Sargento Getúlio – João Ubaldo Ribeio

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Havia lido esse livro há uns 8 anos, e a impressão que tive dele foi sensacional: é assim que se escreve um livro, pensei, é isso que marca, diferencia um escritor de um não-escritor. A capacidade de fazer o leitor imergir no universo do Sargento Getúlio, que leva um preso político de Paulo Afonso a Aracaju, o lero-lero desse homem angustiado, orgulhoso, valente, tinhoso, filósofo… João Ubaldo faz mágica. É um livro magistral, e a minha releitura reforçou essa minha impressão. Quando eu ler novamente falo mais dele.

Apenas como demonstração, Getúlio por ele mesmo, um dos trechos geniais, bem Ahabianos (isso se o Capitão Ahab fosse um verborrágico do porte do Sargento Getúlio:

Eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu nome é um verso e meu avô era brabo e todo mundo na minha raça era brabo e minha mãe se chamava Justa e era braba e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu, todas as coisas eu sou melhor.  Pode  vim.  Getúlio  Santos  Bezerra  eu  me  chamo,  e enquanto um carneiro qualquer um mata com uma mão de pilão na testa eu dou um murro na testa e mato esse carneiro ou outro que tenha e mato qualquer vivente e esses ferros que eu carrego eu manejo. Corro, berro, atiro melhor e sangro melhor e bebo melhor  e  luto  melhor  e  brigo  melhor  e  bato  melhor  e  tenho quatorze balas no corpo e corto cabeça e mato qualquer coisa e ninguém me mata. E não tenho medo de alma, não tenho medo de papafigo, não tenho medo de lobisomem, não tenho medo de escuridão, não tenho medo de inferno, não tenho medo de zorra de peste nenhuma. E não escuto liberdade, não converso fiado, não falo de mulher, não devo favor e não gosto que ninguém me pegue. O senhor já ouviu falar de meu nome, Getúlio Santos Bezerra, sou eu mesmo e quando eu dou risada pode todo mundo tremer e quando eu franzo a testa pode todo mundo tremer e se eu bater o pé no chão pode todo mundo correr e se eu assoprar na cara de um pode se encomendar. Sou curado de cobra e passo fome passo  frio  e  passo  qualquer  coisa  e  não  pio e se  me cortarem eu não pio. Durmo no chão, durmo em cama de vara, durmo em cama de couro, ou então não durmo e quem primeiro aparecer primeiro quem atira sou eu e quando atiro não atiro nas pernas, atiro na cara ou atiro nos peitos e os buracos que eu faço às vezes é um em cima do outro e tem uma coisa: em Sergipe todo não tem melhor do que eu e se eu lhe digo que não tem um melhor do que eu em Sergipe, não vejo esse bom, estou lhe dizendo que não tem melhor no mundo, porque essa é uma terra macha e eu sou o macho dessa terra.

Anúncios

4 Respostas para “Sargento Getúlio – João Ubaldo Ribeio

  1. Como costuma acontecer, vi o filme mas não tive acesso ao livro ainda…
    A auto-descrição é excelente e a trama promete, com certeza: “no Piauí, no Ceará, nas Alagoas/ O macaco avoa/ O macaco avoa”… Esta musiquinha jamais me saiu da cabeça! (risos)

    WPC>

  2. Ô pestinho valente e bom de tudo. Cabrunco bom!!!

    Estava no meu carrinho de compras, era esse e Vidas Secas, mas preferi comprar o Schnitzler.

    Fica para o próximo mês.

  3. Esse é uma das poucas leituras que você e Reinaldo fizeram que eu vou colocar na minha lista. Gosto da leitura cultural nordestina, como O quinze e Caso contado à sombra do mercado. Já vou lá no Skoob colocar na lista “vou ler”. 🙂

    Boa leitura.

  4. Eu vi esse espetáculo na Bahia com um ator maravillhoso! Eu fiquei abestalhada com a performance do cara. O Brasil é , realmente, um grande celeiro da arte.

    Lúcia Bonfim
    Professora

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s