – com mais alguns comentários a respeito desse novo autor que adentrou recentemente na minha vida (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk que maricagem).

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4 Respostas para “O caminho para a liberdade – Arthur Schnitzler

  1. (risos)

    Não lembro de ter ouvido falar deste autor, mas gostei da descrição do personagem não melancólico obcecado pela solidão. Também compartilho desta tua “promiscuidade”, mas, quando vou buscar autores desconhecidos, geralmente caio na literatura eslava ou circunvizinha… Numa das vezes, fui apresentado ao FOME, do Kntu Hamsun, que tinha muito a ver comigo, enquanto pretenso futuro jornalista… Noutra, a um livreco ruinzinho do Franz Kafka (algo sobre a construção da Grande Muralha da China, excerto dalguma obra maior, acho), e por aí vai…

    Atualmente, estou em busca doutro “achado” que nem este! (risos)

    WPC>

  2. Um livro que tenha em sua sinopse “antissemitismo” e “análise da hipocrisia burguesa” com certeza não é para mim. Ao menos agora e no futuro próximo e não tão próximo assim. No mais, não me parece ser interessante. xD

  3. Opa! Acho que devo estar a umas duas pedras do meu “bingo literário” atual…(Beeem) Na contramão de meus amigos pré-jornalistas acima, sou uma pós-jornalista altamente interessada no bom e velho antissemitismo e na linda e nova ligação deste às exclusões múltiplas dentro da nossa evoluída sociedade meio atrasada neste fin-de-siècle XX.
    Acho que vale conferir o amigo Arthur.
    Abs,
    Ju.

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